Envelhecimento saudável e ativo e os desafios contemporâneos

Envelhecimento saudável e ativo e os desafios contemporâneos

O envelhecimento ativo na realidade brasileira apresenta nuances profundas quando condicionado a variáveis de gênero, faixas etárias e condições de capacidade funcional.


Por Giovanna Vito dos Santos, Thayna Aparecida Ribeiro (*)

O envelhecimento populacional representa um dos marcos demográficos mais complexos da contemporaneidade, exigindo debates profundos sobre as condições que asseguram uma velhice saudável, digna e participativa. Longe de ser um processo homogêneo, a velhice é um constructo multidimensional que assume contornos singulares na interseção dialética entre o biológico, o psíquico e o social. Nesse panorama, a investigação de Ribeiro et al. (2009) no âmbito do Estudo PENSA revela que o envelhecimento ativo na realidade brasileira apresenta nuances profundas quando condicionado a variáveis de gênero, faixas etárias e condições de capacidade funcional.

Originalmente preconizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o envelhecimento ativo é definido como o processo de otimização das oportunidades de saúde, participação e segurança para elevar a qualidade de vida ao longo do envelhecer. Todavia, as evidências empíricas indicam que a consolidação desse paradigma ocorre de maneira profundamente heterogênea. Os dados coletados apontam que indivíduos do sexo masculino apresentam um engajamento significativamente maior em práticas de exercícios físicos regulares no tempo de lazer. Por outro lado, o público feminino demonstra uma inserção superior no desenvolvimento de atividades ocupacionais, de lazer instrumental e na consolidação de redes de apoio sociofamiliar, incluindo tarefas domésticas e ações voluntárias. Essa disparidade sugere que a heterogeneidade da velhice no Brasil exige o planejamento de abordagens assistenciais personalizadas e intersetoriais, capazes de reconhecer essas assimetrias estruturais (Ribeiro et al., 2009).

Além dos fatores sociodemográficos, o envelhecimento ativo também é atravessado por construções culturais que influenciam as formas de participação social. As expectativas sociais relacionadas aos papéis de gênero, por exemplo, contribuem para que homens e mulheres desenvolvam padrões diferenciados de atividade ao longo da vida, refletindo posteriormente na velhice (Ribeiro et al., 2009). Revela-se, portanto, que o processo de envelhecimento é influenciado por fatores biológicos, sociais, econômicos e culturais que condicionam as experiências individuais, reforçando a necessidade de compreender a velhice como uma realidade plural, marcada por trajetórias distintas e demandas específicas.

Paralelamente, embora a promoção da saúde e da participação social represente um avanço importante nas políticas voltadas à população idosa, observa-se a crescente transformação desse paradigma em um modelo de responsabilização individual (António, 2020). Nesse cenário, a manutenção da saúde passa a ser apresentada como uma obrigação pessoal, reforçada pela lógica da medicina antienvelhecimento e pela expansão de um mercado voltado à promessa de prolongamento da juventude. A busca por desempenho físico, aparência jovem e constante produtividade alimenta uma “indústria da perfeição”, na qual o envelhecimento tende a ser percebido como um problema a ser combatido (António, 2020). Consequentemente, o envelhecer pode deixar de ser entendido como uma etapa natural do ciclo vital para tornar-se objeto de vigilância corporal e moral, gerando pressões psicológicas e sociais sobre os indivíduos.

Reconhecer a pessoa idosa como um sujeito de saberes e agente de mudança

Como destacam Silveira, Vieira e Garces (2024), a dimensão sociocultural evidencia que o envelhecer não se resume a perdas biológicas, mas traduz-se na ressignificação ativa da vida, de modo que o engajamento em práticas comunitárias, artísticas e educativas permite ao idoso reconstruir identidades e desconstruir os estigmas do ageismo estrutural. Essas vivências tornam-se redes de pertencimento que fortalecem a autonomia e a saúde mental do indivíduo, enquanto transformam a percepção coletiva ao reconhecer a pessoa idosa como um sujeito de saberes e agente de mudança. Essa subjetividade, nutrida pelas trocas intergeracionais, reafirma a existência de potencialidades e singularidades no envelhecimento, razão pela qual reforçam a necessidade de políticas públicas que garantam espaços acessíveis de participação contínua.

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Conclui-se que o envelhecimento ativo representa uma importante estratégia para a promoção da qualidade de vida na velhice, desde que seja compreendido de maneira ampla e contextualizada. Os achados de Ribeiro et al. (2009) demonstram que fatores como gênero, idade e condições de saúde influenciam significativamente as formas de participação dos idosos, evidenciando a necessidade de políticas públicas sensíveis às diferentes realidades. Ao mesmo tempo, torna-se fundamental evitar interpretações que atribuam exclusivamente ao indivíduo a responsabilidade por envelhecer de forma bem-sucedida, uma vez que os determinantes sociais exercem papel decisivo nesse processo (António, 2020). O desafio contemporâneo reside na promoção de práticas saudáveis sem desconsiderar os limites biológicos do envelhecimento e os determinantes sociais que condicionam essa experiência.

Referências
ANTÓNIO, Manuel. Envelhecimento ativo e a indústria da perfeição. Saúde e Sociedade, São Paulo, v. 29, n. 1, e190967, 2020. DOI: 10.1590/S0104-12902020190967.
RIBEIRO, Pricila Cristina Correa; NERI, Anita Liberalesso; CUPERTINO, Ana Paula Fabrino Bretas; YASSUDA, Mônica Sanches. Variabilidade no envelhecimento ativo segundo gênero, idade e saúde. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 14, n. 3, p. 501-509, jul./set. 2009.
SILVEIRA, A. S.; VIEIRA, C. K.; GARCES, S. B. B. O envelhecimento e a subjetividade: práticas socioculturais na velhice. RELACult – Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura e Sociedade, v. 09, n° 1, jan, 2023. DOI: https://doi.org/10.23899/relacult.v10i1.2403. Disponível em: https://periodicos.claec.org/index.php/relacult/article/view/2403. Acesso em: 3 ago. 2026.

(*)  Giovanna Vito dos Santos, Thayna Aparecida Ribeiro, membros da Liga Acadêmica do EnvelheSer (LAES) Unaerp. E-mail: ligaacademicadoenvelheser@gmail.com.

Foto de Thang Nguyen/Pexels


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