Falar em velhices, no plural, é um ato de reconhecimento da cidadania. Não há uma “velhice padrão” porque simplesmente não existe uma trajetória de vida padronizada.
Lidiane Charbel Souza Peres (*)
A transição do paradigma da “terceira idade” para o conceito de velhices diversas, enfatiza que o envelhecimento não é um processo homogêneo, mas uma trajetória moldada por determinantes sociais, biológicos e culturais.
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Neste texto, aborda-se o impacto do etarismo e a importância da mudança terminológica de “asilo” para ILPI (Instituição de Longa Permanência para Idosos) como estratégia de resgate da dignidade e autonomia.
Também se explora a perspectiva técnico-científica, focando na heterogeneidade do envelhecimento e na manutenção da funcionalidade sob a ótica da gestão e das políticas sociais. Afinal, o cuidado especializado deve ser pautado pela biografia individual e pelo respeito à pluralidade das vivências no curso da vida.
O olhar social e a quebra de estigmas
Durante décadas, o envelhecimento foi tratado pela sociedade brasileira sob a ótica da invisibilidade ou da caridade. O termo “asilo”, impregnado de um histórico de abandono e exclusão, refletia uma época em que envelhecer era sinônimo de “esperar o fim”. No entanto, como Assistentes Sociais e Gerontólogos, observamos que essa visão não comporta mais a realidade do século XXI.
Falar em velhices, no plural, é um ato de reconhecimento da cidadania. O envelhecimento é um processo heterogêneo por natureza, influenciado transversalmente por marcadores de gênero, raça, classe social e orientação sexual. Não existe uma “velhice padrão” porque não existe uma trajetória de vida padronizada. Ao chegarem aos 60 anos ou mais, as pessoas carregam o acúmulo de todas as oportunidades (ou ausências delas) que tiveram ao longo de suas décadas.
Neste cenário, a transição terminológica e prática para a Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI) torna-se vital. A ILPI não é um local de isolamento, mas um equipamento da rede de cuidados que deve promover o envelhecimento ativo, mesmo para aqueles com limitações funcionais. É o novo lar de sujeitos que desejam segurança, convívio social e cuidados especializados, sem abrir mão de sua biografia e autonomia. Combater o etarismo é, antes de tudo, dar voz a esses múltiplos protagonistas da longevidade.
Gestão, políticas sociais e funcionalidade
Do ponto de vista técnico e da gestão de políticas sociais, a compreensão das velhices diversas exige uma abordagem baseada na heterogeneidade. Duas pessoas idosas com a mesma idade cronológica podem apresentar capacidades intrínsecas completamente distintas. Por isso, a gestão de uma ILPI moderna deve se afastar do modelo assistencialista custodial para adotar um modelo centrado na pessoa.
O papel da gestão é mediar a oferta de cuidados com a preservação da autonomia. Isso passa pela identificação precoce das chamadas Gigantes Síndromes Geriátricas (os 7 Is), mas também pelo olhar atento à insuficiência familiar e aos determinantes sociais da saúde. Como especialista em políticas sociais, entendo que a institucionalização deve ser uma escolha digna, onde a gestão garanta que os direitos fundamentais do Estatuto da Pessoa Idosa sejam o norte de toda prática cotidiana.
A funcionalidade é o novo marcador de saúde na gerontologia. O objetivo não é apenas adicionar anos à vida, mas garantir que esses anos sejam vividos com propósito. Seja na velhice que ainda atua no mercado de trabalho ou na velhice que requer cuidados intensivos, o respeito à diversidade é o que garante que o envelhecer deixe de ser uma sentença de exclusão para se tornar a celebração de uma vida inteira.
Referências
AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (Brasil). Resolução da Diretoria Colegiada – RDC nº 502, de 27 de maio de 2021. Dispõe sobre o funcionamento das Instituições de Longa Permanência para Idosos. Brasília, DF: ANVISA, 2021.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Envelhecimento e saúde da pessoa idosa. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2006. (Cadernos de Atenção Básica, n. 19).
KALACHE, Alexandre. O mundo está envelhecendo: a revolução da longevidade. Revista USP, São Paulo, n. 78, p. 82-93, jun./ago. 2008.
MORAES, Edgar Nunes de. Princípios básicos de geriatria e gerontologia. Belo Horizonte: Coopmed, 2008.
NERI, Anita Liberalesso. Palavras-chave em gerontologia. 2. ed. rev. e ampl. Campinas: Alínea, 2005.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Relatório mundial sobre envelhecimento e saúde. Genebra: OMS, 2015.
(*) Lidiane Charbel Souza Peres – Assistente Social e Gerontóloga. Especialista em Gestão de ILPI e Políticas Sociais. E-mail: licharbelsjdr@gmail.com.
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