O Curso Memórias Lúdicas – Narrativas da Contemporaneidade, oficinas on-line, começa em 24/09 e termina em 26/11, com a produção de um livro da Série LongeViver. Inscrições abertas.
Por Cremilda Medina (*)
Duas inspirações – o escritor e companheiro Sinval Medina, às voltas com a criação de nosso site, Lendas e Narrativas, já havia pensado em um espaço digital de memória dos livros de nossa vida; e Leandro Karnal, no Estadão (C12, 20 de julho de 2025), fez uma elegia à leitura de livros. Daí me veio a ideia do tema da presente oficina para outubro/novembro/2025, nosso décimo encontro por meio do Portal do Envelhecimento – Espaço Longeviver:
Gostinho de ler na Era Digital – Nossos livros inesquecíveis
CONFIRA TAMBÉM:
Nos 10 encontros de praxe, proponho que sigamos, nas etapas biográficas, as leituras marcantes da infância, adolescência, ginásio, segundo grau de escolaridade, vestibular, graduação universitária, especializações profissionais, afetos cotidianos, encontros estrangeiros e regalos da maturidade.
Um livro por semana. Já escolhi meus dez títulos, que irei compartilhar com vocês ao longo dos encontros que se darão sempre às quartas-feiras, das 15 às 17 horas: setembro: 24; outubro: 1, 8, 15, 22, 29; novembro: 5, 12, 19, 26.
Em datas posteriores ao término da oficina, combinaremos mais uma edição de um livro da Série LongeViver, o décimo, conforme a tradição a partir do início desta década, e você fará parte dele. Vamos ao meu primeiro texto:
Primeiro encanto literário: da metade ao fim.
(História da menina Cremilda Celeste Fernandes de Araújo, aos oito aninhos, na casa da madrinha Cremilda, que lhe deu o nome em Portugal, onde nasceu e se alfabetizou, onze anos antes de vir para o Brasil, em 1953, e cursar o ginásio em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, completar estudos universitários em Jornalismo e Letras e se profissionalizar como jornalista e educadora. Em dezembro de 1970, já com família constituída e leitora consumada, se radicou em São Paulo, hoje sua terra eleita para viver.)
Meu primeiro romance. A menina, Midinha para a família, adora ouvir os contos mágicos que a madrinha Cremilda conta como ninguém. Pra que ler, se ouvir lhe dá a cena completa. Os deveres da escola, está certo, não dá para escapar, ler e redigir vai tudo bem com a professora Dona Emilinha. Mas ficção, isso fica por conta da Bela Adormecida, João Ratão, Bota de Sete Léguas, Gata Borralheira etc. No colo da madrinha, quando ela narra a viva voz, ou na cadeirinha em frente à leitora expressiva nas entonações, a delícia se prolonga na infância e a preguiçosa não precisa desbravar as palavras escritas e traduzidas de Charles Perrault ou dos Irmãos Grimm…
Mas um dia o dono do imprevisível pega a menina pelas mãos. A tarde está chuvosa no Largo dos Aviadores em Vila Nova de Gaia. Se o tempo fosse outro, a menina estaria a preparar o traje para ir ao cinema com os padrinhos no Porto. Mas hoje não, disse o padrinho Daniel que por certo está na sesta no seu quarto. A madrinha e Maria, ouve a voz da conversa, tratam da sala de comer e dos pratos na cozinha depois do almoço. Então a menina vai zanzar na sala de visitas e se aventurar a esmo nas teclas do piano. De repente, se põe atenta a uma estante giratória de livros, brinca de fazê-la rodar e joga o destino: vou sortear um desses calhamaços. O giro para e as mãozinhas agarram um pequeno volume: As pupilas do Senhor Reitor.
Afinal é um livro nem tão grosso, pera aí, mas as letras são pequeninas. Dá pra ler? A menina abre a esmo, cai na página 150. Começa a ler. Não é que lhe interessa o enredo da história. Senta no sofá e garra principalmente no romance de Margarida e Daniel. Que paixão. Não dá para interromper e os padrinhos, quando a descobrem no andar da sala de visitas, saem de fininho com um sorriso na cara. Padrinho Daniel diz baixinho pra madrinha Cremilda, vamos deixar a miúda com sua leitura…

Mal sabem eles que o romance de Júlio Diniz, romântico consagrado do século anterior, entrará na pele da afilhada naquele dia do final dos anos 1940. Levará à noite debaixo do braço para seu quarto, ainda lerá umas páginas antes de dormir e deixará para o domingo as próximas cenas das pupilas do senhor reitor. O que os padrinhos não imaginam é o percurso da primeira leitura do romance – meio do livro até o fim e a seguir, com ansiedade inusitada, do princípio até o meio. O fato é que, no próximo fim de semana, quando vier da casa dos pais, irmãzinha e avós paternos, para a casa dos padrinhos, dirá com queixo levantado: já terminei o romance da semana passada, acho que vou escolher outro parecido lá na estante de vocês.
A menina deixaria de lado os contos mágicos para se iniciar nas páginas da literatura, capítulos biográficos que se partiram do romantismo português no final dos anos 1940, se adensariam logo depois, nos anos 1950, nos trópicos com os modernistas brasileiros, clássicos e contemporâneos internacionais. O selo, porém, do primeiro livro lido em duas metades, ficaria nos mistérios da memória que de repente se revelam. Pois não é que quando espera o segundo filho, em Porto Alegre, em 1969, aquela discussão em família, que nome dar ao bebê que vai nascer coisa e tal, saltam nomes para meninas, a pequena Ana Flávia já tem quatro anos, mas agora não se sabe se é menino ou menina, vem novos nomes femininos, claro, a torcida é por menino, os avós Sinval e Iná, pais de Sinval, presentes na discussão gostariam de homenagear bisavós com o nome composto Miguel Afonso e Cremilda, a gestante de oito meses, interrompe o seminário nominal, com um grito não sufocado: nada disso, se for menino, vai se chamar Daniel, acabem com a discussão.
Assim aconteceu e Daniel Araújo Medina veio à luz no dia da primavera de 1969. O que ninguém percebeu era que o nome vinha do primeiro romance que sua mamãe lera. Todos aceitaram a escolha porque havia por trás duas referências incontestáveis: primeiro o padrinho Daniel, irmão de seu pai, José Pereira de Araújo; segundo, assunto triste, Daniel foi o nome de um irmão da Midinha que Zeca e Joaquina, seus pais, perderam com nove meses, antes dela e da outra menina, a Dininha, nascerem. Teimosa, porém, a jovem gestante daquela tarde de fim de outono no Rio Grande do Sul, falava consigo mesma: vai ser Daniel por causa do Daniel do romance do Júlio Diniz.
Grata pela atenção,
(*) Cremilda de Araújo Medina – Jornalista, pesquisadora e professora titular sênior da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, é autora de diversos livros e organizadora de muitas coletâneas inter e transdisciplinares. Texto escrito para o primeiro encontro das Oficinas de Memórias Lúdicas – Narrativas da Contemporaneidade: São Paulo, setembro de 2025, com o objetivo de desencadear diálogos quanto à produção simbólica do Gostinho de ler na Era Digital, nossos livros inesquecíveis. Bons ventos para nossa jornada.
Serviço
Décimo curso de Memórias Lúdicas
Data: De 24 de setembro a 26 de novembro de 2025
Horário: quartas, das 15 às 17 horas
Modalidade: Online ao vivo
Inscrições aqui
Foto de Vlada Karpovich/pexels.
