Estudo britânico revela que viver a pandemia de Covid-19 acelerou o envelhecimento cerebral em adultos saudáveis, um impacto silencioso, mas mensurável.
Quem não se sentiu diferente durante e depois da pandemia?
Mesmo sem ter adoecido, muitas pessoas notaram mudanças em seus corpos, rotinas e emoções. Agora, a ciência confirma que essa sensação tem fundamento, viver o período pandêmico, mesmo sem contrair o coronavírus, foi suficiente para provocar alterações na estrutura do cérebro humano.
Um estudo publicado recentemente na revista científica Nature Communications, conduzido por pesquisadores da Universidade de Oxford, utilizou 15.040 exames cerebrais de pessoas saudáveis para treinar um modelo de inteligência artificial capaz de estimar a idade biológica do cérebro. Com essa ferramenta, os pesquisadores analisaram 943 adultos e constataram que viver durante a pandemia, mesmo sem infecção por Covid-19, esteve associado a um envelhecimento cerebral acelerado, em média, de 5,5 meses.
Como foi realizada a pesquisa?
O estudo se baseou em dados do UK Biobank, uma das maiores bases de dados biomédicos do mundo, com informações de saúde, exames de imagem e estilo de vida de centenas de milhares de pessoas no Reino Unido.
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Para estimar o quanto o cérebro “envelheceu” em termos estruturais, os pesquisadores utilizaram 15.040 exames de ressonância magnética de pessoas consideradas saudáveis, e desenvolveram um modelo de machine learning (aprendizado de máquina), chamado XG Boost. Essa tecnologia permitiu estimar a idade cerebral com base em padrões de volume, forma e densidade do cérebro.
Depois, os cientistas aplicaram esse modelo preditivo em um novo grupo de 943 adultos (idade média de 59 anos), com exames realizados antes e depois da pandemia, divididos em três grupos:
Pré-pandemia: indivíduos com dois exames antes de março de 2020 (grupo controle);
Durante a pandemia (não infectados): um exame antes e outro após a pandemia, sem registro de infecção por Covid-19;
Durante a pandemia (infectados): um ou dois exames realizados após infecção por Covid-19.
O que os pesquisadores encontraram?
Os resultados apontam que viver o período da pandemia, mesmo sem infecção por Covid-19, deixou marcas silenciosas no cérebro. Em média, os participantes apresentaram um envelhecimento cerebral de 5,5 meses, um efeito mais acentuado entre homens, pessoas mais velhas e aquelas em situação de maior vulnerabilidade social. Entre os que haviam sido infectados pelo vírus, os cientistas também identificaram dificuldades cognitivas mais evidentes, como lentidão no processamento de informações e menor flexibilidade mental.
Ainda assim, o envelhecimento estrutural apareceu mesmo na ausência de sintomas clínicos. Os pesquisadores reforçam que esses achados se mantiveram consistentes mesmo após a análise considerar variáveis como idade, sexo, histórico de saúde e condição socioeconômica. Um dado que chama atenção é a comparação feita pelos próprios autores sobre o efeito observado no cérebro de quem viveu a pandemia sem adoecer, se aproxima do efeito causado por uma década de hipertensão mal controlada, o que nos ajuda a compreender a profundidade do que foi vivido.
O que explica esse envelhecimento?
Ao investigar o motivo das alterações estruturais no cérebro mesmo em quem não contraiu o vírus, os autores apontam para o impacto multifatorial da pandemia. O estresse crônico, a solidão, o luto, a ruptura de rotinas, a incerteza econômica e a redução da estimulação cognitiva e social estão entre os principais fatores.
Essas condições têm sido amplamente estudadas por seus efeitos sobre o sistema nervoso central. Elas ativam o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, elevam os níveis de cortisol e favorecem estados de neuroinflamação([1]) e disfunção sináptica([2]), processos que, com o tempo, favorecem o envelhecimento cerebral.
Essas alterações são permanentes?
Segundo os autores, ainda não é possível afirmar se essas mudanças são permanentes ou transitórias. No entanto, os cientistas pontuam que há indícios de reversibilidade, especialmente graças à plasticidade cerebral, a capacidade do cérebro de se reorganizar, criar novas conexões e compensar perdas. Experiências de reativação da vida social, engajamento cognitivo, práticas culturais, físicas e afetivas podem ajudar na recuperação das funções cerebrais e na reconstrução de redes neurais.
O envelhecimento como travessia coletiva
Este estudo não trata apenas do cérebro como órgão isolado, mas das trajetórias humanas atravessadas por um contexto histórico extremo. Expõe que a pandemia de Covid-19, mesmo para quem não foi infectado, deixou efeitos concretos e mensuráveis sobre a estrutura cerebral, revelando que o tempo vivido, com suas rupturas e incertezas, também deixa marcas físicas.
Mais do que um processo biológico, o envelhecimento é também uma experiência social, feita de vínculos, perdas, adaptações e pertencimentos. E os efeitos desse tempo vivido, cheio de distanciamentos, medo e mudanças abruptas, não recaíram de forma igual sobre todos.
Diante disso, o estudo reforça a importância de iniciativas que enfrentam as consequências silenciosas da pandemia, como: fortalecer espaços de escuta e convivência, investir em políticas públicas voltadas à saúde mental, e prevenir o declínio cognitivo são passos fundamentais. Também é necessário apoiar ações comunitárias que promovam o engajamento social, o cuidado mútuo e o direito de envelhecer com qualidade. Cuidar da saúde cerebral no pós-pandemia é, sobretudo, cuidar das condições de vida que sustentam a dignidade e o bem-estar ao longo do tempo.
Notas
([1]) A neuroinflamação é um processo inflamatório que ocorre no sistema nervoso central (cérebro e medula espinhal). Ela envolve a ativação de células do sistema imunológico presentes no SNC, como a microglia, e a liberação de moléculas inflamatórias, como citocinas. Embora a inflamação seja uma resposta protetora do organismo, a neuroinflamação crônica ou excessiva pode contribuir para o desenvolvimento de doenças neurodegenerativas e transtornos mentais.
(2) Disfunção sináptica, ou sinaptopatia, refere-se a alterações na função ou estrutura das sinapses, que são as conexões entre os neurônios. Essas alterações podem levar a problemas no funcionamento do cérebro e estão frequentemente associadas a doenças neurodegenerativas e transtornos do desenvolvimento neurológico.
Referências
DOUAUD, Gwenaëlle et al. Living through the COVID-19 pandemic is associated with brain ageing in the absence of SARS-CoV-2 infection. Nature Communications, [s.l.], v. 16, n. 1, p. 1-10, 2025. Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41467-025-61033-4. Acesso em: 06 ago. 2025.
DW BRASIL. Pandemia acelerou envelhecimento cerebral, diz estudo. Deutsche Welle, 24 jul. 2025. Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/pandemia-acelerou-envelhecimento-cerebral-diz-estudo/a-73390869. Acesso em: 06 ago. 2025.
UK BIOBANK. About UK Biobank. [S.l.], 2025. Disponível em: https://www.ukbiobank.ac.uk. Acesso em: 06 ago. 2025.
(*) Ana Beatriz S. Ferraz, estagiária do Portal do Envelhecimento, sob orientação de Beltrina Côrte – CEO do Portal do Envelhecimento. E-mail: beltrina@portaldoenvelhecimento.com.br
Foto de Artem Podrez/pexels.
