Onde antes havia contenção, brotou cuidado: a horta que devolveu sentido ao envelhecer

Onde antes havia contenção, brotou cuidado: a horta que devolveu sentido ao envelhecer

No cotidiano de um centro de acolhimento para pessoas idosas em extrema vulnerabilidade, uma horta  passou a funcionar como gesto de escuta, convivência e reconstrução de pertencimento.


Por Marcelo Estênio (*)

Quando o abandono deixa marcas no cotidiano

Há lugares que não recebem apenas pessoas: recebem também histórias interrompidas, silêncios  longos e marcas de abandono. Um Centro de Acolhimento Especial para Pessoas Idosas (CAEI), na cidade  de São Paulo, é um desses lugares. Previsto na rede de Proteção Social Especial de Alta Complexidade e orientado pelas normativas da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS) e pela Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais, esse  serviço existe para acolher pessoas idosas com vínculos familiares rompidos ou fragilizados, em situação de  risco pessoal e social. Mas, na prática, acolher nunca é apenas oferecer teto, cama e refeição.

Quem trabalha nesses espaços sabe: a vulnerabilidade não chega sozinha. Ela vem acompanhada de desigualdades antigas, redes comunitárias enfraquecidas, ausência de políticas públicas suficientes e de um  idadismo que insiste em tratar a velhice como sobra. Por isso, o compromisso de um serviço como o CAEI  não pode se limitar ao funcionamento institucional. Seu desafio ético e político é outro: transformar  proteção em presença, e cuidado em experiência real de dignidade.

No caso do CAEI hoje administrado pela OSC Lar Ditoso, havia ainda uma camada simbólica difícil de ignorar. Em 2022, por articulação entre a SMADS e a Secretaria Estadual da Justiça e Cidadania  de São Paulo, o imóvel — antes uma unidade desativada da Fundação CASA[1] — passou a abrigar pessoas  idosas em extrema vulnerabilidade social. A mudança de finalidade era significativa, mas não bastava trocar a placa na entrada. Era preciso mexer na atmosfera do lugar, ressignificar o espaço e enfrentar a memória de um prédio que, antes de acolher, havia servido à contenção.

Lugares carregam memórias. Alguns espaços conservam marcas que o tempo, sozinho, não apaga.  Mesmo quando recebem novos nomes e finalidades, continuam atravessados por experiências anteriores. O  desafio, ali, era fazer com que um lugar antes associado à contenção pudesse, enfim, tornar-se território de  cuidado, dignidade e pertencimento.

Quando a OSC Lar Ditoso assumiu a gestão do Centro de Acolhimento Especial para Pessoas  Idosas (CAEI), em outubro de 2024, encontrou mais do que fragilidades estruturais. Havia um cotidiano marcado pelo esvaziamento das relações, da rotina e, muitas vezes, do próprio sentido de estar ali. Para além  das carências materiais, dos espaços e jardins abandonados, percebia-se a interrupção de experiências  fundamentais de cuidado, convivência e reconhecimento, com efeitos profundos sobre o bem-estar, os  vínculos e a forma como mais de 80 pessoas idosas sustentavam a própria longevidade.

Corredores vazios, estruturas deterioradas e banheiros sem portas revelavam algo que ultrapassava  a precariedade material. Havia ali um abandono inscrito no próprio espaço e na experiência de quem o  habitava. Tudo parecia testemunhar, em silêncio, a perda de referências mínimas de cuidado, intimidade e  resguardo. Foi nesse cenário que surgiu a pergunta que passou a orientar o trabalho: como transformar um  espaço de acolhimento em um lugar de pertencimento, onde a vida pudesse voltar a encontrar presença,  dignidade e escuta?

O abandono como experiência existencial

O abandono, quando observado de perto, nunca é apenas ausência de recursos. Ele se infiltra na  forma como a pessoa passa a ocupar o mundo. Em muitos idosos institucionalizados, aparece como  retraimento, perda de iniciativa, recusa de participação, baixa autoestima, silenciamento. Deixa de ser apenas uma condição social descrita em relatórios e passa a se expressar como experiência vivida — uma  espécie de esvaziamento da presença.

Há algo profundamente simbólico, para mim, na imagem de um terreno abandonado. Um espaço  que deixa de ser cuidado não permanece neutro nem vazio. Aos poucos, é tomado por mato, excessos, restos  e entulhos. Parte disso nasce do próprio tempo, que avança sem contenção; outra parte é deixada por quem passa e, por já não reconhecer valor naquele lugar, deposita ali também o que não deseja mais carregar.

Com a experiência humana, muitas vezes, acontece algo semelhante. Quando alguém permanece  por muito tempo sem cuidado, escuta e pertencimento, também passam a crescer, em silêncio, dores sem nome, sentimentos de inutilidade, histórias de abandono e marcas acumuladas ao longo da vida.

É nesse ponto que o cuidado previsto pelas diretrizes da assistência social ganha uma espessura  maior. Acolher não é conter. Não é apenas organizar rotinas, distribuir medicação ou garantir alimentação.  Acolher, nesse contexto, é sustentar um espaço em que a pessoa idosa possa voltar a ser reconhecida em sua singularidade, reconstruir vínculos e recuperar alguma autoria sobre a própria existência.

Quando cultivar a terra também é reconstruir presença

Foi nesse cenário que o Projeto Semear começou a nascer. A proposta inicial era simples: criar uma  horta no espaço do CAEI, mobilizando orientadores socioeducativos e pessoas idosas acolhidas em torno de uma tarefa concreta. Mas, como costuma acontecer com iniciativas que tocam a vida de verdade, a  experiência rapidamente ultrapassou o campo da atividade ocupacional. O que começou com terra, sementes e canteiros logo se revelou um modo de reorganizar presenças.

O que parecia uma atividade simples revelou-se, na prática, uma potente estratégia de cuidado.  Entre o cultivo da terra, a escuta e a convivência, abriu-se um caminho para que cada pessoa idosa  retomasse gestos, memórias, ritmos e modos singulares de participação.

Mexer na terra, escolher sementes, acompanhar brotos, esperar o tempo de cada planta: tudo isso  recolocou em circulação memórias, saberes e gestos que pareciam adormecidos. Aos poucos, a horta deixou de ser apenas um espaço produtivo e se tornou uma cena de convivência. Ali, o tempo desacelerado do  cultivo encontrou o tempo singular do envelhecimento. E talvez por isso tenha feito tanto sentido: porque  devolveu valor ao ritmo próprio de cada um, sem pressa, sem imposição, sem a lógica da mera ocupação.

Ao resgatar habilidades do passado e assumir a responsabilidade pela vida das plantas, os acolhidos  ressignificaram sua própria utilidade. O cuidado, então, deixou de ser uma via de mão única — em que a pessoa idosa apenas recebe a ação da equipe — e passou a se afirmar como experiência compartilhada.

Hoje, a horta do CAEI-Lar Ditoso gera alimentos frescos que complementam as refeições, promove  estímulos sensoriais e cognitivos e, sobretudo, convoca os residentes à presença e à autoria de suas vidas. Mais do que produzir alimentos, o Projeto Semear passou a produzir vínculos.

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Quando a proteção social produz presença

Com o avanço da iniciativa, algumas mudanças passaram a ser percebidas no cotidiano do serviço.  Os espaços coletivos ganharam mais circulação, a convivência entre os residentes se intensificou e o  isolamento, antes tão presente, começou a ceder lugar a formas mais vivas de participação. Houve também maior autonomia nas atividades diárias, fortalecimento da autoestima e um reaparecimento do sentimento de utilidade — algo precioso em contextos onde a vida institucional frequentemente tende a reduzir as pessoas à condição de assistidas.

Não se trata, evidentemente, de uma pesquisa experimental. Mas a observação cotidiana da equipe  permitiu reconhecer algo importante: a horta se consolidou como dispositivo de convivência, de

fortalecimento identitário e de reaproximação com a experiência de fazer parte. Em vez de apenas ocupar o tempo, ela ajudou a devolver espessura aos dias.

Lições para as políticas públicas de envelhecimento

O Projeto Semear lança uma pergunta essencial para as políticas públicas de envelhecimento: o que  significa, de fato, proteger? Se a resposta se limitar à sobrevivência, ainda estaremos oferecendo muito  pouco. Envelhecer com dignidade exige mais do que segurança material. Exige oportunidades concretas de participação, vínculo, autonomia e produção de sentido.

Num país que envelhece rapidamente e convive com desigualdades persistentes, experiências como  essa mostram que políticas públicas também se fazem nos detalhes do cotidiano. Pequenas intervenções, quando atravessadas por escuta, continuidade e respeito à singularidade, podem produzir efeitos profundos. Às vezes, é justamente numa ação simples — como cultivar uma horta — que a proteção social deixa de ser abstração e passa a ser vivida.

A horta construída no CAEI-Lar Ditoso tornou-se mais do que um espaço de cultivo. Passou a  representar a possibilidade de reconstruir histórias interrompidas pelo abandono e pela exclusão, devolvendo presença a vidas que haviam sido empurradas para a margem.

Talvez essa seja a principal lição da experiência: mesmo quando a vida parece marcada por perdas  e rupturas, ainda é possível semear pertencimento, cultivar dignidade e colher novos significados para  existir.

No fim, a imagem mais justa para essa experiência continua sendo a do cultivo. Cuidar de pessoas  idosas em contexto de extrema vulnerabilidade não é apenas garantir abrigo ou suprir necessidades  imediatas. É preparar terreno, oferecer tempo, sustentar presença e reconhecer que a vida, mesmo marcada  por perdas, ainda pode reencontrar vínculo, participação e possibilidade de florescimento. Onde antes havia abandono, começou a crescer outra coisa: pertencimento.

Nota
[1] A Fundação CASA (Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente) é o órgão do Governo do Estado de São Paulo responsável por aplicar medidas socioeducativas a jovens de 12 a 21 anos. Substituta da antiga FEBEM.

Referências
BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Tipificação Nacional de  Serviços Socioassistenciais. Brasília: MDS, 2009.
BRASIL. Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003. Dispõe sobre o Estatuto da Pessoa Idosa e dá  outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, 2003.
SÃO PAULO (Município). Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social  (SMADS). Normativas e orientações técnicas da Proteção Social Especial de Alta Complexidade aplicáveis  aos Centros de Acolhimento Especial para Pessoas Idosas. São Paulo: SMADS.

(*) Marcelo Estênio – Psicólogo fenomenológico-existencial, gerente do CAEI administrado pela OSC Lar Ditoso e especialista em políticas públicas voltadas à pessoa idosa e normativas da SMADS. Escreve sobre cuidado, envelhecimento, proteção social e reconstrução de sentido no cotidiano institucional. E-mail: Marcelo.estenio1@gmail.com. E-mail Corporativo: caeidoso.larditoso@gmail.com. Site: www.larditoso.org.br

Fotos de atividades e acompanhamento do processo de atividades na horta/créditos do CAEI.


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