Convidamos aos trabalhadores(as) do SUS e SUAS a baixarem o Manual, debaterem suas vinhetas em reuniões e fixarem seus roteiros nos serviços.
Envelhecer no Brasil é uma experiência plural, atravessada por marcadores sociais que definem não apenas trajetórias de vida, mas as próprias condições de acesso à saúde, à dignidade e aos direitos fundamentais. Historicamente comprometido com uma Gerontologia Social crítica, emancipatória e engajada, o Portal do Envelhecimento celebra e apoia o lançamento de uma ferramenta pedagógica e clínica essencial: o “Manual de Orientação para Profissionais — Interseccionalidade e o Cuidado: Combate ao Racismo e ao Idadismo na Atenção Primária à Saúde“, coordenado por Thiago Medeiros da Costa Daniele.
O Manual foi organizado por pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade de Fortaleza (UNIFOR) e do Grupo de Estudo e Pesquisa em Envelhecimento, Saúde e Subjetividades (GEPESS), com apoio do Itaú Viver Mais e do Portal do Envelhecimento. A publicação foi elaborada no âmbito do projeto “Das Marcas (In)Visíveis à Produção de Saberes” selecionado no Edital Acadêmico Envelhecer com Futuro 2026. Trata-se de uma tecnologia educativa que ultrapassa as fronteiras da Atenção Primária e convoca toda a rede sociossanitária — assistência social, centros de convivência, hospitais, clínicas, bibliotecas e serviços comunitários — a repensar suas práticas diárias de acolhimento.
O silêncio institucional e o corpo que carrega a história
Na rotina dos serviços públicos, é comum ouvir de mulheres idosas e negras a resposta serena: “Graças a Deus, nunca tive problema” ou “Nunca sofri preconceito”. No entanto, por trás dessa aparente ausência de conflito, reside uma das dinâmicas mais perversas do racismo institucional e do idadismo: a naturalização das opressões. Ao longo de décadas de trabalho precarizado (na lavoura, no trabalho doméstico, nas lavanderias) e de chefia familiar sem amparo estatal, essas mulheres aprenderam que nomear a violência sofrida pode ter um custo simbólico e prático alto demais.
A motivação primordial na elaboração do Manual residiu na urgência de romper esse pacto de silenciamento. As queixas de discriminação e sofrimento quase nunca chegam estruturadas ou prontas nos mais diversos serviços públicos. O racismo institucional muitas vezes opera na omissão: no histórico ocupacional negligenciado, na pergunta sobre a raça/cor ignorada ou preenchida sem critério, na suposição de que a dor articular crônica é apenas “coisa da idade” e não a marca de uma vida inteira de sobrecarga laboral e física.
Para além disso, a discriminação por idade (idadismo) surge no cotidiano dessas mulheres sob a forma de infantilização, impaciência e tutela indevida. O Manual nasceu da necessidade urgente de munir os profissionais com a sensibilidade e o instrumental adequados para enxergar o que não está dito, superando tanto a condescendência paternalista quanto a indiferença burocrática.
CONFIRA TAMBÉM:
Da conscientização teórica à transformação prática da conduta
O objetivo central da publicação é instrumentalizar as equipes multidisciplinares para que reconheçam e enfrentem ativamente as manifestações cotidianas do racismo e do idadismo nos encontros de cuidado.
Não se trata de um receituário acusatório ou punitivo voltado aos trabalhadores, mas sim de um convite à corresponsabilidade. Os objetivos específicos do Manual articulam:
1) Desvelar a interseccionalidade no território: Demonstrar que gênero, raça, classe e idade não são eixos de vulnerabilidade isolados que simplesmente se somam, mas uma experiência integrada e simultânea vivenciada no corpo dessas mulheres.
2) Promover a autonomia e o respeito: Combater a infantilização generalizada no vocabulário clínico (evitando termos despersonalizantes como “vozinha” ou “querida”) e assegurar que a usuária seja a protagonista das decisões sobre seu próprio corpo e tratamento, mesmo na presença de acompanhantes mais jovens.
3) Qualificar a anamnese e a notificação: Transformar perguntas protocolares em momentos de escuta qualificada, abrangendo o quesito raça/cor pela autodeclaração, a busca ativa de cuidadoras sobrecarregadas e o registro de violências motivadas por racismo no SINAN.
4) Alcançar a rede intersetorial: Fazer com que o material seja adotado como guia de cabeceira por agentes comunitários de saúde, assistentes sociais, enfermeiros, médicos, psicólogos e demais mediadores das políticas públicas de cuidado.
Acesse o Manual na íntegra
Construído com elas, não apenas sobre elas
O grande diferencial ético e político do Manual é a sua matriz metodológica participativa. O material não foi desenvolvido em gabinetes fechados: é fruto da construção coletiva com 18 mulheres negras, idosas e periféricas da Comunidade do Dendê, em Fortaleza (CE), com idades entre 60 e 84 anos.
Aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa, o trabalho foi conduzido em etapas rigorosas:
– Grupos focais e escuta compartilhada: Realizados nos dias 20 e 21 de maio de 2026, os encontros permitiram resgatar narrativas sobre envelhecimento, marcas corporais, preconceito e trajetórias de vida.
– Análise de conteúdo temática: O material textual das falas foi tratado segundo a metodologia de Bardin, permitindo extrair os eixos estruturantes do idadismo e do racismo velado.
– Construção e validação de tecnologias educativas: Apoiando-se no modelo de Lima e Missio (2021), a diagramação, o conteúdo e a escolha das ilustrações passaram por uma curadoria participativa contínua. As 18 mulheres avaliaram diretamente o que era prioritário manter ou retirar.
– Validação por juízes especialistas: O documento foi validado criticamente por profissionais de saúde coletiva, gerontologia e atenção primária.
– Uso ético da tecnologia: O projeto gráfico contou com suporte de inteligência artificial sob rigorosa supervisão humana e diretrizes internacionais de integridade editorial (COPE), garantindo total autoria e responsabilidade científica aos pesquisadores.
Diretrizes, vinhetas e ferramentas prontas para uso
O produto desse percurso é uma publicação direta, visualmente limpa e operacionalmente organizada em três partes — Entender, Reconhecer e Agir —, coroada por ferramentas de apoio para aplicação imediata nos serviços:
– O idadismo como porta de entrada: A pesquisa identificou que as participantes nomeiam e reagem com muito mais prontidão ao idadismo do que ao racismo. Episódios vividos no transporte público (“onde essas velhas vão a essa hora?”) são lembrados e contestados pelo grupo, servindo de porta aberta para que o profissional acesse, gradualmente, as camadas mais veladas do preconceito racial.
– A ressignificação do “sou morena”: O manual esclarece que a fuga do termo “preta” em favor de termos como “morena” ou “pretinha” não é desconhecimento da usuária, mas resultado da histórica ideologia do embranquecimento no Brasil. A orientação prática é respeitar a autodeclaração e orientar sem imposição quando o sistema do SUS demandar categorias oficiais.
– Cuidando de quem cuida: O material expõe que essas mulheres são frequentemente cuidadoras invisíveis, que só chegam às unidades acompanhando maridos enfermos, netos ou pessoas com deficiência. Recomenda-se a busca ativa dessas mulheres, investigando dores, queixas de insônia e sobrecarga psíquica antes que adoeçam gravemente.
– Instrumentos de aplicação rápida: O manual entrega materiais destacáveis e de consulta diária:
a) Quadro-resumo do Marco Legal, sintetizando o Estatuto da Pessoa Idosa, a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN) e a Lei nº 14.532/2023;
b) Checklist rápido de sinais, permitindo à equipe notar precocemente dinâmicas de violência ou dependência gerada por familiares;
c) Roteiro de anamnese ampliada, com perguntas chave que não aumentam o tempo de consulta, mas alteram a profundidade do cuidado (ex.: “Qual foi o trabalho que a senhora mais fez na vida?” e “E a senhora, quem cuida da senhora?”);
d) Nota sobre Notificação Compulsória, orientando o devido preenchimento do campo de violência motivada por racismo na ficha do SINAN.
Um chamado para toda a rede sociossanitária
Como expressa uma das participantes em uma das citações mais potentes da obra: “Não somos velhas, somos vividas”. Reconhecer a história gravada nos corpos, a capacidade de luta e as redes comunitárias de fé e afeto dessas mulheres é o único caminho para um cuidado que seja verdadeiramente equânime.
O Portal do Envelhecimento convida todos os gestores, pesquisadores, equipes de saúde da família e trabalhadores da assistência e cultura a baixarem o Manual, debaterem suas vinhetas em reuniões de equipe e fixarem seus roteiros nas paredes e pranchetas dos serviços. Fazer a informação circular é nosso primeiro compromisso ético para que envelhecer no Brasil deixe de ser sinônimo de invisibilidade e se torne, enfim, o pleno exercício da cidadania.

Serviço
Manual de Orientação para Profissionais — Interseccionalidade e o Cuidado: Combate ao Racismo e ao Idadismo na Atenção Primária à Saúde
Autores: Thiago Medeiros da Costa Daniele, Larissa Oliveira Nascimento, Letticia de Araújo Moura, Danielle Albano Silva e Ana Mattos Brito de Almeida
Ano: 2026
Foto de Magda Ehlers/ Pexels
