O etarismo é um tipo de discriminação que muitas vezes passa despercebido — travestido de humor, metáforas ou “figuras de linguagem”.
Na última semana, uma fala no cenário político brasileiro ganhou repercussão ao utilizar a metáfora de um “Opala” para se referir à idade do presidente Lula. A resposta veio no mesmo tom, evocando a imagem de um “carro no desmanche”. Para além de quem disse o quê, o episódio escancara algo maior — e mais preocupante: o quanto o etarismo segue naturalizado no discurso público, inclusive (ou principalmente) em períodos eleitorais.
Não se trata aqui de defender A ou B. Trata-se de olhar para o tipo de argumento que estamos aceitando — e reproduzindo — como sociedade.
Não é novidade. Na última eleição nos Estados Unidos, o então presidente Joe Biden teve sua capacidade cognitiva amplamente questionada, muitas vezes não por avaliações clínicas consistentes, mas por suposições baseadas exclusivamente em sua idade. A ideia implícita — e perigosa — era clara: envelhecer seria, por si só, sinônimo de incapacidade.
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Esse é o cerne do etarismo.
O etarismo é uma forma de preconceito que associa o envelhecimento à decadência: à perda de autonomia, à dependência, à demência, à inutilidade. Ele também infantiliza pessoas idosas, retirando delas o protagonismo e o direito de decidir sobre suas próprias vidas. É um tipo de discriminação que muitas vezes passa despercebido — travestido de humor, metáforas ou “figuras de linguagem”.
Mas seus efeitos são concretos.
Quando associamos idade avançada à incompetência, estamos não apenas desqualificando indivíduos, mas também reforçando uma cultura que marginaliza mais de 30 milhões de brasileiros. Estamos dizendo, ainda que indiretamente, que envelhecer é um problema — e não uma conquista.
E aqui está um ponto central que precisa ser resgatado: o envelhecimento populacional é uma vitória civilizatória. Ele reflete avanços na medicina, nas condições de vida, no acesso a direitos. Negar valor às pessoas idosas é negar o próprio progresso social.
Mais do que isso: é negar o futuro.
Porque, em última instância, o direito de envelhecer com dignidade deveria ser um projeto coletivo. O sonho dos mais jovens não deveria ser evitar a velhice, mas alcançá-la — com saúde, autonomia, pertencimento e respeito.
No entanto, com o passar do tempo, parece que perdemos algo essencial: a capacidade de nos imaginarmos velhos.
E talvez seja por isso que o etarismo encontre terreno tão fértil. É mais fácil desqualificar aquilo com o qual não nos identificamos — ou que preferimos não enxergar.
Por isso, o convite que este momento nos faz é urgente.
Que sejamos capazes de reconhecer o etarismo quando ele aparece — mesmo que disfarçado de piada ou retórica política. Que não compactuemos com discursos que desumanizam pessoas por sua idade. Que possamos discordar, criticar e debater ideias com profundidade, sem recorrer à desqualificação baseada no tempo de vida.
Se for para usar metáforas, que ampliemos o repertório.
Talvez seja mais produtivo lembrar que “panela velha faz comida boa”. Ou, ainda, recorrer a um provérbio africano, popularizado por Amadou Hampâté Bâ: “Quando um velho morre, é como se uma biblioteca queimasse.”
Cada pessoa idosa carrega uma história, um acúmulo de experiências, saberes e memórias que não podem ser reduzidos a estereótipos.
Que esta eleição — e todas as outras — seja uma oportunidade de amadurecimento coletivo. Não apenas político, mas social. E que fique claro que uma ofensa a uma pessoa idosa apenas por sua idade é um insulto a toda população.
Porque uma sociedade que desvaloriza seus velhos compromete não apenas o presente, mas também o futuro que ela mesma deseja construir.
Foto de RDNE Stock project/pexels.
