Elas não puderam envelhecer: foram assassinadas

Elas não puderam envelhecer: foram assassinadas

Elas, jovens, perderam tudo: a voz que poderiam ter, a força para trabalharem e criarem seus filhos. Mulheres que perderam o direito a envelhecerem.


Adeli Sell e Ângela Gomes (*)

Há uma foto de uma jovem sorridente na sala. A filha olha, lágrimas correm pelo seu rosto. A avó olha de longe, outras lágrimas correm pelas marcas do tempo de sua face enrugada.

São lares com lembranças e dores. Dores que oprimem o coração e deixam a mente turva.

Tem ansiedade pela Justiça que está tardando, aumentando a dor. Tem o medo com a neta, os cuidados, que não se repita com ela.

Noutro lar, outra filha, está diante do retrato da mãe que ela mal se lembra. Era nenê quando seu pai a matou. Que pai?! Monstro é a palavra que lhe vem, pensa, está na escola, criou coragem e fez uma redação sobre feminicídio, já que a professora deu “tema livre”. A professora pediu licença para ler para a turma. Houve choros.

Cem famílias gaúchas choram suas filhas assassinadas nos últimos 400 dias.

Assassinos fogem diante de uma polícia fragilizada e sem recursos. Processos dormitam em computadores nos quais um é igual a qualquer outro processo. Falta sensibilidade humana, falta o olhar para a Outra, para a mulher assassinada que não pode envelhecer, porque foi assassinada. Ela perdeu tudo: a voz que poderia ter, a força para trabalhar e criar seus filhos. E perdeu a velhice que via na avó solícita e amiga.

Elas não puderam envelhecer para cuidar da educação dos filhos, ajudar as mães e avós sem previdência na velhice. Ela mesma não pode ver sua cabeça prateada. Não pode chorar a morte da avó. Nem cuidar da doença da mãe.

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Roubaram-lhe a festa de casamento da filha com o vizinho, aquele guri que a comadre pariu no mesmo dia que ela deu à luz à sua primogênita.

Vidas ceifadas. Famílias dilaceradas. Sonhos desfeitos. Dor e dores.

A banalidade das mortes, dos frios assassinatos, das crueldades estão nas manchetes, mas ferem com violência a alma dos que ficam.

Perguntar-se “até quando” é a voz surda das mulheres, pessoas desrespeitadas, escravas, mercadorias. Os filhos devem se questionar sobre o sistema que reproduz a violência. Hoje foi a sua mãe, e amanhã? Não foi um acidente na rua, não foi um assalto, foi e quase sempre são tiros e facadas dentro de suas casas.

Ah, mas isso pode mudar, vai mudar, porque a luta contra a violência começa a ser uma luta de todos, homens e mulheres.

(*) Adeli Sell é professor e escritor e Ângela Gomes, funcionária do Grupo Hospitalar Conceição (GHC). E-mail: adeli13601@gmail.com

Foto de Wyxina Tresse/pexels.


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