O crescimento do eleitorado apresentou duas características marcantes: aumento da força absoluta e relativa das mulheres e da proporção de eleitores idosos. Ou seja, aumentou o poder de voto feminino e grisalho.
O Brasil vivencia o mais longo período de estabilidade democrática de sua história. Desde o primeiro pleito presidencial da redemocratização, em 1989, consolidaram-se quase quatro décadas de normalidade institucional, marcadas pelo expressivo crescimento e fortalecimento da participação popular, impulsionada por um eleitorado cada vez mais amplo, mais feminino e mais envelhecido.
O gráfico abaixo, com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mostra que, em 1974, o eleitorado brasileiro era de 34 milhões de eleitores, sendo 22 milhões de homens e 12 milhões de mulheres. Embora as mulheres fossem maioria da população brasileira, existia uma grande desigualdade de gênero no eleitorado, pois os homens respondiam por dois terços das pessoas aptas a votar.
Mas esta situação se inverteu no século XXI. As mulheres passaram a ser maioria do eleitorado no ano 2000, quando a listagem eleitoral indicou 54,2 milhões de homens e 55,4 milhões de mulheres. Nos anos seguintes o eleitorado continuou crescendo e o hiato de gênero se ampliou a favor das mulheres, com o crescimento da participação feminina.
Nas eleições de 2026, o eleitorado brasileiro chegou a 158,7 milhões de pessoas, sendo 74,9 milhões de homens e 83,9 milhões de mulheres. Para as eleições do próximo mês de outubro, são 9 milhões de eleitoras do sexo feminino a mais do que a contraparte masculina. Entre 1974 e 2026 o eleitorado masculino foi multiplicado por 3,5 vezes e o eleitorado feminino foi multiplicado por 7 vezes.

Acompanhando o processo de transição demográfica do Brasil e, concomitantemente à trajetória de feminização do eleitorado, houve simultaneamente um envelhecimento do contingente de pessoas aptas a votar, com a proporção de idosos (60+) superando cada vez mais a proporção de jovens (16-24 anos).
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O eleitorado brasileiro, em 1992, era composto de 23,8% de jovens (16-24 anos) e 10,5% de idosos (60+). Em 2010, a percentagem de jovens caiu para 18,2% e a de idosos subiu para 15,3%. Em 2020, os idosos já superavam os jovens e representavam 20,4% do eleitorado, contra 13,5% dos jovens. Em 2026, a diferença se ampliou com os idosos chegando a 23,2% e os jovens ficando com 12,6% do eleitorado. Ou seja, em 1992 havia mais de 2 eleitores jovens para cada eleitor idoso. Em 2026, esta relação se inverteu, havendo cerca de 2 eleitores idosos para cada eleitor jovem.

O crescimento do eleitorado brasileiro apresentou duas características marcantes: 1) aumento da força absoluta e relativa das mulheres e 2) aumento da proporção de eleitores idosos. Portanto, aumentou o poder de voto feminino e grisalho.
O avanço feminino ocorreu em todas as idades. Em 1992, as mulheres representavam somente 49,2% do eleitorado e tinham uma participação percentual abaixo de 50% em todos os grupos etários. Nas eleições de 2026, as mulheres são 52,8% do eleitorado e superaram os homens em todas as faixas de idade, conforme mostra o gráfico abaixo.
Nas idades compreendidas entre 16 e 24 anos os homens são maioria da população brasileira. Mesmo assim, surpreendentemente, as mulheres adolescentes de 16 e 17 anos, a despeito do voto facultativo, superaram o número de rapazes adolescentes no eleitorado. No grupo etário 18-24 anos, há quase um empate. Entre 25-59 anos, as mulheres representam entre 52% e 53% do eleitorado. Mas a vantagem feminina aumenta significativamente entre os idosos, atingindo 53,9% no grupo 60-69 anos e quase 57% no grupo 70+.
Desta forma, as chamadas balzaquianas (mulheres maduras com mais de 30 anos) somam mais de 66,3 milhões de eleitoras em 2026, enquanto os homens com 30 anos e mais somam 58 milhões. Ou seja, do superávit total de 9 milhões de eleitoras, 8,3 milhões encontram-se acima de 30 anos. O grupo das mulheres balzaquianas (30+) constituem 42% do eleitorado total, enquanto os homens 30+ são 37% do eleitorado em 2026. O poder eleitoral das balzaquianas brasileiras é inconteste.

A tabela abaixo mostra o número total do eleitorado, em anos selecionados, entre 1992 e 2026 e o número e a percentagem de jovens e idosos. O eleitorado total era de 90,2 milhões de pessoas em 1992 e passou para 158,8 milhões em 2026. O número de jovens (16-24 anos) era de 21,5 milhões em 1992 (representando 23,8% do eleitorado) e caiu para 19,9 milhões em 2026 (representando 12,6% do total).
O número de idosos de 60 anos e + era 9,5 milhões em 1992 (representando 10,5% do eleitorado) e subiu para 36,8 milhões em 2026 (representando 23,2% do total). Assim, os idosos 60+ que representavam metade do eleitorado jovem em 1992, passaram a representar cerca de o dobro em 2026. O número de eleitores 70+ era de 3,4 milhões de pessoas em 1992 (representando 3,8% do total), passando para 16,8 milhões em 2026 (representando 10,6% do total).

Diante desse cenário, fica evidente que o envelhecimento populacional vai além de um fenômeno demográfico, se transformando em um fator que redefine a correlação de forças na política nacional. A expansão do eleitorado grisalho e feminino impõe aos candidatos a necessidade de ajustar suas agendas, migrando de promessas genéricas para políticas públicas sólidas voltadas à seguridade social, saúde e inclusão dessa importante e crescente parcela da população.
Embora o voto para os maiores de 70 anos seja facultativo, o peso estatístico e a maturidade cívica desse grupo garantem que o futuro da democracia brasileira passe, inevitavelmente, pela experiência e pelas mãos daqueles que continuam a exercer sua cidadania para além da obrigatoriedade legal.
Com o envelhecimento populacional, as demandas da população idosa tornaram-se centrais para a sustentabilidade social. Quando idosos deixam de votar, os formuladores de políticas públicas perdem o incentivo para endereçar prioridades fundamentais desse grupo, tais como:
Investimento no SUS para geriatria, tratamento de doenças crônicas e fornecimento contínuo de medicamentos.
a) Garantia de sustentabilidade das pensões e proteção contra golpes socioeconômicos e violência.
b) Adaptação de transportes urbanos, calçadas e infraestrutura pública.
c) Educação continuada e inclusão digital.
d) Criação de empregos, incentivo ao empreendedorismo e combate ao etarismo.
Eleitores 60+ e 70+ acompanharam transformações históricas marcantes do país, desde o regime autoritário até a consolidação da Constituição de 1988 e a implementação do voto eletrônico. Essa bagagem cultural e política confere a esse grupo uma visão experiente quanto ao peso das escolhas eleitorais e ao valor da estabilidade institucional.
O exercício do direito ao voto na velhice é um forte instrumento contra todo preconceito baseado na idade e o isolamento social. Votar reafirma a autonomia, a utilidade social e a voz ativa da pessoa idosa na construção do futuro das próximas gerações.
A abstenção no grupo 70+ tende a ser bem superior à da média nacional, principalmente por limitações de mobilidade, questões de saúde ou falta de priorização de acessibilidade nos locais de votação. Reduzir essa abstenção é vital por diversos motivos:
1) Equilíbrio Democrático: Quando uma fatia expressiva do eleitorado deixa de participar, a representação nas urnas torna-se distorcida, favorecendo pautas focadas quase exclusivamente em faixas etárias mais jovens.
2) Incentivo à Acessibilidade Universal: Enfrentar a abstenção dessa parcela da população obriga a Justiça Eleitoral e o poder público a investir em seções eleitorais acessíveis, transporte adaptado e prioridades de atendimento — melhorias que beneficiam toda a sociedade, incluindo pessoas com deficiência.
3) Fortalecimento Institucional: O comparecimento voluntário massivo demonstra maturidade civil e reforça a legitimidade dos representantes eleitos.
Em suma, a democracia brasileira do século XXI traz de forma inequívoca a marca das mulheres e do eleitorado grisalho. Diante de uma transição demográfica irreversível, o fortalecimento de nossa experiência democrática depende não apenas do reconhecimento do peso decisivo das eleitoras e das pessoas idosas nas urnas, mas também do combate ativo às barreiras de acessibilidade de toda ordem que alimentam a abstenção na faixa etária facultativa.
Promover a participação plena dos eleitores maduros — e em especial das mulheres que lideram essa expansão — é garantir que a sabedoria acumulada por décadas de história continue a moldar o futuro do país, reafirmando que o voto, longe de ser um mero dever burocrático, é a expressão máxima de dignidade, inclusão e cidadania em todas as etapas da vida.
Foto de Priscilla Cezar/Pexels
