Estudo do Programa de Pós-Graduação em Gerontologia da USP busca compreender quem são as pessoas que compõem as redes de suporte social de pessoas idosas.
Por Camila Rocha Ferreira, Desiree Rodrigues da Veiga, Marisa Accioly Rodrigues da Costa Domingues e Flávio Rebustini (*)
ERSSI Brasil: conheça o projeto e o site que investiga as redes de suporte na velhice
Quem estará ao nosso lado quando envelhecermos? A família, os amigos, os vizinhos, os parceiros, os colegas de trabalho ou aquelas pessoas que, ao longo da vida, se tornam parte da nossa trajetória?
Para apresentar essas questões e acompanhar o desenvolvimento de uma pesquisa sobre redes de suporte social na velhice, foi criado o ERSSI Brasil, plataforma que reúne informações sobre o projeto “Mapeamento da Rede de Suporte Social da População Idosa”, desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH/USP).
O site apresenta informações sobre a pesquisa, seus objetivos, a metodologia utilizada, a participação no estudo e atualizações sobre os dados da investigação. A plataforma também busca aproximar a produção científica da sociedade, tornando acessíveis informações sobre envelhecimento, redes de suporte social, diversidade e políticas públicas.
Conheça o projeto ERSSI Brasil: https://www.erssibrasil.com.br/
A pesquisa conta com apoio da CAPES, Itaú Viver Mais e Portal do Envelhecimento e busca ampliar a compreensão sobre as relações que sustentam a vida cotidiana das pessoas idosas, considerando diferentes configurações familiares, afetivas e comunitárias.
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Quando os dados não enxergam todas as velhices
Envelhecer não acontece da mesma maneira para todas as pessoas. As relações familiares, as amizades, a vizinhança e os vínculos construídos ao longo da vida podem exercer papel fundamental na proteção e no bem-estar durante a velhice.
Para pessoas idosas LGBTQIA+, entretanto, essas redes podem assumir configurações ainda mais diversas. É nesse contexto que surge a pesquisa “Mapeamento da Rede de Suporte Social da População Idosa”, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Gerontologia da EACH/USP.
O projeto parte da compreensão de que diferentes marcadores sociais podem se sobrepor ao longo da vida, produzindo experiências distintas de envelhecimento e diferentes formas de vulnerabilidade. Situações relacionadas ao idadismo, LGBTfobia e racismo, por exemplo, podem atravessar as trajetórias individuais e interferir nas relações de suporte e pertencimento.
Ao mesmo tempo, ainda existem lacunas importantes na produção de dados capazes de representar a diversidade das velhices brasileiras.
Segundo as informações apresentadas no ERSSI Brasil, dados oficiais historicamente nem sempre permitem visualizar adequadamente determinados arranjos familiares, afetivos e comunitários. Essa ausência de informações pode dificultar o planejamento de políticas públicas que considerem a diversidade existente entre as pessoas idosas.
Para além da família tradicional
Um dos conceitos que orientam o estudo é o de “famílias de escolha”, expressão associada à pesquisadora Kath Weston. São relações construídas por afinidade, amizade, solidariedade e pertencimento comunitário que podem assumir funções tradicionalmente atribuídas à família consanguínea.
Na velhice LGBTQIA+, esses vínculos podem representar uma importante fonte de apoio emocional, social e, em determinadas situações, também de cuidado cotidiano. Essas redes ainda são pouco reconhecidas pelos sistemas formais de saúde e assistência social. Compreender sua existência e sua importância pode contribuir para que os serviços públicos consigam enxergar de maneira mais ampla as relações que efetivamente sustentam a vida cotidiana das pessoas idosas.
ERSSI: uma escala para medir redes de suporte
No centro da pesquisa está a Escala de Rede de Suporte Social de Idosos (ERSSI). O instrumento possui evidências psicométricas para a população idosa geral e é utilizado para investigar diferentes dimensões das redes de suporte social. A pesquisa atual busca verificar se a escala também apresenta evidências de validade adequadas para a população idosa LGBTQIA+.
A questão é fundamental: um instrumento desenvolvido para avaliar suporte social precisa ser capaz de reconhecer diferentes formas de família, amizade, pertencimento e cuidado.
Por isso, o estudo não parte simplesmente da ideia de aplicar uma escala existente a uma nova população. A proposta é investigar suas propriedades psicométricas e verificar se a medida consegue representar adequadamente as experiências dessa população.
Uma pesquisa que une Gerontologia, diversidade e políticas públicas
A pesquisa possui delineamento transversal quantitativo e utiliza procedimentos de psicometria para analisar as propriedades do instrumento. Podem participar pessoas com 60 anos ou mais e tenham acesso à internet. O recrutamento ocorre de forma remota, por meio de redes sociais, coletivos de diversidade e redes de apoio.
O estudo informa ainda que a pesquisa foi aprovada por Comitê de Ética em Pesquisa, seguindo as Resoluções CNS nº 466/2012 e nº 510/2016.
O que os primeiros dados mostram?
Os dados apresentados no site são explicitamente classificados como preliminares e não representam os resultados finais da validação. Até a atualização apresentada na plataforma, haviam sido registradas 405 respostas, das quais 140 questionários estavam completos. Entre os respondentes, 85,7% confirmaram ter 60 anos ou mais, e 63,5% residiam no estado de São Paulo.
Na análise preliminar da força da rede de suporte, considerando uma escala de 1 a 5, a média foi de 3,73 para familiares, 3,37 para amigos e 2,23 para vizinhos.
Os dados também apontaram uma diferença preliminar entre respondentes LGBTQIA+ e heterossexuais cisgênero: a média de suporte familiar foi menor entre os respondentes LGBTQIA+, enquanto a média relacionada aos amigos apresentou valores próximos entre os grupos. O próprio site ressalta que esses achados ainda devem ser interpretados com cautela, pois a coleta está em andamento e a ERSSI ainda passa pelo processo de validação específica para pessoas idosas LGBTQIA+.
Por que medir a rede de suporte importa?
A proposta da pesquisa vai além da produção de números. Identificar quem compõe a rede de suporte de uma pessoa idosa pode contribuir para compreender situações de isolamento social, fragilidade dos vínculos, ausência de apoio e necessidade de acompanhamento pelos serviços.
Na perspectiva do SUS e do SUAS, conhecer essas redes pode auxiliar profissionais a planejarem intervenções considerando não apenas a família consanguínea, mas também amigos, parceiros, vizinhos e outras pessoas que efetivamente participam da vida do indivíduo.
O projeto pretende, ao final, produzir evidências que possam contribuir para ações mais inclusivas nas políticas públicas de saúde e assistência social, além de fortalecer a produção científica sobre diversidade e envelhecimento no Brasil.
Uma pergunta que ultrapassa a pesquisa
A pesquisa coloca em evidência uma questão que interessa não apenas à academia, mas também aos serviços de saúde, assistência social e à sociedade: quem estará ao lado de uma pessoa quando ela envelhecer?
Para algumas pessoas, a resposta estará na família de origem. Para outras, poderá estar nos amigos, parceiros, vizinhos, coletivos e comunidades construídos ao longo da vida.
Reconhecer essas diferentes formas de vínculo é também reconhecer que existem diferentes maneiras de envelhecer.
É justamente nesse espaço entre afeto, cuidado, pertencimento e políticas públicas que a pesquisa sobre a ERSSI busca avançar: transformar redes que muitas vezes permanecem invisíveis em informações capazes de contribuir para um cuidado mais atento à diversidade das velhices brasileiras.
Quem está por trás da pesquisa?
A equipe reúne pesquisadores da área de Gerontologia e Psicometria. A pesquisa é coordenada por Camila Rocha Ferreira, mestra e doutoranda em Gerontologia pela EACH/USP, assistente social e gestora em saúde pública e especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia do Brasil – SBGG.
Integram ainda a equipe Desirée Rodrigues da Veiga, mestra e doutoranda em Gerontologia; Prof.ª Dr.ª Marisa Accioly Domingues, docente do Programa de Pós-Graduação em Gerontologia da EACH/USP; e Prof. Dr. Flávio Rebustini, docente de Análise de Dados no PPG em Gerontologia e pesquisador com atuação em Psicometria do Programa de Pós-Graduação em Gerontologia da EACH/USP.
Participe!
Pessoas com 60 anos ou mais, podem participar da pesquisa por meio de questionário online. A pesquisa tem a participação anônima, sigilosa e leva aproximadamente de 15 à 30 minutos.
Participe da pesquisa: https://camilarochafoliveira.questionpro.com/t/AdKjHZ9dR2
Acesse o site e acompanhe a pesquisa: https://www.erssibrasil.com.br
(*) Camila Rocha Ferreira – Graduada em Serviço Social na Universidade Cruzeiro do Sul (2004), onde foi bolsista (CNPQ) e do Programa de Iniciação Científica da própria Universidade; Aprimoramento Profissional em Serviço Social Hospitalar (2006), onde foi bolsista FUNDAP; Pós-graduada em: Organização e Gestão de Políticas Sociais FMU (2008); Psicopatologia e Saúde Pública – USP (2012) e Gestão de Redes de Atenção à Saúde, Fiocruz (2017). Assistente Social na Saúde Pública em SP desde 2009. Mestra (2024) e Doutoranda no Programa de Pós-graduação em Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH/USP), integrante do Grupo de Pesquisa Envelhecimento, Rede de Suporte Social e Políticas Públicas (ENREPO). Gestora na Saúde Pública. Especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG).
Desiree Rodrigues da Veiga – Graduada em Educação Física (Bacharelado e Licenciatura) pela Universidade São Judas Tadeu (2006); especialista em Reabilitação Cardíaca e Condicionamento de Grupos Especiais pela FMU (2007) e em Psicologia do Esporte pela Universidade Estácio de Sá (2020). Formação em Pesquisa Clínica (PPCR) pela Harvard T.H. Chan School of Public Health (2024). Mestra (2023) e Doutoranda no Programa de Pós-graduação em Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH/USP). Atuou como Supervisora na Wellness Qualidade de Vida e por 10 anos na Hapvida NotreDame Intermédica como profissional de educação física na medicina preventiva. Atualmente, é membro da equipe multidisciplinar do Check-up do Hospital Israelita Albert Einstein e orientadora educacional de práticas presenciais da Universidade Estácio de Sá no curso de graduação em educação física.
Marisa Accioly Rodrigues da Costa Domingues – Doutora e Mestra em Saúde Pública pela USP, Assistente Social e Especialista em Gerontologia pela SBGG. Docente da Graduação e do Programa de Pós-graduação em Gerontologia da EACH-USP, desenvolve pesquisas nas áreas de envelhecimento, suporte social e políticas públicas para a pessoa idosa. Participa de grupos de pesquisa nacionais e internacionais e atua como pesquisadora no Hospital-dia Geriátrico do HC-FMUSP. Atualmente, é vice-coordenadora do curso de Graduação em Gerontologia da EACH-USP, presidente da Comissão de Bolsas CAPES do Programa de Pós-graduação em Gerontologia e conselheira do Conselho Municipal da Pessoa Idosa de São Paulo (2025–2027).
Flávio Rebustini – Pós-doutor em Desenvolvimento Humano e Tecnologias (UNESP) e em Psicometria (Université du Québec à Trois-Rivières, Canadá). Doutor em Desenvolvimento Humano e Tecnologia, mestre em Ciências da Motricidade e graduado em Educação Física. Professor do Programa de Pós-Graduação em Gerontologia da EACH-USP desde 2017, atua nas áreas de análise de dados, psicometria, psicologia do esporte, envelhecimento e validação de instrumentos. Possui experiência em gestão universitária, tendo exercido o cargo de reitor da UNIABC entre 2008 e 2010.

