Cuidar é caminhar diante de dois rumos diferentes, é oferecer afeto tentando não se perder nele, é segurar as mãos de quem se cuida, sem esquecer-se de si.
A vida inteira precisamos de graça e gentileza. (Platão)
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Ao atender o telefone, ouvi a cuidadora particular de um paciente desabafar, chorando muito: “…Ele está muito ruim, vai ser internado, Meu Deus! Estou com muita pena, ele não merecia. Estou arrasada, gosto muito dele. Até ontem estava ótimo, até caminhamos na pracinha. Nem dormi direito pensando nisso! ”
Sempre que cuidamos de alguém, uma variedade de emoções e comportamentos surge dentro de nós. Algumas dessas emoções são como belas rosas, cheias de vida e esperança. Outras, parecem mais como cactos espinhosos, prontos para nos ferir e nos desafiar.
Alguns momentos nesse processo parecem florescer naturalmente — gestos carinhosos, sorrisos sinceros, olhares silenciosos que dizem tudo. Mas, ao lado dessa beleza, existe também uma outra face: um peso invisível que muitas pessoas romantizam ou ignoram. É a exaustão física e emocional, limitante, noites em claro, questionamentos sem respostas, sonhos que vão ficando pelo caminho. Cuidar é também um ato de aceitação, de enfrentar negações e renúncias.
Cuidar é caminhar diante de dois rumos diferentes, é oferecer afeto tentando não se perder nele, é segurar as mãos de quem se cuida, sem esquecer-se de si.
Há beleza neste processo, mas nem sempre é leve, calmo, como o mar sem ondas. E é, justamente, neste intervalo entre afeto e exaustão, que mora a real experiência do cuidar. Uma experiência humana, imperfeita, profunda e intensa, onde nem sempre existe um ato contínuo de afeto, pois o cuidar é um movimento que ocorre muitas vezes nas profundezas do indivíduo, onde o emocional se desgasta como flores secas.
Há tempos que o cuidado floresce como o início da primavera, quando gestos simples reacendem memórias, quando o toque é suave, quando há presença. Em outros, as folhas caem como no outono, onde a insegurança de não saber o que acontecerá, as frases repetidas, a sensação de estar carregando o mundo, traz um esgotamento físico e emocional que resplandece no cuidar.
E mesmo sendo atravessado por flores e espinhos, esse cuidado permanece… por dever, por obrigação, por amor, por escolhas feitas por um movimento familiar, por laços que atravessam histórias pelo caminho. Quem cuidar? Por que cuidar?
O cuidado informal, aquele realizado por familiares, não vem com manual. No primeiro momento a família está cuidando em pequenas dificuldades do dia-a-dia. Em outro, está reorganizando a própria vida em função de outra pessoa, trazendo comprometimento de relações, trabalhos, vida pessoal, em uma rotina que vai mudando silenciosamente.
O cuidar cansa! Corpo e mente estão sempre em alerta, antecipando riscos, aprendendo a lidar com perdas diárias em todas as esferas possíveis. Por isso, romantizar o cuidado torna-se perigoso, pois ao desenhar e colorir o cuidado, esconde-se sofrimento, que surge no silêncio, na culpa, na vergonha, no medo de admitir que estão cansados.
O sofrimento do cuidar também abarca cuidadores formais. Há técnica, preparo, formação, peso, mas sobretudo a humanidade deste processo.
Os cuidadores formais não são máquinas, são seres humanos cuidando de outros seres humanos. Escutam histórias repetidas, angústias, dores, acompanham sofrimento e despedidas lentas invisíveis. Organizam rotinas, medicações, ao mesmo tempo em que seguram mãos e sustentam silêncio, adentrando em um mundo de sofrimento emocional conjunto.
O cuidado formal não está livre do desgaste emocional deste processo. Há vínculos de respeito, afeto e carinho construídos na relação de cuidar que deixam marcas. Algumas de aprendizado, respeito mútuo e amor; outras, daquilo que não gostaríamos que fossem feitos com ninguém. É preciso separar a entrega da sobrecarga, independente de quem cuida. É preciso validar o sofrimento, o cansaço, permitindo que essas pessoas, familiares ou não, existam além da função de cuidar!
O cuidado exige pausa, descanso, respiro! Ele não é feito só de flores, mas precisa de terra, de água, de adubo.
Porque ninguém consegue florescer sozinho…
Imagem: gerada por inteligência artificial/Gemini.
