“Velhices Invisíveis” é tema de simpósio a ser realizado pela USP

“Velhices Invisíveis” é tema de simpósio a ser realizado pela USP

O evento, gratuito, trata do envelhecimento de grupos socialmente vulneráveis:  pessoas negras, indígenas, LGBTQIA+, com deficiência e periféricas. Inscreva-se!


O Programa USP 60+ realiza no próximo dia 27 de agosto o simpósio Velhices Invisíveis. O evento reúne especialistas para discutir o envelhecimento de pessoas negras, indígenas, LGBTQIA+, com deficiência e periféricas. A entrada é gratuita e as inscrições podem ser feitas em formulário on-line, clicando aqui.

O tema é urgente!

Há dois anos exatamente, publicamos o e-book gratuito Velhices Plurais – verbetes, organizado pelas professoras Beltrina Côrte e Ruth Gelehrter da Costa Lopes com estudantes de Psicologia da PUC-SP e divulgado pelo Portal do Envelhecimento. Na ocasião já se evidenciava uma lacuna crítica: o envelhecimento não é uma experiência única, mas um fenômeno heterogêneo profundamente atravessado pelas desigualdades sociais, culturais e estruturais do país.

Historicamente, as produções científicas e o imaginário social sobre a velhice concentraram-se majoritariamente no perfil da mulher branca, de classe média e residente em áreas urbanas. Embora represente uma fração da sociedade, esse recorte invisibiliza a vivência de milhões de brasileiros com trajetórias marcadas por marcadores sociais distintos.

Ao catalogar 15 verbetes temáticos, o ebook, na época, já jogava luz nas velhices frequentemente marginalizadas por:

Marcadores étnico-raciais e territoriais: velhices pretas, periféricas, indígenas, quilombolas, ribeirinhas, ciganas e rurais;

Identidade de gênero e sexualidade: velhices femininas, masculinas e LGBTQIA+;

Vulnerabilidades sociais e institucionais: velhices em situação de rua, refugiadas/imigrantes e institucionalizadas;

Condições de saúde e neurodiversidade: velhices com deficiência e com síndromes genéticas.

Essa pluralização desloca a velhice de um conceito abstrato e padronizado para uma realidade situada, onde corpo, território, raça, classe e gênero determinam acessos distintos à saúde, renda, dignidade e proteção social.

O debate em torno do envelhecimento plural é fundamental para transformar a produção acadêmica e a prática profissional. É imperativo que profissionais, especialmente da área da saúde, compreendam as subjetividades que compõem o universo de mais de 32 milhões de pessoas idosas no Brasil. Sem o reconhecimento da pluralidade, as intervenções correm o risco de reproduzir preconceitos e desconsiderar os determinantes sociais da saúde.

Falar sobre envelhecimento plural não é apenas um exercício teórico, mas uma demanda urgente de justiça social e direitos humanos: Políticas públicas universais muitas vezes falham quando não consideram as especificidades de quem envelhece na rua, em comunidades ribeirinhas ou sob o estigma de discriminações de gênero e orientação sexual. E o preconceito etário ganha contornos mais severos quando combinado ao racismo, à pobreza, à homofobia ou ao capacitismo.

Olhar para a multiplicidade do envelhecer é, em última análise, olhar para a própria diversidade e complexidade da condição humana no Brasil. Discutir as velhices invisíveis é um passo indispensável para desconstruir estigmas, qualificar a formação de futuros profissionais e garantir que a longevidade seja acompanhada de reconhecimento, respeito e garantia de direitos para todas as trajetórias de vida.

A 6ª Conferência Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa, realizada em dezembro de 2025, em Brasília, consolidou o conceito de “múltiplas velhices”, definindo como: “as mulheres, as pessoas com deficiência, as pessoas de diversas orientações sexuais e identidades de gênero, as pessoas migrantes, as pessoas em situação de pobreza ou marginalização social, os afrodescendentes e as pessoas pertencentes a povos indígenas, as pessoas sem teto, as pessoas privadas de liberdade, as pessoas pertencentes a povos tradicionais, as pessoas pertencentes a grupos étnicos, raciais, nacionais, linguísticos, religiosos e rurais, entre outros”, de acordo com o Artigo 5º da Convenção Interamericana sobre a Proteção dos Direitos Humanos das Pessoas Idosas, que estabelece o direito à igualdade e a proibição de qualquer discriminação baseada na idade, reconhecendo a diversidade de contextos em que o envelhecimento ocorre.

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O Simpósio Velhices Invisíveis, do Programa USP 60+, reforça a importância de se olhar a multiplicidade de nossos envelheceres. Egidio Dórea, coordenador do programa USP 60+, explica que “o tema central foi escolhido pela necessidade de discutir a diversidade das experiências de envelhecimento no Brasil, marcadas por fatores socioeconômicos, ambientais, de acesso à saúde e à segurança, além de questões relacionadas à raça, gênero, orientação sexual e deficiência”. 

De acordo com Dórea, “nesses grupos, junta-se com o idadismo, preconceito pela idade, outras discriminações, como racismo, capacitismo e LGBTQIA+ fobia. Isso acaba diminuindo as oportunidades que essas pessoas têm de ascenderem socioeconomicamente. Diminui o acesso à saúde e gera impactos no bem-estar físico e mental”.

O coordenador destaca que um dos principais desafios é a implementação de políticas públicas específicas que garantam maiores oportunidades para que esses grupos consigam atingir um envelhecimento saudável e digno.

Conheça os palestrantes

Prof. Dr. Henrique Salmazo – Professor doutor do curso de bacharelado e pós-graduação em Gerontologia pela Universidade de São Paulo, Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH/USP). Ele é presidente da Associação Brasileira de Gerontologia, gestão 2025-2027.

Prof. Dr. Danilo Oliveira – Mestre, Doutor pelo Programa de Pós-Graduação Psicologia Experimental, e livre-docente na área de História e Filosofia da Psicologia no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Coordena o serviço Rede de Atenção à Pessoa Indígena, que abriga a Casa de Culturas Indígenas da USP. É proponente da noção de Multiplicação Dialógica, sobre a qual publicou o livro Dialogical Multiplication: Principles for an Indigenous Psychology, em 2019, pela editora Springer. O livro foi traduzido e publicado na língua alemã em 2023.

Prof. Dr. Milton Crenitte – Doutor em Ciências pela USP. Coordenador do ambulatório de promoção à saúde de pessoas trans 40+ (USP). Consultor em longevidade.

Sra. Ariani Queiroz Sá) – Especialista em Gestão e Políticas Públicas e assistente social de formação, atua na linha de frente da defesa dos direitos das pessoas com deficiência. Atualmente, preside o Conselho Estadual de São Paulo (CEAPcD-SP). Ocupa a vice-presidência do Fórum Brasileiro de Conselhos Estaduais (FORBRACE). Sua trajetória é pautada pelo fortalecimento dos mecanismos de participação popular, pelo controle social e pela eficácia das políticas públicas de inclusão.

Prof. Dr. Alexandre da Silva – Atual Secretário Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa no Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, função que exerce desde 2023. Preside o Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa (CNDPI), para o biênio 2025-2027. Docente na Faculdade de Medicina de Jundiaí desde 2017. Lidera programas estratégicos como Envelhecer nos Territórios e Viva Mais Cidadania, e projetos como Vida Digna em Casa, Educação para Toda a Vida e Viva Mais Cidadania Digital. Fortalece o CNDPI e articula a discussão das velhices e dos direitos da pessoa idosa no Brasil e em âmbito internacional, por meio de ações em fóruns como o G20 e a COP30, e parcerias estratégicas com instituições.

Programação

8:00h – 8:30h – Recepção
8:30h – 8:50h – Abertura
8:50h – 9:20h – Velhice e Periferia (Prof. Dr. Henrique Salmazo)
9:20h – 9:50h – Velhice e Povos Indígenas (Prof. Dr. Danilo Oliveira)
9:50h – 10:20h – Velhice e População LGBTQIA+ (Prof. Dr. Milton Crenitte)
10:20h – 10:50h – Intervalo
10:50h – 11:20h – Velhice e Pessoas com Deficiência (Sra. Ariani Queiroz Sá)
11:20h – 11:50h – Velhice e Raça (Prof. Dr. Alexandre da Silva)
11:50h – 12:00h – Encerramento

Imagem: Print de tela do anúncio do Simpósio Velhices Invisíveis


banner anunciando o III CIEF
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