Na Farmácia Popular, o remédio é gratuito — mas o respeito também deveria ser

Na Farmácia Popular, o remédio é gratuito — mas o respeito também deveria ser

Muitas pessoas idosas saem da farmácia não apenas com seus remédios, mas com uma sensação difícil de ignorar: a de terem sido mal atendidos.


O programa Farmácia Popular do Brasil ampliou o acesso a medicamentos no país. Isso é inegável. É política pública que funciona — pelo menos no papel.

Mas existe uma pergunta que precisa ser feita com coragem: De que adianta garantir o acesso ao medicamento, se o cuidado no atendimento continua falhando?

Tenho ouvido, com frequência crescente, relatos de pacientes idosos que saem da farmácia não apenas com seus remédios — mas com uma sensação difícil de ignorar: a de terem sido mal atendidos.

Atendimentos rápidos demais. Explicações rasas. Falta de paciência. Olhares que dizem “vamos logo”. E, em alguns casos, algo ainda mais preocupante: o sentimento de constrangimento.

Isso tem nome: Idadismo.

Um preconceito silencioso, muitas vezes naturalizado, que se infiltra no atendimento em saúde e compromete aquilo que deveria ser inegociável: o respeito.

O idoso não precisa apenas do medicamento. Ele precisa entender o que está tomando. Precisa ser ouvido. Precisa ser tratado como alguém que ainda tem autonomia — não como um obstáculo no fluxo de atendimento.

Mas existe um ponto que poucos têm coragem de abordar. O modelo atual das farmácias também contribui para esse cenário. Enquanto boa parte dos atendimentos comerciais está associada a metas e comissões, os medicamentos da Farmácia Popular entram em outra lógica: alta demanda, baixo retorno direto.

E, ainda que isso não seja dito abertamente, a consequência aparece no comportamento.

A pessoa que não “gera venda” corre o risco de receber menos atenção.

Isso é desconfortável de admitir — mas necessário.

Porque estamos falando de um público que mais precisa de cuidado: pessoas idosas, frequentemente polimedicadas, com múltiplas condições clínicas e maior vulnerabilidade.

E é justamente nesse ponto que o sistema falha.

A dispensação de medicamentos foi reduzida, em muitos casos, a um ato mecânico. Quase automático.

Entrega-se a caixa. Confere-se a receita. E segue o fluxo. Mas e a orientação? E a segurança? E o acompanhamento? Ficam para depois. Ou pior: não acontecem. Isso não é apenas uma falha operacional. É uma falha ética.

Não perca nenhuma notícia!

Receba cada matéria diretamente no seu e-mail assinando a newsletter diária!

O farmacêutico não pode ser reduzido a um intermediário logístico entre o medicamento e o paciente. Seu papel é clínico. É educativo. É estratégico. Especialmente quando falamos de envelhecimento. Ignorar isso é desperdiçar uma das maiores oportunidades de impacto dentro do sistema de saúde.

O acesso foi conquistado. Agora, é o cuidado que precisa evoluir. E talvez a mudança comece com uma pergunta simples — mas incômoda: Como estamos tratando quem depende desse sistema?

Agora, eu quero inverter o olhar.

E você — já se sentiu desrespeitado ao retirar seus medicamentos?

Já foi atendido com pressa, sem explicação, ou com aquela sensação de estar “atrapalhando”?

Já saiu da farmácia com dúvidas… mas sem coragem de perguntar?

Se isso já aconteceu, saiba: isso não deveria ser normal.

E não pode continuar sendo.

Porque saúde não se resume ao acesso.

Saúde também é a forma como você é tratado no caminho.

Redação Portal: O Farmácia Popular é um programa do Governo Federal lançado em 2004 que visa complementar a disponibilização de medicamentos utilizados na Atenção Primária à Saúde, por meio de parceria com farmácias da rede privada. Dessa forma, além das Unidades Básicas de Saúde e farmácias municipais, o cidadão pode retirar medicamentos nas farmácias credenciadas ao Farmácia Popular. Em 2006 teve a criação da rede conveniada “Aqui tem Farmácia Popular”, pois até então era rede própria. E, desde 2025, o Programa passou a disponibilizar gratuitamente 100% dos medicamentos e insumos de seu elenco à população brasileira. O programa atende 12 indicações, contemplando medicamentos para hipertensãodiabetesasma, osteoporose, dislipidemia (colesterol alto), rinite, doença de Parkinson, glaucoma, diabetes mellitus associada a doenças cardiovasculares e anticoncepção. Além disso, oferece fraldas geriátricas para pessoas com incontinência e absorventes higiênicos para beneficiárias do Programa Dignidade Menstrual.

Foto: Divulgação


Homem de óculos, avental branco e atrás medicamentos
Luiz Antonio Assunção

Luiz Antonio da Assunção é farmacêutico clínico CRF 23.110. Pós-graduado em acompanhamento farmacoterapêutico. Pós-graduado em gastroenterologia funcional e nutrigenômica. E-mail: luizclinicaassuncao@gmail.com. Insta: https://www.instagram.com/luizassuncaofarmaceutico/

Compartilhe:

Avatar do Autor

Luiz Antonio Assunção

Luiz Antonio da Assunção é farmacêutico clínico CRF 23.110. Pós-graduado em acompanhamento farmacoterapêutico. Pós-graduado em gastroenterologia funcional e nutrigenômica. E-mail: luizclinicaassuncao@gmail.com. Insta: https://www.instagram.com/luizassuncaofarmaceutico/

Luiz Antonio Assunção escreveu 26 posts

Veja todos os posts de Luiz Antonio Assunção
Comentários

Os comentários dos leitores não refletem a opinião do Portal do Envelhecimento e Longeviver.

LinkedIn
Share
WhatsApp
Follow by Email
RSS