Envelhecer no lugar: cuidado, casa e vida cotidiana

Envelhecer no lugar: cuidado, casa e vida cotidiana

A casa é o centro do cuidado, espaço onde a vida é tecida, fio a fio, entre gestos mínimos, silêncios, arranjos e presenças que sustentam o viver.


Nota: Este texto dá continuidade à reflexão iniciada em Cuidar em casa no fim da vida: entre possibilidades, limites e desigualdades, publicado anteriormente no Portal do Envelhecimento. Se no primeiro artigo o foco esteve nos sentidos, limites e condições do cuidado domiciliar, aqui a reflexão se amplia a partir do conceito de ageing in place, abordando suas dimensões éticas, políticas e territoriais.

Do cuidado no fim da vida ao envelhecer como processo

No texto anterior, refletimos sobre o cuidado em casa no fim da vida, seus limites, suas desigualdades e os riscos de transformá-lo em uma obrigação moral dirigida às famílias. Vimos que “ficar em casa até o fim” não é apenas uma escolha individual, mas uma possibilidade profundamente condicionada por relações, recursos, redes de apoio e políticas públicas. Dar um passo adiante nessa reflexão exige ampliar o olhar. É nesse ponto que o conceito de ageing in place se torna fundamental.

Ageing in place: envelhecer no lugar não é apenas permanecer

Amplamente utilizado no campo do envelhecimento, o termo ageing in place refere-se à possibilidade de envelhecer no próprio lugar de vida, mantendo vínculos com a casa, a vizinhança, a comunidade e os modos habituais de existir. Mais do que permanecer fisicamente em um endereço, trata-se de sustentar condições para continuar vivendo com sentido, autonomia possível e pertencimento, mesmo diante das transformações trazidas pelo envelhecimento e pela fragilidade.

A casa como centro do cuidado e da vida cotidiana

Pensar o ageing in place é deslocar o cuidado do corpo isolado para o território onde a vida efetivamente acontece. Envelhecer não se reduz à passagem do tempo sobre o organismo, mas envolve a possibilidade de seguir habitando a própria existência a partir de relações, ritmos, objetos, afetos e percursos que dão consistência à experiência. Nesse horizonte, a casa deixa de ser apenas cenário para tornar-se centro do cuidado: espaço onde a vida é tecida cotidianamente, fio a fio, entre gestos mínimos, silêncios, arranjos e presenças que sustentam o viver, mesmo em contextos de maior vulnerabilidade.

O lugar como campo relacional e sustentação vital

Nesse sentido, o lugar não é apenas uma estrutura física, mas um campo relacional no qual a vida se afirma como processo. Não se trata de preservar uma identidade fixa, mas de sustentar modos singulares de existir. Envelhecer no lugar não é permanecer imóvel no mesmo endereço, mas continuar compondo com o mundo a partir de referências que permitem à vida persistir em sua potência: o objeto que permanece, o caminho conhecido, o tempo próprio das coisas, o modo como o corpo encontra apoio no espaço. São esses elementos que operam como sustentação vital — não como resistência à mudança, mas como condição para que a mudança seja vivida sem ruptura.

Envelhecer é produzir normas: contribuições de Canguilhem

É por isso que a velhice não pode ser pensada como simples conformação a um meio dado, mas como capacidade vital de instituir novas normas de existência em relação ao mundo que se transforma. Como nos ensina Georges Canguilhem em O normal e o patológico, viver é criar normas, e envelhecer é continuar produzindo normatividade vital, mesmo sob limites e restrições. Não se trata de ajustar-se passivamente ao ambiente, mas de reinventar formas de habitar quando as anteriores já não se sustentam. A casa, nesse processo, não é um abrigo neutro, mas parte ativa da dinâmica vital: ela participa da produção da vida, e não apenas de sua proteção.

Não perca nenhuma notícia!

Receba cada matéria diretamente no seu e-mail assinando a newsletter diária!

Casa, território e direito à cidade

Entretanto, a casa não existe isolada. Ela se prolonga na comunidade, na rua conhecida, nos percursos habituais, nos encontros mínimos que tecem pertencimento. Envelhecer no lugar é, necessariamente, envelhecer em um território relacional que reconhece aquela existência como parte de si. Por isso, o cuidado não pode restringir-se ao interior da casa: ele exige políticas públicas, redes de sustentação e uma cidade capaz de acolher a pluralidade dos modos de envelhecer. O cuidado domiciliar, longe de representar um retraimento da vida pública, constitui uma forma concreta de reinscrever o envelhecimento no direito à cidade.

O cuidado como sustentação de processos vivos

A relação entre corpo, casa e entorno constrói-se no cotidiano, por meio de microinvenções, negociações silenciosas e rearranjos discretos que permitem à vida seguir se afirmando. Envelhecer em casa não é submeter-se a um espaço previamente organizado, mas produzir, a partir da própria experiência, modos singulares de habitar. É nesse território instável e criativo que o cuidado domiciliar se inscreve — não como técnica de correção, mas como sustentação de processos vivos, feita de presença, companhia e escuta atenta aos modos como cada vida se rearranja diante das transformações que atravessam o corpo e o cotidiano.

O Acompanhante Terapêutico na Velhice e as políticas do cotidiano

Quando o cuidado é compreendido nessa chave, ele deixa de ser apenas uma resposta às fragilidades individuais e passa a afirmar um compromisso político com a sustentação da vida em sua singularidade e em seu território. É nesse plano que se situa o trabalho do Acompanhante Terapêutico na Velhice: uma prática que se contrapõe à lógica da normalização e da adaptação forçada, ao escolher acompanhar processos em vez de enquadrá-los. O Acompanhante Terapêutico (AT) não atua para ajustar a pessoa à casa ou à cidade tal como elas estão dadas, mas para sustentar, junto com ela, composições possíveis entre corpo, espaço doméstico e território urbano, afirmando o direito de cada existência a produzir seus próprios ritmos, apoios e formas de circulação. Ao intervir no cotidiano, o AT atua também no campo das políticas do cuidado e do direito à cidade, tornando visíveis as condições — ou a ausência delas — que permitem ou impedem que alguém envelheça no lugar. Seu trabalho, assim, não apenas acompanha vidas, mas tensiona arranjos institucionais e urbanos, mantendo abertas as possibilidades de existência onde elas tendem a ser reduzidas, interrompidas ou silenciadas.

Ageing in place como horizonte ético e político

Afirmar o ageing in place como horizonte político é, portanto, defender não apenas o direito de permanecer em casa, mas o direito de existir na cidade em condições dignas, de circular, de produzir laços e de participar da vida coletiva. Trata-se de deslocar o envelhecimento do lugar da gestão da perda para o campo da produção de vida, reconhecendo que cuidar é, antes de tudo, sustentar condições para que diferentes modos de existir possam continuar se compondo com o mundo.

Este deslocamento do cuidado para o território e para a vida cotidiana coloca, inevitavelmente, a questão das políticas públicas. Se o ageing in place não pode ser reduzido a um ideal abstrato, é porque sua concretização depende de dispositivos institucionais, redes de apoio e arranjos coletivos que sustentem o cuidado para além do âmbito familiar. Em um próximo texto, a reflexão se volta para as políticas públicas de cuidado domiciliar existentes no Brasil, seus alcances, limites e desafios.

Foto: iStock


Banner em fundo preto contendo uma casa como marca dágua anunciando curso sobre Serviços para pessoas idosas
Claudia Soares Oliveira
Claudia Soares de Oliveira

Mestre em Gerontologia Social pela PUC- SP. Especialista em Psicopedagoga – PUC-SP e em Intergeracionalidade – U. Granada – Espanha. É Acompanhante Terapêutica no Envelhecimento (Clínica Tempo e Espaço Longeviver) e Especialização em Cuidados Paliativos. Temas de interesse: envelhecimento, velhice, ética e subjetividades, artes-manuais, cuidado paliativo. E-mail: clasoareso@gmail.com

Compartilhe:

Avatar do Autor

Claudia Soares de Oliveira

Mestre em Gerontologia Social pela PUC- SP. Especialista em Psicopedagoga – PUC-SP e em Intergeracionalidade – U. Granada – Espanha. É Acompanhante Terapêutica no Envelhecimento (Clínica Tempo e Espaço Longeviver) e Especialização em Cuidados Paliativos. Temas de interesse: envelhecimento, velhice, ética e subjetividades, artes-manuais, cuidado paliativo. E-mail: clasoareso@gmail.com

Claudia Soares de Oliveira escreveu 3 posts

Veja todos os posts de Claudia Soares de Oliveira
Comentários

Os comentários dos leitores não refletem a opinião do Portal do Envelhecimento e Longeviver.

LinkedIn
Share
WhatsApp
Follow by Email
RSS