A velhice que vota: três educadores diante da Democracia. Entrevista psicodramática

A velhice que vota: três educadores diante da Democracia. Entrevista psicodramática

O psicodrama permitiu entrar no como se, na realidade suplementar, dando corpo à democracia e ao autoritarismo, colocando-os diante de nós para que pudéssemos olhar, sentir e dialogar com eles.


Nesta entrevista psicodramática, convidei três professores aposentados, Lourdes de Fátima Paschoaletto Possani (Lurdinha), Marli Ortega de Figueiredo e José Antonio Chapéu, a refletirem sobre democracia, autoritarismo e envelhecimento. Pessoas que, ao longo da vida, seguem exercendo seu papel de cidadania e aprendendo com a própria história.

O psicodrama nos permitiu entrar no como se, na realidade suplementar, dando corpo à democracia e ao autoritarismo, colocando-os diante de nós para que pudéssemos olhar, sentir e dialogar com eles. Nesse movimento, também revisitamos cenas do passado que trouxeram dor, mas que revelaram a força de quem viveu, participou e continua encontrando razões para lutar.

O grupo foi coconstruindo a experiência. As histórias se encontraram, os pensamentos se completaram e, quando a voz embargou, o acolhimento também se fez presente. Houve espaço para a memória, para a emoção e para aquilo que nem sempre conseguimos expressar sozinhos.

Essa vivência me levou de volta ao meu Trabalho de Conclusão de Curso, em 1999, intitulado O psicólogo e o compromisso social. Uma narrativa que me acompanha desde então e que continua me provocando a pensar sobre o lugar da Psicologia para além da clínica ou da sala de gerência de Recursos Humanos. A escuta ativa também precisa atravessar essas paredes e alcançar aquilo que nos constitui como sujeitos de uma sociedade.

Afinal, quais são as nossas dores sociais? E como podemos, a partir da escuta, dos encontros e da ação coletiva, contribuir para que elas não sejam silenciadas?

Aquecimento Inespecífico

Silmara: Neste momento, ao pensar nesta conversa sobre política e democracia, o que surge primeiro: uma imagem, uma sensação no corpo ou um sentimento?

Antonio: Veio a sensação de um trabalho para um bem comum e de justiça.

Lurdinha: A palavra democracia, no momento atual, corre o risco de ser perdida. Podemos perder o Estado Democrático de Direito. Quem sabe o que é democracia e o que significa está tenso. Por isso, aceitei esse convite.

Marli: Veio um sentimento de medo e insegurança. Medo de perder aquilo que sei que foi conquistado a duras penas. A história mostra a tristeza.

Tive minha avó presa durante a ditadura militar e cresci numa família muito politizada.

Inclusive, escrevi um livro com os registros que encontrei dessa época sobre a história de minha avó, Memorial de Augusta.

Aquecimento específico

Ouça a música “Cálice”, de Chico Buarque e Gilberto Gil. O que ela desperta em você agora?

Marli: Medo do silêncio que atordoa e que nos deixa alienados, não nos permitindo perceber o que realmente está acontecendo.

Feche os olhos e deixe a música levar você a um acontecimento político do Brasil. Qual aparece? Quantos anos você tem nessa cena e o que sente?

Marli: Lembro da ditadura, e a cena que vem é a da prisão de minha avó. Eu tinha 12 anos, mais ou menos. Embora eu não tenha visto ela sendo presa, porque morava no interior, lembro da revolta do meu pai. Na minha cabeça de criança, quem ia preso era bandido, ladrão e assassino. Minha avó e meu avô não eram nada disso. Eram ativistas políticos desde cedo. Nos anos 30 e 40, ela já participava da Federação de Mulheres e lutou pelo voto feminino.

Foi presa mais de uma vez, também na época de Getúlio Vargas.

É muita dor!

Lurdinha: Eu vivi na zona rural até os 17 anos. A cena que me veio é a de quando eu tinha uns 5 anos. O dono da fazenda tinha uns três rádios, e a notícia que ouvíamos naquele dia era que o Brasil havia sido salvo do comunismo. Todas as pessoas agradeceram a Deus.

Só fui compreender mais tarde que se tratava da Marcha da Família com Deus pela Liberdade.

Já aos meus 14 anos, ainda na roça, havia uma escola com uma educação mais crítica, e fui entendendo o que ocorreu naquele período de ditadura, inclusive as muitas mortes.

Foi lá em 1975, com estudos, formação, a leitura da Pedagogia do Oprimido e muitos outros livros de Paulo Freire, que realmente entendi o que era a democracia e o que era a ditadura.

Antonio: Lembro das cenas de lutas e caminhadas pelas “Diretas Já!”. Eu tinha acabado de entrar na universidade e, aqui na minha cidade, Piracicaba, também entrei para o grupo de teatro, formando frente a essas caminhadas. Levávamos um caixão em simbologia ao enterro de políticos ditadores e torturadores. Fazíamos o enterro em praça pública. Esse foi o momento em que estive mais presente, aos meus 23 anos.

O que você sente?

Antonio: Essa luta carrego até hoje. Inclusive, estou chegando agora da praça e ontem estive em caminhada em defesa da democracia e da soberania. Isso está presente dentro de mim desde aquela época. Faço peças de teatro engajado. Todos os nossos espetáculos têm o povo brasileiro e sua luta como roteiro. Muita gente desconhece ou finge que desconhece o que esse país já viveu, mas é muito bonito quando encontro uma pessoa mais velha que está convicta de seu voto porque sabe o que o país passou.

Essa política não surgiu em 1964 ou é de agora, ela vem desde a colonização. Eu, como negro, sinto na pele isso ainda mais forte.

Lurdinha: Também lembro de quando trabalhei em uma granja no interior e um dos filhos do patrão foi assassinado pela ditadura na capital. Os pais daquela época preferiam contar que o filho era criminoso a assumir que era uma das vítimas da ditadura. Isso tudo pelo medo que rondava a sociedade.

Você está em sala de aula. Um aluno pergunta: “Professor(a), para que serve votar?”

Antônio: O voto é importante para garantir o vosso direito e também o futuro do nosso país. Essa responsabilidade é nossa!

Lurdinha: Essa é uma das escolhas que você pode ter estando num modelo político democrático. Não é a única, mas uma das formas de exercício da democracia.

Marli: Em um sistema não democrático, esse direito não existe!

A sociedade também diz “cálice” para afastar de si o envelhecimento. Neste momento, os idosos são uma grande parte daqueles que irão decidir essa eleição. Qual é o seu solilóquio? Pense em voz alta o que você diz a si mesmo(a) agora.

Marli: Vivência. Nós vivemos a ditadura. Eu vi de perto, dentro da minha casa. Eu, aos 70, faço questão. Minha avó, aos 90, ainda fazia questão.

Antônio: Responsabilidade!

Lurdinha: Sabedoria.

DRAMATIZAÇÃO

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A Democracia está sentada à sua frente. Olhe para ela. O que você diz a ela?

Marli: Não vá embora!

Lurdinha: Aguente firme e reaja!

Antônio: Nossa, como você tem que ser aperfeiçoada, hein!

O voto não é o que determina a história, mas sim a quem elegemos. Por exemplo, o Congresso tem o poder sobre as leis que criará e aprovará. Esse processo que vivemos, em que o dinheiro elege os deputados, tem que ser mudado. A representatividade não existe, pois, na realidade, quem compra o lugar dos deputados é o agronegócio, a religião e os interesses econômicos. Ao lado da democracia, também está o mercado financeiro. O mercado financeiro não deveria ter papel garantido ao lado dela.

Troque de lugar: agora você é a Democracia, olhando para os cidadãos. O que você diz a eles?

Marli: Eu quero ficar, porque o Brasil merece. Mas o povo tem um papel importante: o de mostrar a realidade, conscientizar sobre classes e promover o entendimento sobre o que é falado. Fazer com que as pessoas percebam o que está por trás dos discursos. Acima de tudo, ter consciência de classe, porque, se houvesse, ninguém votaria no patrão.

Antônio: Não faço nada sozinha! Vocês tratem de participar para fazer valer a velha frase: “O poder emana do povo!”

Lurdinha: Pensem e planejem a longo prazo, principalmente os países da América Latina.

Volte ao seu lugar. O Autoritarismo está sentado na outra cadeira. Veja como ele é, como fala e o que traz nas mãos. O que você diz a ele?

Marli: Nas mãos, eu vejo um chicote e o “cale-se” na palavra. Eu digo a ele: “Eu não me rendo!”

Lurdinha: Ele é astuto, mau e perverso. Ele tem nas mãos o dinheiro, a mídia e, principalmente, a religião, para manipular a mente das pessoas com todos os recursos possíveis que estiverem a seu favor.

Ele faz o preto votar contra o preto, o gay votar contra o gay e a mulher votar contra a mulher. Eu digo a ele: “Morra!”

Mas, infelizmente, não é porque eu quero que ele vai morrer. Precisamos nos organizar para acabar com o autoritarismo. É um processo lento…

Marli: E ela retrocede.

Antônio: O autoritarismo é um ser quase invisível, dissimulado, falso, bonitinho aos nossos olhos, mas muito ardiloso. O único pensamento que eu tenho é: “Você pode ser grande, mas não é dois. Vou juntar os companheiros aqui e vamos ver quem ganha.”

Troque de lugar: agora você é o Autoritarismo. O que você promete às pessoas? O que precisa que elas deixem de fazer para você ficar?

Lurdinha: Eu sou o salvador da pátria. Não quero que você pense. Eu penso por você, decido por você. Quero que você coma somente o suficiente para sobreviver trabalhando.

Seja uma mão de obra barata e não fique reivindicando muita coisa. Estando bem eu, minha família e meus herdeiros, é o suficiente.

Não quero manifestações, e não há direitos.

Marli: Não quero uma escola de qualidade, pois isso é perigoso. Não vamos investir. Ninguém deve aprender a pensar. As pessoas não precisam ter consciência de nada, só produzir para o progresso e o crescimento do país.

Antônio: Vem comigo! Você vai ser rico e próspero. Só que venha sozinho, um de cada vez. Nada de duplas ou grupos. É só trabalhar 24 horas por dia que ficará rico como eu. Pode vir!

Marli: Essa é a meritocracia!

Você está na sociedade vinte anos à frente, naquela que espera ver. Olhe a rua, a escola, as pessoas, o dia da eleição. Como tudo está?

Marli: Tudo depende de qual foi a escolha feita no passado. Vejo uma rua vazia, sem eleições, sem urnas… Mas enxergo ainda outra cena: cidadãos lutando por seus direitos.

Lembro de meu pai quando cheguei em casa com meu primeiro 13º salário. Ele disse que aquilo não era um favor, mas um direito conquistado a duras penas. Que pessoas como ele apanharam para garantir o nosso direito e que as gerações futuras têm a obrigação de preservar toda essa conquista.

Lurdinha: Vejo pessoas lutando para recuperar a democracia dentro de tudo aquilo que está envolvido por ela: o bom trabalho, a educação, a liberdade… Na rua, vejo motoboys e motoristas de aplicativos lutando pela melhoria das condições de trabalho.

A juventude ainda colabora no processo político.

Antônio: Estou ouvindo um comunicado! Fiquem dentro de suas casas, com celulares às mãos e atentos. Não saiam para as ruas, pois tem um bando de estudantes, professores e pais aumentando a cada momento o movimento. Armas não são suficientes para deter esse movimento.

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Marli: Foi doloroso relembrar a cena de minha avó.

Lurdinha: Achei interessante.

Antônio: Foi um exercício de desesconder a memória. Sempre é bom revisitar o passado, pois há coisas adormecidas que nos fazem lembrar que estamos vivos, que participamos e que temos forças para continuar lutando.

Serviço
Instagram de dois entrevistados:
@_antoniochapeu
@Marli.Figueiredo.50

Fotos: arquivo pessoal dos entrevistados

Foto destaque de Clayton/Pexels com assistência de IA/Gemini


foto criada pela IA chamando para o voto das pessoas idosas, apresentando uma diversidade de idosos
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Silmara Simmelink

Psicodramatista, Didata e Supervisora pela Federação Brasileira de Psicodrama. Psicóloga graduada pela Universidade São Judas Tadeu. Especialista em Gerontologia pelo Albert Einstein e fez curso de extensão da PUC-SP de Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento. Pós graduada em psicanálise pela SBPI e Sociopsicologia pela Fundação Escola de Sociologia e Política de SP. Especialização em Saúde do Idoso-UNIFESP. Atua em clínica com abordagem psicodramática e desenvolve oficinas terapêuticas com grupos de idosos. É consultora em Desenvolvimento Humano e especialista em psicologia organizacional titulada pelo CRP/SP. E-mail: ssimmel@gmail.com

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Silmara Simmelink

Psicodramatista, Didata e Supervisora pela Federação Brasileira de Psicodrama. Psicóloga graduada pela Universidade São Judas Tadeu. Especialista em Gerontologia pelo Albert Einstein e fez curso de extensão da PUC-SP de Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento. Pós graduada em psicanálise pela SBPI e Sociopsicologia pela Fundação Escola de Sociologia e Política de SP. Especialização em Saúde do Idoso-UNIFESP. Atua em clínica com abordagem psicodramática e desenvolve oficinas terapêuticas com grupos de idosos. É consultora em Desenvolvimento Humano e especialista em psicologia organizacional titulada pelo CRP/SP. E-mail: ssimmel@gmail.com

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