O “preço da aceitação”: cuidado familiar, invisibilidades e desigualdades no envelhecimento

O “preço da aceitação”: cuidado familiar, invisibilidades e desigualdades no envelhecimento

Discutir o “preço” da aceitação significa reconhecer que o envelhecimento dissidente é atravessado por desigualdades acumuladas ao longo da vida.


Por Desiree Rodrigues da Veiga, Camila Rocha Ferreira, Marisa Accioly Rodrigues da Costa Domingues e Flávio Rebustini (*)

O envelhecimento de pessoas LGBTQIA+ ainda recebe pouca atenção nas políticas públicas e nas discussões sobre cuidado no Brasil. Ao longo de suas trajetórias, muitas dessas pessoas enfrentaram rejeição da família, discriminação e apagamento de suas identidades, o que enfraqueceu suas redes de apoio na velhice (Matos; Ferreira; Domingues, 2023). Em vez de depender apenas da família biológica, muitas construíram laços afetivos importantes com amigos, parceiros e comunidades, formando as chamadas “famílias de escolha”, que costumam ser decisivas para o apoio emocional e social em momentos de isolamento e vulnerabilidade (Souza; Henning, 2022; Domingues, 2013).

A invisibilidade do cuidado também aparece na forma como a sociedade encara o envelhecimento LGBTQIA+. Ainda persiste a ideia de que a velhice seria um período de assexualidade ou neutralidade identitária, o que acaba apagando as experiências afetivas e sexuais de pessoas idosas com trajetórias dissidentes (Henning, 2017). Esse apagamento impacta diretamente o acesso a direitos e aos serviços de saúde. O estudo de Fredriksen-Goldsen e colaboradores (2011) demonstra que essas pessoas possuem maior probabilidade de viver sozinhas, não ter filhos e depender muito mais de redes informais de apoio. Esse cenário complexo eleva consideravelmente o risco de solidão, sofrimento psíquico e institucionalização inadequada sob a lógica heteronormativa.

Nesse contexto de vulnerabilidade, descortina-se a inserção compulsória ou condicional dessas pessoas idosas na economia do cuidado familiar. Quando o indivíduo se vê compelido a restabelecer o contato com o núcleo familiar original, por demandas financeiras, habitacionais ou de saúde, o reingresso frequentemente opera sob a lógica de uma barganha velada. O acolhimento e a suposta “aceitação” tardia por parentes biológicos passam a ser condicionados ao fato de o idoso assumir o papel de cuidador principal de pais ou familiares enfermos.

Como discutem Coelho e Barros (2021), a homofobia familiar, muitas vezes, se mascara de proteção, mas continua operando como um mecanismo de controle e exclusão. Esse arranjo alivia os custos da família e mitiga a ausência do Estado, mas cobra um preço alto, ao transformar o ato de cuidar em uma moeda de troca pela própria permanência no lar.

No cenário brasileiro, o cuidado familiar ainda está fortemente associado a papéis tradicionais de gênero e parentesco, excluindo simbolicamente as diversas configurações familiares. Muitas pessoas idosas enfrentam o envelhecimento após décadas de afastamento da família de origem devido à LGBTfobia, carregando marcas emocionais profundas. Esse retorno à dependência na velhice costuma implicar um processo doloroso, no qual o indivíduo sente necessidade de esconder novamente sua identidade para garantir acolhimento e proteção (Mota; Barros, 2023).

Da mesma forma, o receio da discriminação estende-se para além do ambiente doméstico. Estudos sobre Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI) revelam que o medo do preconceito institucionalizado leva muitas pessoas idosas a evitarem serviços formais de acolhimento ou a silenciar completamente suas trajetórias de vida e vivências afetivas nesses espaços (Torelli; Bessa; Graeff, 2023).

A rede de suporte social informal assume papel central na promoção da saúde. Vínculos comunitários, coletivos de diversidade e grupos de convivência funcionam como verdadeiros dispositivos de proteção, combatendo diretamente o isolamento e a invisibilidade social (Guimarães; Silva, 2021).

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É nesse cenário que a noção de “família de escolha” emerge como uma potente estratégia de resistência e sobrevivência, especialmente para idosos, gays, lésbicas e pessoas trans que vivenciaram a exclusão familiar. O fortalecimento dessas redes afetivas alternativas amplia o sentimento de pertencimento, o reconhecimento da identidade e o amparo emocional, elementos que se mostram essenciais para a construção de um envelhecimento digno e saudável.

Discutir o “preço” da aceitação significa reconhecer que o envelhecimento dissidente é atravessado por desigualdades acumuladas ao longo da vida. A invisibilidade do cuidado não decorre apenas da ausência de vínculos, mas de processos históricos de exclusão que limitaram o acesso à proteção social formal.

Diante disso, as redes formais de atenção enfrentam o desafio de romper com a presunção de uma harmonia familiar que, na prática, é uma máscara lógica de violência simbólica. Serviços como as Unidades Básicas de Saúde (UBS) e os Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) frequentemente operam sob um viés heteronormativo que falha em identificar esse idoso como um cuidador em extrema vulnerabilidade, perpetuando barreiras institucionais no acolhimento (Silva et al., 2024).

Para além do cumprimento formal do Estatuto da Pessoa Idosa, é imprescindível capacitar as equipes do Sistema único de saúde (SUS) e do Sistema único da assistência social (SUAS) para acolher essas dinâmicas complexas, assegurando que esses cuidadores tenham acesso a programas de apoio, descanso e proteção jurídica que impeçam a anulação de sua autonomia. Nesse sentido, torna-se urgente ampliar políticas públicas inclusivas, qualificar profissionais e fortalecer redes de suporte comunitário capazes de abraçar as especificidades das velhices plurais (BRASIL, 2013). Reconhecer essas complexas trajetórias de vida é, fundamentalmente, produzir cuidado, cidadania e visibilidade para sujeitos historicamente silenciados.

Referências
BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Saúde Integral de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2013. Disponível em: Ministério da Saúde. Acesso em: 11 maio 2026.
COELHO, Gomes; BARROS, Oliveira. Homofobia familiar disfarçada de cuidado: mecanismos de controle e exclusão na velhice. Perspectivas em Diálogo, v. 8, n. 16, p. 45-62, 2021.
DOMINGUES, Marisa Accioly. Rede de suporte social, saúde e qualidade de vida na velhice. In: FREITAS, Elizabete Viana et al. Tratado de Geriatria e Gerontologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2013.
FREDRIKSEN-GOLDSEN, Karen I. et al. The unfolding of LGBT lives: key issues for aging research and policy. The Gerontologist, Oxford, v. 51, n. 6, p. 779-791, 2011. Disponível em: Oxford Academic. Acesso em: 11 maio 2026.
GUIMARÃES, Raquel; SILVA, Henrique Salmazo da. Velhices LGBTQIA+ e redes de suporte social: desafios para o cuidado e a proteção social. Revista Brasileira de Ciências do Envelhecimento Humano, Passo Fundo, v. 18, n. 2, p. 1-14, 2021. Disponível em: Revista Brasileira de Ciências do Envelhecimento Humano. Acesso em: 11 maio 2026.
HENNING, Carlos Eduardo. Gerontologia LGBT: velhice, gênero, sexualidade e a constituição dos sujeitos LGBT idosos. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 25, n. 1, p. 283-303, 2017.
MATOS, Germanne Patricia Nogueira Bezerra Rodrigues; FERREIRA, Camila Rocha; DOMINGUES, Marisa Accioly Rodrigues da Costa. Velhices LGBTQIA+: diálogos sobre novas e velhas demandas. Portal do Envelhecimento e Longeviver, [s.l.], 2023 . Disponível em: Portal do Envelhecimento. Acesso em: 18 maio 2026.
MOTA, Murilo Peixoto da; BARROS, Myriam Moraes Lins de. Velhice LGBT, família e cuidado: invisibilidades e resistências. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 28, n. 11, p. 3123-3135, 2023 . Disponível em: SciELO. Acesso em: 11 maio 2026.
SILVA, A. et al. A invisibilidade da população LGBTQIA+ no acesso à saúde: barreiras institucionais e o viés heteronormativo nos serviços de atenção. Cadernos de Saúde Pública / Trabalho, Educação e Saúde, Rio de Janeiro, 2024.
SOUZA, Emilly de; HENNING, Carlos Eduardo. Redes de suporte social e envelhecimento LGBTQIA+: experiências de cuidado e pertencimento. Estudos Interdisciplinares sobre o Envelhecimento, Porto Alegre, v. 27, n. 3, p. 45-62, 2022. Disponível em: UFRGS. Acesso em: 11 maio 2026.
TORELLI, Wellington Ricardo Navarro; BESSA, Thaíssa Araujo de; GRAEFF, Bibiana. Preconceito contra pessoa idosa LGBTQIA+ em Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI): uma revisão de escopo. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, 2023 . Disponível em: SciELO. Acesso em: 11 maio 2026.

(*) Artigo vinculado à pesquisa “Mapeamento da rede de suporte social da população idosa LGBTQIA+”, selecionada na 5ª edição do Edital Acadêmico de Pesquisa: Envelhecer com Futuro, realizado pelo Itaú Viver Mais em parceria com o Portal do Envelhecimento e Longeviver. Participam deste estudo os pesquisadores:
Desiree Rodrigues da Veiga – Doutoranda e Mestra em Gerontologia pela USP (EACH/USP). Especialista em Reabilitação Cardíaca e Condicionamento de Grupos Especiais e em Psicologia do Esporte, além de formação em Pesquisa Clínica pela Harvard T.H. Chan School of Public Health. Atua nas áreas de envelhecimento, promoção da saúde e educação física.
Camila Rocha Ferreira – Doutoranda e Mestra em Gerontologia pela USP (EACH/USP), Especialista em Gerontologia pela SBGG. Assistente Social, com especializações em Organização e Gestão de Políticas Sociais, Psicopatologia e Saúde Pública e Gestão de Redes de Atenção à Saúde. Atua na Saúde Pública desde 2009, com experiência em gestão e políticas públicas para a pessoa idosa. E-mail: camilarochaoliveira@usp.br
Marisa Accioly Rodrigues da Costa Domingues – Doutora e Mestra em Saúde Pública pela USP, Especialista em Gerontologia pela SBGG. Docente da Graduação e Pós-Graduação em Gerontologia da EACH-USP, com atuação em pesquisas sobre envelhecimento, suporte social e políticas públicas. Desenvolve atividades de ensino, pesquisa e representação em conselhos e comissões acadêmicas.
Flávio Rebustini – Pós-doutor em Desenvolvimento Humano e Tecnologias (UNESP) e em Psicometria (Université du Québec à Trois-Rivières, Canadá). Doutor em Desenvolvimento Humano e Tecnologia e Mestre em Ciências da Motricidade. Professor da Pós-Graduação em Gerontologia da EACH-USP, com atuação em psicometria, análise de dados, envelhecimento e validação de instrumentos.https://camilarochafoliveira.questionpro.com/a/TakeSurvey?tt=4cz2fHsxCvcECHrPeIW9eQ%3D%3D

Foto de Elvis Yang/Pexels


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