Despedir-se de Maria do Carmo Guido não é fácil, pois perder uma intelectual combativa e colaboradora do Portal é uma perda inigualável.
Há partidas que deixam um silêncio pesado, mas há outras cuja ressonância se recusa a se calar. O falecimento de Maria do Carmo Guido Di Lascio, carinhosamente chamada de Cacá, no último dia 13 de setembro, deixa a comunidade da gerontologia e dos direitos humanos entrestecida, com um sentimento profundo de luto e desamparo. Contudo, em meio à dor da despedida, a memória dessa socióloga, pesquisadora e colaboradora do Portal do Envelhecimento se impõe como inspiração indispensável para compreender e transformar o envelhecer no Brasil.
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Nosso último encontro se deu no dia 04/08 em São Paulo, em um evento com a Ministra das Mulheres, Márcia Lopes e a Secretária de Autonomia Econômica, Joana Célia dos Passos, e Coletivos de Mulheres Idosas de São Paulo, para a apresentação do Fórum da Mulher Idosa do Ministério das Mulheres. E foi Cacá quem organizou esse encontro. Foi, fisisicamente, nossa despedida.
Socióloga de formação e pensadora incansável, Maria do Carmo não enxergava o envelhecimento e a velhice em si sob a ótica meramente biológica que a sociedade costuma impor. Em suas formulações teóricas e em seus textos publicados no Portal do Envelhecimento, ela observou o fenômeno da longevidade com um rigor analítico indispensável. Debruçou-se sobre temas emergentes e urgentes como a economia do cuidado, o envelhecimento feminino e os reveses das políticas públicas — denunciando rigorosamente como as desigualdades sociais, de gênero e de classe atravessam as velhices deste país afora. Em momentos críticos da história recente, como no ápice da pandemia de COVID-19, sua voz teórica ecoou com coragem ao analisar a “necropolítica” voltada às populações idosas, alertando contra o idadismo institucionalizado e o desamparo social.

Foto: arquivo pessoal
O grande legado da trajetória de Maria do Carmo, no entanto, residiu no encontro irrestrito entre a reflexão acadêmica e a ação militante. Cacá recusava a torre de marfim: sua teoria alimentava a rua, o debate político e o controle social. Atuando como coordenadora do Fórum Nacional das Mulheres Idosas e Envelhecentes e conselheira no Conselho Municipal da Pessoa Idosa de São Paulo (2023-2025), ela deu corpo e alma à defesa irrestrita da autonomia, do protagonismo cidadão e dos direitos humanos das pessoas idosas. Para ela, envelhecer não era um recolhimento, mas uma afirmação de existência e resistência política.
Despedir-se de Maria do Carmo Guido não é fácil, pois perder uma intelectual combativa da nossa contemporaneidade e colaboradora do Portal é uma perda inigualável. Fica-nos a dor aguda da ausência e a saudade de sua escrita lúcida e engajada, tão necessária. Fica também, contudo, o compromisso ético de dar continuidade às suas lutas: honrar o seu legado significa seguir tensionando as estruturas sociais, a fim de se garantir que o envelhecer no país seja de fato digno.
Cacá nos deixa física, mas sua voz potente e sua militância infatigável pela dignidade no envelhecimento continuam presentes e necessárias!

Reproduzimos a seguir a NOTA DE PESAR do Fórum Nacional dos Direitos das Mulheres Envelhescentes e das Mulheres Idosas
Não é fácil se despedir de Maria do Carmo Guido que também tinha Di Lascio no sobrenome. Nem imaginar que ela não estará mais conosco na luta diária por um mundo melhor para a população idosa. Em especial, na busca da vida com visibilidade, dignidade e segurança para as mulheres 50+ e 60+.
Muita gente conheceu a Maria do Carmo socióloga, Cacá para as amigas e amigos, que passou anos atuando na defesa das pessoas idosas. Que foi uma das coordenadoras do Setorial Nacional da Pessoa Idosa do Partido dos Trabalhadores. Que foi conselheira municipal pelos direitos das pessoas idosas da cidade de São Paulo. E que, em 2023, criou o Fórum Nacional dos Direitos das mulheres Envelhecentes e das Mulheres Idosas denunciando o apagamento social das mulheres.
Nós, do Fórum Nacional dos Direitos das Mulheres Envelhecentes e das Mulheres Idosas, fazemos parte do grupo que, incentivadas por ela e, ao lado dela, demos voz e cara às mulheres em processo de envelhecimento. Mesmo quando outras mulheres negavam sua própria velhice.
Maria do Carmo também fazia parte da Marcha Mundial das Mulheres e tinha consciência da importância estratégica de incluir a pauta do envelhecimento feminino nos movimentos feministas, no planos de governo e na sociedade. E lutou vigorosamente por isso.
Em 2025 realizamos o 1a. Conferência Nacional Livre das Mulheres Envelhecentes e Idosas. Também levamos a pauta para dentro da Conferência Nacional dos Direitos das Mulheres e da Conferência Nacional dos Direitos das Pessoas Idosas. E multiplicamos o tema nos diferentes estados/DF e territórios em todo o país.
Em 2025, sob a coordenação de Maria do Carmo, sugerimos a criação do Fórum Nacional pelo Protagonismo das Mulheres Idosas dentro do Ministério das Mulheres. Temos a consciência de que as mulheres não deixam de ser mulheres após os 60 anos, ainda que o idadismo e o autoidadismo digam o contrário.
Como dizia Maria do Carmo, o envelhecimento faz parte do processo natural da vida, mas as mulheres passam por múltiplas camadas de desigualdades. E isso influencia nos diferentes tipos de envelhecimento e na qualidade de vida delas.
Não. Não é mais possível falar das pessoas idosas sem falar das mulheres idosas, das violências, da sobrecarga física e mental diária, do cuidado sem remuneração ao longo da vida e seus constantes desafios mesmo depois dos 60+.
Maria do Carmo Guido foi uma lutadora. Acreditava na vida, nos direitos humanos e incentivou debates e reflexões permanentes no grupo de gestão do Fórum Nacional dos Direitos das Mulheres Envelhecentes e das Mulheres Idosas.
Seguiremos falando e escrevendo sobre e para as mulheres em processo de envelhecimento para romper o silêncio e o apagamento delas. Seguiremos homenageando Maria do Carmo Guido e todas as mulheres que foram e são silenciadas ao longo de suas vidas.
Maria do Carmo, Presente!
Imagem de destaque produzida pela IA/Gemini.
