Trabalhar e se manter ativa, mesmo depois da aposentadoria, se configuram como fatores de proteção para o envelhecimento feminino.
Arlete Portella Fontes (*)
O livro Mulheres e suas histórias de envelhecimento é resultado de 15 entrevistas realizadas entre 2019 e 2020 com mulheres de 59 a 101 anos. São vozes de diferentes trajetórias e profissões — desenhista, cozinheira, advogada, professora aposentada, dona de casa, psicóloga, relações públicas, médica geriatra, educadora, entre outras.
As conversas duravam de uma hora e meia a duas horas e revelaram um mosaico de experiências. Como disse a professora Anita Liberalesso Neri, no prefácio do livro, “essas mulheres ofereceram uma rica paleta de cores e nuances de suas vidas”.
As entrevistas abordaram aspectos da biografia pessoal — estado civil, profissão, filhos — e as percepções sobre o envelhecimento: os medos diante das mudanças do corpo, a pressão da ditadura da beleza, as perdas de autonomia e independência, as experiências com doenças ou com familiares com demência. Mas, acima de tudo, como cada uma vinha enfrentando tais desafios.
Como nasceu o livro?
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Dentre os benefícios da maturidade tive a graça de conviver com um grupo de amigas, desde os 30 anos, que teve origem no ambiente de trabalho. Em nossas reuniões falávamos sobre temas que nos eram caros: o estresse que o trabalho nos proporcionava, os encontros e desencontros amorosos, a solidão, o relacionamento familiar, as buscas espirituais e religiosas, as mudanças físicas e psicológicas que chegavam ao longo do tempo.

Foi uma dessas amigas, Branca — cozinheira e desenhista, então com 52 anos — que, em 2007, escreveu um e-mail para o grupo dizendo:
“… estou um pouco desesperada. Eu, a linda e maravilhosa, acho que estou completamente menopausada!!! Faz umas duas semanas que, faça frio ou calor, sinto um calor que me mata! Agora, nos últimos dias, me dá uma tristeza, uma depressão incrível… A ideia é que vocês, mesmo sendo mais jovens, me ajudem. Vamos fazer um fórum na internet? Me contem se é assim mesmo ou se estou enganada…”
O convite de Branca deu origem a uma série de conversas que inspiraram o capítulo. 1. Meia-idade e seus desafios. Doze anos depois, em 2019 e início de 2020, essas mesmas mulheres — e outras novas personagens — voltaram a ser entrevistadas. Eram tempos de pandemia.
Uma das mulheres, Arima, socióloga de 54 anos, que havia enfrentado um câncer durante a menopausa dizia: “Quando tive câncer, entrei na ‘meno’ sem opção. Como o câncer era grave, a ‘meno’ não me incomoda. A saída que encontrei foi me reinventar: rever valores, aceitar a decadência natural, curtir os novos tempos. Outra coisa que descobri é não dramatizar. Vamo que vamo.”
As amizades aparecem nas narrativas como um dos grandes apoios para envelhecer com leveza e resiliência. São elas que ajudam a atravessar momentos de dor e de alegria — o calor da menopausa, o nascimento de um filho, a perda de um ente querido, o enfrentamento de uma doença ou a decepção com a vida ou a convivência com familiares com demência. O amigo é aquele que espelha nossas virtudes, mas também revela nossas fragilidades. E é nesse espelho que muitas aprenderam a rir de si mesmas e a seguir em frente.
No capítulo 2. Percepções e nuances do envelhecimento, as narrativas ora mostram um envelhecimento vivido com certo medo de ficar dependente do outro, ora um certo grau de aceitação de algumas limitações impostas pelo envelhecer. Como diz Nina, de 66 anos, “Gostaria de me manter independente até o final da vida, para não dar trabalho a ninguém.”
Outras mulheres falam sobre a dificuldade de lidar com o envelhecimento dos próprios pais. Sara, de 60 anos, revela:“Tenho vivido o envelhecimento de minha mãe e, como filha, perco facilmente a paciência. Às vezes vejo a tênue linha entre o cuidado e a agressão emocional, porque eles ficam mais frágeis e dependentes.”
Trabalhar e se manter ativa, mesmo depois da aposentadoria se configuram como fatores de proteção para o envelhecimento. Papoula, de 73 anos, continua atuando na vida acadêmica. Maria, 72, ex-supervisora de ensino, construiu uma rede de contatos e atividades que a mantém em movimento. Já Edméia, aos 98 anos, cuida do marido em hemodiálise e com Alzheimer, mas não abre mão da costura, sua grande paixão: “Se eu não tenho um trabalho pra fazer aqui, eu morro. É a minha vida. Faço guardanapo, toalhinha de lavabo, costuro pra quem precisa de um paletozinho…”

Entre tantas histórias, há também os dilemas da maternidade e do trabalho. Maria, 86 anos, começou a trabalhar fora aos 45, quando os filhos já estavam crescidos. Mãe de cinco, antecipou a aposentadoria para ajudar nos cuidados dos netos.
A aposentadoria, para muitas mulheres, traz sentidos diferentes conforme a realidade econômica. Dados mostram que a renda da pessoa idosa — vinda do trabalho e da aposentadoria — representa, em média, 60% da renda das famílias urbanas e 70% nas áreas rurais.[1]
As histórias do capítulo 3. Um pouco mais sobre a maneira como as dificuldades são enfrentadas revelam o modo como essas mulheres lidam com os desafios da vida: com fé, otimismo, crença na própria coragem de resistir, apoiadas em suas crenças religiosas e espirituais.
Mariana, 60 anos, enfrentou um câncer e, durante a pandemia, ainda sofreu um AVC. Ela conta que o apoio da família e dos amigos foi fundamental para superar um dos períodos mais difíceis da vida.
As narrativas dessas mulheres nos levam à reflexão de que a pandemia que assolou o mundo em 2020, trouxe à tona a velhice como protagonista de desigualdades socioeconômicas, etarismo e vulnerabilidades. O envelhecer está repleto de formatos e intensidades.
Fica aqui um convite: venha conhecer as histórias dessas mulheres e quem sabe se inspirar para contar a sua.
Nota
[1] Wajnman S; Oliveira, AMHCO; Oliveira, EL. Os idosos no mercado de trabalho :Tendências e Consequências. In: Camarano, AA (org). Os novos idosos brasileiros. Muito além dos 60? Rio de Janeiro: IPEA, 2004.
(*) Arlete Portella Fontes – Psicóloga clínica e organizacional (PUC-CAMPINAS), Doutora e Mestre em Gerontologia (UNICAMP, 2015, 2006), Coach pessoal e de executivos, Formação em Reich e Análise Bionergética (2004 – IIBA- International Institute for Bioenergetic Analysis – NY,LIGARE); Psicodramatista (FEBRAP/IPPGC); Especialista em Design Instructional para EAD virtual (UNIFEI). Site: www.psicoterapiaesaude.com.br. E-mail: arletepfontes@gmail.com
Foto de Centre for Ageing Better/pexels.

Serviço
Livro: Mulheres e suas histórias de envelhecimento
Autora: Arlete Portella Fontes
Ano: 2021
Editora: Unità Editora
