Nos grupos Tecendo Vivências e Envelhecine, discutem-se perdas, perspectivas de futuro e possibilidades de ganhos. Espaços de convívio, autoestima, direitos e resistência.
Por Raquel da Silva Pavin e Caroline Peter (*)
Durante o processo de envelhecimento, diversas transformações sociais são vivenciadas. Nesse percurso, surge muitas vezes a necessidade de ocupar novos espaços de convivência, para além do trabalho e da família. É nesse contexto que os grupos de convivência se consolidam como espaços de qualidade de vida, troca de experiências e fortalecimento de vínculos.
Nesses ambientes, discutem-se perdas, perspectivas de futuro e possibilidades de ganhos. Mais do que encontros, os grupos tornam-se oportunidades para a socialização, a ressignificação das relações e a construção de pertencimento. Como destaca Ferrigno et al. (2006), trata-se de espaços que incentivam o convívio, a autoestima, a divulgação de direitos e a resistência às desigualdades sociais.
Segundo Rodrigues et al. (2004), o pertencimento gerado nesses espaços potencializa a subjetividade e fortalece a cidadania. Afinal, compartilhar histórias individuais e transformá-las em narrativas coletivas ajuda a combater o isolamento e estimula a autorrealização.
O nascimento dos dois projetos em Porto Alegre (RS)
Com o propósito de fomentar espaços de pertencimento social e socialização dos desafios do envelhecimento para pessoas com 50 anos ou mais, surgiram os grupos Tecendo Vivências e EnvelheCine.
CONFIRA TAMBÉM:
Idealizados por Raquel Pavin, assistente social e gerontóloga com mais de 15 anos de experiência na área, os projetos vêm acontecendo desde 2023 em Porto Alegre (RS). Atualmente, contam também com a mediação conjunta da pesquisadora e bailarina Caroline Peter.
Voltados ao público 50+, ambos se consolidaram como espaços de convivência, cultura e lazer, promovendo socialização, trocas de experiências e o fortalecimento do sentimento de pertencimento.
Grupo Tecendo Vivências
O Tecendo Vivências nasceu como um espaço especialmente pensado para mulheres 50+. Seu objetivo é estimular reflexões sobre o envelhecimento feminino, fortalecer relações comunitárias e abrir caminhos para novos aprendizados.
Atividades já desenvolvidas:
– Idas ao teatro e exposições culturais;
– Oficinas de estimulação cognitiva;
– Sessões de alongamento e dança;
– Rodas de conversa sobre temas diversos ligados ao envelhecimento.
O grupo tem encontros mensais, com duração aproximada de 2h, sempre em um espaço acessível no centro da cidade. Os temas trabalhados são definidos coletivamente, respeitando os interesses e demandas das participantes.
O EnvelheCine
O EnvelheCine é uma proposta inovadora, na cidade e utiliza o cinema como disparador de reflexões. A cada encontro, um filme, curta ou documentário é exibido e, em seguida, uma roda de conversa é realizada. Tem como objetivos promover o diálogo crítico sobre envelhecimento e diversidades; valorizar o protagonismo das/os participantes e incentivar o envelhecimento saudável por meio da socialização e do acesso à cultura.
Alguns temas já tratados:
– Relações familiares e intergeracionais;
– Avosidade e laços afetivos;
– Questões de gênero e aposentadoria;
– Transformações no mundo do trabalho;
– Velhices plurais, preconceitos e estereótipos;
– Direitos sociais e mobilização coletiva.
Esses encontros do EnvelheCine acontecem mensalmente, com duração média de 2h. Cada roda de conversa é pensada como um espaço de escuta, respeito e construção coletiva de sentidos.
Narrativas de pertencimento
Mais do que atividades, os grupos se tornaram espaços de afeto, troca e reconhecimento. As falas dos participantes revelam a força desse pertencimento:
“Sou nova nos grupos. Os encontros têm sido um bálsamo. Sinto-me acolhida e irmanada a vocês.” (Maria Lúcia)
“O grupo sempre traz pautas que agregam muito à nossa vida, autoestima e amor-próprio. Sou participativa e me sinto acolhida com minhas contribuições.” (Rosemarie)
“Gostei muito das pessoas e dos assuntos tratados. Fiz muitas amizades. Os temas são interessantes e aprendo muito.” (Eleonora)
“Estou gostando muito dos encontros. Mesmo com certa dificuldade, conseguimos expressar nossos sentimentos e ideias. Me percebo mais expressiva e interagindo mais.” (Cleonice)
“Sou bastante reservada, mas procuro interagir e participar de cada tarefa. O grupo me faz muito bem!” (Rejane)
“Avalio os encontros como maravilhosos. Os temas são ótimos. Para mim, o grupo tem feito muito bem.” (Araci)
“Não tinha noção de vários assuntos, como o etarismo. A participação no grupo me faz muito bem.” (Carmen)
“Fico ansiosa para saber como será a próxima atividade. Nunca tinha conhecido alguém com tanto conhecimento e carinho.” (Eni)
“Os encontros não poderiam ser melhores. Participar do grupo me faz muito bem. A convivência, somos seres sociais!” (Antônio)
Essas narrativas reforçam a importância de espaços que unem socialização, aprendizado e afeto, valorizando cada trajetória e fortalecendo a coletividade. Assim, os grupos Tecendo Vivências e EnvelheCine reafirmam que participar é pertencer. Mais do que atividades culturais ou rodas de conversa, eles são espaços de acolhimento, cidadania e construção coletiva, que transformam vidas e ampliam horizontes.

Referências
Ferrigno, José Carlos; Leite, MLCB; Abigalil, Albamaria. Centros e grupos de convivência de idosos: da conquista do direito ao lazer ao exercício da cidadania. In: Freitas, E. V. Tratado de Geriatria e Gerontologia. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2006.PAVIN, Raquel da Silva. A importância dos grupos de convivência em um país envelhescente. Portal do Envelhecimento e Longeviver, 09 out. 2024. Disponível em: https://portaldoenvelhecimento.com.br/a-importancia-dos-grupos-de-convivencia-em-um-pais-envelhescente/. Acesso em: 23.set 2025.
Pavin, Raquel da Silva. Os grupos de convivência para pessoas idosas e o trabalho dos(as) assistentes sociais. In: Envelhecimentos no Brasil: Verdades, Equívocos e Necessidades. Santa Maria, RS: Arco Editores, 2023. Disponível em: PDF.
Rocha, S. M.; Gomes, M. G. C.; Filho, J. B. L. O Protagonismo Social da Pessoa Idosa: emancipação e subjetividade no envelhecimento. In: Freitas, E. V.; Py, L.; Cançado, F. A. X.; Doll, J.; Gorzoni, M. L. (org.). Tratado de Geriatria e Gerontologia. Rio de Janeiro: Koogan, 2006.
Rodrigues, N. da C. Política Nacional do Idoso – retrospectiva histórica. Estudos Interdisciplinares sobre Envelhecimento, v. 3, p. 149-158, Porto Alegre: PROEX/UFRGS, 2001.
(*) Raquel da Silva Pavin – Assistente Social e Gerontóloga, doutora em Memória Social e Bens Culturais, mestra em Política Social, especialista em Saúde Coletiva e Envelhecimento. Pesquisadora das velhices femininas, apoio social e avosidades. Autora dos livros Mulheres Idosas e o Apoio Social e Narrativas de mulheres idosas avós. Criadora e articuladora dos projetos Tecendo Vivências e EnvelheCine.
Caroline Peter – Bailarina-criadora, coreógrafa e pesquisadora em arte. Professora de Educação Física e dança, mestra em Artes (UNICAMP), especialista em Saúde Mental Coletiva. Criadora dos projetos de dança para público 50+ MULHERES DANÇANTES e DANÇANDO VIVÊNCIAS, com foco no público feminino, e DANÇA NA ASDEP, com aulas de flashback para público 50+ misto. Atua como mediadora dos encontros e colaboradora nos projetos Tecendo Vivências e EnvelheCine.
Para acompanhar os projetos:
Instagram: @geronidade
Facebook: Geronidade
Foto de Jsme Mila/pexels.
