Cuidado territorial e em rede: Camila Rocha reflete sobre sua atuação no PAI

Cuidado territorial e em rede: Camila Rocha reflete sobre sua atuação no PAI

“O PAI me ensinou que o cuidado domiciliar é um cuidado compartilhado, territorial e singular que nos desafia a sair do lugar técnico e nos convoca a atuar de forma integrada e humana”, diz Camila.


Como estudante de Gerontologia, sinto-me honrada em entrevistar Camila Rocha e poder conhecer de perto sua trajetória no cuidado às pessoas idosas em São Paulo. Sua caminhada no Programa de Acompanhante de Idosos (PAI) e sua atual atuação na supervisão de uma Organização Social de Saúde (OSS) oferecem um olhar amplo sobre o envelhecimento territorial e a construção do cuidado em rede.

Camila é assistente social, professora, gestora e defensora fervorosa do Sistema Único de Saúde (SUS). É filha do meio de três irmãs, de pais cearenses que migraram para São Paulo em busca de melhores oportunidades. É mãe de Freud e Frida (pets), seus eternos companheiros. É apaixonada pela vida, viagens e descobertas; adora esportes e música.

Camila estudou toda a educação básica em escola pública na zona leste de São Paulo. Sempre foi uma aluna com facilidade na comunicação e entrou na faculdade aos 17 anos no curso de Serviço Social. Nela, descobriu sua vocação para a pesquisa, especialmente a partir do contato com uma professora que a introduziu à iniciação científica. Após a graduação, fez residência na área da saúde, onde encontrou seu campo de atuação profissional. Trabalhou na assistência social e, posteriormente, ingressou na saúde pública, realizando três pós-graduações.

Na infância, ela via seus amigos na companhia de seus avós e percebia o afeto e o carinho presentes nessa relação. Não teve a oportunidade de conviver com seus avós pois, quando nasceu, eles já não estavam mais aqui; por isso, seu maior desejo era vivenciar esse cuidado. Hoje, compreende que sua conexão com o envelhecimento nasce desse lugar. Ser profissional na área é, para ela, uma forma de oferecer cuidado à população idosa e, de certo modo, se aproximar simbolicamente da experiência que não pôde viver. Sua trajetória profissional foi construída, em grande parte, na saúde pública: 22 anos de formação, sendo 17 dedicados ao SUS de São Paulo e, desses, 12 anos voltados exclusivamente ao cuidado da população 60+. Trata-se de uma caminhada marcada pela gestão e pelo aprendizado contínuo no campo da Gerontologia, sempre atravessada pelo compromisso ético com a vida e com a dignidade das pessoas idosas.

Foto de Camila Rocha, mulher branca adulta de cabelos longos e dourados.

Camila, como você conheceu a Gerontologia?

A saúde pública me proporcionou conhecer a Gerontologia através do Programa de Acompanhante de Idosos (PAI). Certamente, foi um divisor de águas na minha vida e mudou minha carreira profissional, pois ali encontrei o caminho da pesquisa para o mestrado, onde questões me provocavam e angustiavam. Acredito que a minha trajetória no mestrado iniciou em 2016, em Brasília, no Ministério da Saúde, quando eu estava apresentando o trabalho ‘Arte no Domicílio’ no IV Congresso Nacional de Mapeamento de Experiências Exitosas de Gestão Pública no Campo do Envelhecimento e Saúde da Pessoa Idosa, o qual ganhou o prêmio das 10 melhores experiências exitosas do Brasil.

Nesse encontro, fui abordada por uma gestora do Instituto Paulista de Geriatria e Gerontologia (IPGG) de São Paulo, que perguntou se eu tinha mestrado; na época, eu tinha somente o sonho. Ela me indicou procurar o Mestrado de Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH/USP), dizendo que eu poderia contribuir bastante com a pesquisa. No ano seguinte, 2017, comecei como aluna especial. Em 2022, após vários acontecimentos na minha vida profissional e a chegada do coronavírus (COVID-19), ingressei como aluna regular com 90% das disciplinas cursadas. Hoje, posso dizer com segurança e lucidez que estou no caminho que escolhi, onde me sinto tranquila, e sei que tenho muito a aprender, evoluir e descobrir; de fato, é o lugar onde os meus olhos brilham. O campo do envelhecimento é onde eu me realizo e a caminhada continua agora, como doutoranda em Gerontologia da EACH/USP.

Como as pessoas idosas chegam até o Programa Acompanhante de Idosos (PAI)? Quais são as principais portas de entrada e como funciona o caminho desde o encaminhamento até o início do acompanhamento no domicílio?

Para quem ainda não conhece o serviço, é importante destacar que o PAI está inserido na rede municipal e funciona de forma articulada com os demais serviços do território. A principal porta de entrada é a Unidade Básica de Saúde (UBS). Geralmente, a equipe da atenção básica — médico, enfermeiro, agente comunitário de saúde — identifica a pessoa idosa em situação de fragilidade, vulnerabilidade social, isolamento ou com dificuldade de adesão ao tratamento, entre outras questões.

É realizada a avaliação da AMPI AB (Avaliação Multidimensional da Pessoa Idosa na Atenção Básica), um instrumento de rastreamento utilizado no SUS, especialmente em São Paulo, para classificar pessoas idosas quanto ao grau de fragilidade. Ela avalia aspectos funcionais, sociais, físicos e cognitivos para direcionar cuidados personalizados, identificando idosos saudáveis, pré-frágeis ou frágeis. As equipes da atenção básica aplicam a AMPI, a qual direciona o cuidado indicado, entre eles o Programa PAI.

Como é definido quem será incluído no programa? Quais critérios clínicos e sociais orientam essas decisões no cotidiano da gestão e das equipes?

Considerando o crescimento da demanda e os recursos disponíveis, a inclusão no PAI exige critérios técnicos claros, pactuados com a rede e constantemente discutidos entre gestão e equipe. A prioridade é atender pessoas idosas em situação de maior fragilidade clínica associada à vulnerabilidade social, especialmente quando há risco de agravamento, institucionalização ou internações recorrentes.

Ao longo dos últimos anos, você percebe mudanças no perfil das pessoas idosas encaminhadas ao PAI, seja em relação à vulnerabilidade social, ao isolamento, às condições de saúde ou às configurações familiares? O que esses novos perfis revelam sobre o envelhecimento no território?

Há um aumento significativo de pessoas idosas com maior complexidade clínica, especialmente aquelas que convivem com múltiplas doenças crônicas, síndromes demenciais e importante comprometimento funcional. Além disso, observamos um crescimento de casos envolvendo saúde mental, como depressão associada ao isolamento e ao luto. No campo social, o que mais chama a atenção é o agravamento do isolamento. Cada vez mais acompanhamos idosos que moram sozinhos, sem rede de apoio estruturada ou inseridos em arranjos familiares fragilizados.

Também se tornaram mais frequentes situações de sobrecarga extrema do cuidador, especialmente mulheres, filhas ou esposas, que acumulam trabalho, cuidado e responsabilidades domésticas. Outro aspecto relevante é a mudança nas configurações familiares. Encontramos famílias menores, vínculos mais distantes, conflitos intergeracionais e, em alguns casos, relações marcadas por negligência ou abandono. Há também idosos que seguem como principais provedores financeiros do domicílio, sustentando filhos e netos, o que revela vulnerabilidades que extrapolam a dimensão da saúde.

Esses novos perfis revelam que o envelhecimento no território está cada vez mais atravessado por desigualdades sociais, precarização das relações de cuidado e insuficiência de redes de suporte formais e informais. O envelhecimento deixou de ser apenas uma questão biomédica e se apresenta como um fenômeno social complexo, que exige respostas intersetoriais. Ao mesmo tempo, percebemos uma população idosa que vive mais, mas nem sempre vive melhor. Isso reforça a importância de políticas públicas que não apenas ampliem o acesso aos serviços, mas que também fortaleçam vínculos, promovam autonomia e garantam proteção social.

Como o PAI foi se consolidando como uma resposta dentro da rede municipal de saúde?

Diante do envelhecimento acelerado da população e do aumento das situações de fragilidade, o PAI foi se consolidando como uma estratégia fundamental dentro da rede municipal de saúde por atuar justamente onde o sistema tradicional apresentava maiores limites: no cuidado longitudinal, domiciliar e integrado. Na prática, o PAI passou a preencher lacunas importantes.

Primeiramente, a lacuna do cuidado no território. Muitos idosos frágeis, com mobilidade reduzida, múltiplas doenças crônicas ou isolamento social, não conseguiam acessar regularmente os serviços de saúde. O PAI leva o cuidado até a casa, reduzindo barreiras físicas e sociais e garantindo acompanhamento contínuo. Outra lacuna relevante é a fragmentação da rede. O sistema de saúde, muitas vezes, opera de forma compartimentalizada. O PAI atua como articulador, conectando Unidade Básica de Saúde, assistência social, serviços especializados e família. Ele favorece a coordenação do cuidado, evitando internações desnecessárias e descontinuidade no acompanhamento.

Há também a lacuna do suporte às atividades de vida diária. Muitos idosos não necessitam apenas de atendimento clínico, mas de apoio para organizar a rotina, aderir ao tratamento, manter a higiene, a alimentação e a convivência social. O PAI reconhece que o cuidado vai além do procedimento técnico e incorpora a dimensão funcional e relacional do envelhecimento. Outra questão central é o enfrentamento do isolamento e da vulnerabilidade social. Em muitos casos, o acompanhante é o principal vínculo regular daquele idoso com o mundo externo. O programa, portanto, não atua apenas na saúde física, mas também na prevenção do abandono, da negligência e do agravamento de quadros decorrentes da solidão.

Por fim, o PAI responde à lacuna de uma política específica para a pessoa idosa frágil no SUS. Ele materializa o princípio da integralidade ao reconhecer que envelhecer exige estratégias próprias, interdisciplinares e territorializadas. Assim, o programa se consolida não apenas como um serviço complementar, mas como um dispositivo estratégico dentro da rede, capaz de integrar cuidado, gestão e proteção social diante dos desafios do envelhecimento populacional.

O acompanhamento domiciliar permite acessar dimensões da vida que muitas vezes não aparecem nos serviços tradicionais. O que mais surpreende ou desafia as equipes quando entram nas casas e passam a acompanhar o cotidiano dessas pessoas idosas?

O que mais surpreende e desafia as equipes ao entrar nas casas é perceber o quanto a vida das pessoas idosas vai além do que é visível em consultórios ou hospitais. O domicílio revela histórias, hábitos, vínculos e dificuldades que muitas vezes passam despercebidos nos serviços tradicionais: rotinas construídas ao longo de décadas, objetos carregados de memória, adaptações improvisadas para lidar com limitações físicas, silêncios que escondem perdas, lutos e fragilidades emocionais.

Um desafio constante é lidar com a complexidade da vulnerabilidade. Nem sempre o problema é clínico; muitas vezes, ele envolve isolamento social, conflitos familiares, precariedade de moradia ou carência de apoio diário. Isso exige das equipes sensibilidade para identificar sinais sutis, estabelecer vínculo de confiança e, ao mesmo tempo, oferecer cuidado seguro e adequado.

Outro aspecto surpreendente é o potencial de autonomia que muitas vezes se mantém, mesmo em situações de fragilidade. Equipes se deparam com idosos que, apesar de limitações, têm rotinas, preferências e estratégias próprias para manter a independência. O cuidado domiciliar desafia o olhar técnico a respeitar essas escolhas e integrar a pessoa idosa como protagonista do próprio cuidado, em vez de impor soluções prontas. O acompanhamento domiciliar mostra que o cuidado é um processo relacional e interdisciplinar, construído não apenas pelo profissional, mas junto com a família e a própria pessoa idosa. Cada visita é uma oportunidade de compreender melhor o território, a rede de apoio e as necessidades reais, reforçando que saúde, afeto e autonomia caminham juntos.

Como vocês constroem o plano de cuidado diante de situações complexas, como isolamento social extremo, vínculos familiares fragilizados ou contextos de violência e negligência?

A construção do plano de cuidado no PAI é interdisciplinar, individualizada e flexível. Não existe uma receita pronta; cada plano nasce da análise conjunta do contexto clínico e social da pessoa idosa. O primeiro passo é avaliar integralmente a situação, considerando saúde física, cognitiva e mental, funcionalidade, rede de apoio, condições de moradia e possíveis riscos. Essa avaliação é feita pela equipe, em diálogo direto com a pessoa idosa, familiares (quando possível) e outros serviços da rede.

Em seguida, são definidas metas e estratégias que respeitem a autonomia e os desejos da pessoa idosa, mesmo quando há limitações ou conflitos familiares. No caso de isolamento, por exemplo, prioriza-se o vínculo e a presença regular do acompanhante, estimulando redes sociais e atividades significativas. Quando há violência ou negligência, o plano inclui articulação com serviços de proteção social, acompanhamento jurídico e apoio psicossocial. O plano de cuidado também é dinâmico: é constantemente revisado conforme mudanças na saúde, na situação social ou nos vínculos. Essa flexibilidade garante que o cuidado acompanhe a realidade do idoso, e não apenas protocolos.

O cuidado em situações complexas exige sensibilidade, escuta ativa, coordenação com a rede e criatividade, equilibrando segurança, dignidade e promoção da autonomia. É um cuidado construído de forma colaborativa, onde cada profissional, a pessoa idosa e, quando possível, sua família têm papel central.

A fronteira de apoiar costuma ser delicada. Como as equipes negociam esses limites e trabalham a autonomia da pessoa idosa mesmo em contextos de alta vulnerabilidade?

A fronteira de apoiar é, de fato, delicada, porque envolve equilibrar proteção, segurança e autonomia. As equipes lidam com isso de forma reflexiva e colaborativa, reconhecendo que cada pessoa idosa tem direitos, preferências e capacidades, mesmo em contextos de alta vulnerabilidade. O primeiro passo é estabelecer vínculo e confiança. Somente a partir de relações de escuta, respeito e reconhecimento da história de vida do idoso é possível compreender suas necessidades reais e suas escolhas. Isso permite que o cuidado não seja imposto, mas construído juntamente com a pessoa, respeitando seus desejos, hábitos e limites.

As equipes também usam estratégias de negociação e mediação, especialmente quando há conflitos familiares ou riscos evidentes. É um processo de diálogo contínuo: explicar riscos, propor alternativas, ajustar intervenções e, sempre que possível, empoderar a pessoa idosa a tomar decisões sobre seu próprio cuidado. Além disso, a supervisão interdisciplinar ajuda a equilibrar o olhar técnico com a sensibilidade relacional. Profissionais discutem casos, compartilham estratégias e refletem sobre os limites do apoio, garantindo que a intervenção seja segura, ética e respeitosa.

Mulher adulta de cabelos longos presos e óculos escuros, vestida de avental branco, brinca com cachorro marrom.

Em meio a indicadores institucionais e metas de serviço, como vocês preservam o tempo necessário para o cuidado vincular e para escutas mais profundas, as quais são centrais no acompanhamento domiciliar?

A estratégia começa pelo planejamento da visita: a equipe organiza atividades e rotinas de forma a garantir que cada pessoa idosa receba atenção integral, sem que o cuidado se limite a tarefas pontuais ou procedimentos técnicos. Durante a visita, priorizamos a escuta ativa e o diálogo, permitindo que a pessoa idosa expresse necessidades, desejos e preocupações. Esse momento é considerado parte do cuidado porque fortalece vínculos, promove confiança e ajuda a identificar demandas que muitas vezes não aparecem em relatórios ou indicadores.

Outra estratégia é o trabalho interdisciplinar. Cada profissional contribui com sua expertise, mas sempre com atenção à continuidade do vínculo. Reuniões de supervisão e discussão de casos ajudam a equilibrar a realidade do cuidado individual. O princípio norteador é que o cuidado domiciliar preza pela qualidade da relação construída e pelo impacto real na vida do idoso. Em suma, preservar o tempo para vínculo e escuta é uma decisão consciente da equipe: é reconhecer que o cuidado genuíno depende de presença, atenção e sensibilidade.

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Que transformações você observa na vida das pessoas idosas que não aparecem necessariamente nos relatórios, mas que revelam a potência do cuidado domiciliar?

Ao longo da minha trajetória na supervisão, percebo transformações que não cabem em relatórios, mas que evidenciam a potência do cuidado domiciliar. São mudanças sutis, muitas vezes invisíveis aos indicadores, mas fundamentais na vida das pessoas idosas. Entre elas, destaco:

Resgate da autonomia e da autoestima: Idosos que passam a retomar atividades cotidianas, pequenos hábitos ou decisões antes abandonados, sentindo-se mais capazes e valorizados.
Fortalecimento de vínculos e relações afetivas: Seja com familiares, vizinhos ou com o próprio acompanhante, o cuidado domiciliar reconstrói conexões que estavam fragilizadas ou perdidas.
Redução do isolamento e da solidão: A presença regular do acompanhante cria espaço para diálogo, escuta e companhia, impactando positivamente a saúde mental e emocional.
Maior engajamento no autocuidado: Muitas vezes, o acompanhamento incentiva o idoso a aderir a tratamentos, organizar rotinas de alimentação e higiene, e a participar de atividades que promovem o bem-estar.
Sentimento de pertencimento e segurança: Estar acompanhado em seu próprio território gera sensação de proteção, confiança e dignidade, elementos essenciais para envelhecer com qualidade.

Essas transformações mostram que o cuidado domiciliar vai além de procedimentos técnicos: ele é relacional, integrador e transformador, capaz de tocar dimensões emocionais, sociais e existenciais que nenhum indicador consegue mensurar totalmente. É a prova de que cuidar em casa significa valorizar histórias, reconhecer autonomia e fortalecer a vida.

Você já presenciou situações em que o acompanhamento do PAI evitou uma institucionalização precoce, uma internação recorrente ou uma ruptura familiar? Que aprendizados essas experiências trouxeram para a gestão e para as equipes?

Sim, presenciei diversas situações em que o acompanhamento do PAI foi determinante para evitar institucionalização precoce, internações recorrentes ou rupturas familiares. Por exemplo, idosos com múltiplas doenças crônicas e fragilidade funcional, que poderiam ter sido internados repetidamente, mantiveram-se em casa graças ao acompanhamento contínuo, à organização da rotina e ao incentivo ao autocuidado. Em outros casos, famílias em situação de sobrecarga extrema conseguiram apoio, orientação e estratégias para cuidar de seus idosos sem que precisassem recorrer à institucionalização. Essas experiências trouxeram aprendizados importantes para a gestão e para as equipes, como:

Valor do vínculo e da presença contínua: Percebemos que a relação construída entre o acompanhante e o idoso é, muitas vezes, o fator central para prevenir agravamentos e manter a autonomia.
Importância da escuta e avaliação integral: Cada caso exige olhar clínico, social e emocional integrado, considerando história de vida, rede de apoio e contexto familiar.
Necessidade de flexibilidade e criatividade: Protocolos e metas são essenciais, mas o cuidado eficaz exige adaptação às particularidades de cada domicílio.
Fortalecimento da interdisciplinaridade: Decisões compartilhadas entre profissionais de saúde, assistência social e coordenação são fundamentais para garantir segurança, dignidade e continuidade do cuidado.
Reconhecimento do impacto preventivo do PAI: Muitas intervenções não aparecem nos indicadores imediatos, mas refletem-se na redução de internações, na preservação de vínculos e na melhoria da qualidade de vida.

O que mais te marcou quando você começou a trabalhar diretamente com o PAI? Houve algo que te surpreendeu ou que mudou sua percepção sobre o cuidado domiciliar?

Foi a potência do cuidado no território e dentro da casa das pessoas. O domicílio revela dimensões que o serviço institucional não alcança: a história impressa nas paredes, os objetos carregados de memória, as dinâmicas familiares, os silêncios, as ausências e também as resistências. Entrar na casa de alguém é, antes de tudo, um gesto de confiança, e isso transforma completamente o acompanhamento, indo muito além de procedimentos técnicos. Envolve vínculo, presença e sensibilidade para compreender o contexto social, afetivo e econômico em que aquela pessoa vive.

Muitas vezes, a maior necessidade não era apenas clínica, mas relacional: alguém que escutasse, que organizasse a rotina, que mediasse conflitos familiares ou que simplesmente estivesse ali. Também mudou minha percepção sobre autonomia. No domicílio, entendemos que cada pessoa idosa construiu sua própria forma de viver e resistir ao longo dos anos. O cuidado, então, precisa se adaptar a essa realidade, não o contrário. Aprendi que cuidar em casa exige humildade, capacidade de negociação e respeito profundo pela história de vida do outro. O PAI me ensinou que o cuidado domiciliar é um cuidado compartilhado, territorial e singular. Ele nos desafia a sair do lugar técnico e nos convoca a atuar de forma integrada, humana e ética, reconhecendo que envelhecer em casa, com suporte e dignidade, é também um direito.

Como equilibrar o olhar técnico da gestão com as histórias e realidades concretas das pessoas idosas acompanhadas? Qual é o maior desafio?

Supervisionar equipes e pensar o cuidado é uma tarefa delicada e profundamente humana. Trabalhamos com pessoas que carregam histórias singulares, muitas vezes marcadas por sofrimentos, vulnerabilidades, perdas e desigualdades acumuladas ao longo da vida. Nesse contexto, o cuidado não pode ser reduzido a protocolos ou a uma receita pronta. Ele é um processo vivo, construído por muitas mãos — equipe, família, rede de apoio e, sobretudo, em conjunto com a própria pessoa idosa, respeitando sua autonomia, seus desejos e seu tempo.

Cuidar é mais do que assistir: é escutar com atenção genuína, acolher sem julgamentos, reconhecer limites e potencialidades, permitir escolhas, fortalecer vínculos e estar presente de forma sensível e responsável. É compreender que o envelhecimento não é sinônimo de incapacidade, mas uma etapa da vida repleta de significados. O cuidado que defendo é aquele que promove a autonomia, valoriza trajetórias e reconhece a pessoa idosa como protagonista da própria história.

O maior desafio e também o maior aprendizado encontrado ao longo de minha atuação junto ao PAI foi justamente integrar o olhar técnico da gestão com a complexidade das histórias de vida acompanhadas. A gestão exige organização, cumprimento de metas, monitoramento de indicadores e tomada de decisões baseadas em critérios técnicos. No entanto, quando se trabalha com pessoas idosas em seus domicílios, cada número representa uma trajetória única, atravessada por afetos, perdas, vulnerabilidades e também por potências.

Para equilibrar essas dimensões, eu buscava sustentar uma gestão humanizada. Isso significava traduzir protocolos e diretrizes em práticas sensíveis ao território, estimulando a equipe a enxergar além das demandas imediatas. Nas supervisões, valorizávamos a discussão de casos não apenas sob a ótica técnica, mas também ética e relacional: quem é essa pessoa? O que ela deseja? Como preservar sua autonomia mesmo diante das fragilidades? Ao mesmo tempo, compreendia que o cuidado de qualidade depende de uma boa organização do trabalho. Garantir fluxos claros, apoiar a equipe, oferecer espaços de escuta e formação contínua eram formas de proteger tanto os profissionais quanto as pessoas idosas atendidas. Quando a equipe se sente sustentada, o cuidado se fortalece. Equilibrar gestão e cuidado é reconhecer que eficiência e sensibilidade não são opostas. Pelo contrário, uma gestão comprometida com a dignidade humana amplia a qualidade técnica do serviço. No PAI, aprendi que gerir é também cuidar da equipe, dos processos e, indiretamente, de cada pessoa idosa acompanhada.

No meio de tantos desafios, o que te motiva a continuar trabalhando com um programa que lida diariamente com fragilidade, vulnerabilidade social e situações complexas?

Mesmo diante de fragilidades, vulnerabilidades sociais e situações complexas, eu vejo concretamente o impacto do cuidado na vida das pessoas. Pequenas mudanças — um idoso que volta a se alimentar melhor, que retoma um vínculo familiar ou que passa a se sentir mais seguro dentro de casa — têm um significado imenso. Essas transformações, muitas vezes silenciosas, sustentam a minha permanência. Também reforçam a convicção de que envelhecer com dignidade é um direito. Trabalhar no PAI, para mim, é uma forma de defender esse direito na prática, especialmente para aqueles que historicamente tiveram menos acesso a políticas públicas e proteção social.

É um compromisso ético que ultrapassa o cotidiano difícil. Outro fator fundamental é a potência do trabalho em equipe. Compartilhar angústias, construir soluções coletivas e perceber o crescimento profissional dos trabalhadores fortalece o caminho. O cuidado, quando compartilhado, deixa de ser um peso individual e se torna um projeto coletivo. Por fim, acredito que atuar em contextos de vulnerabilidade também revela forças invisíveis: a resiliência das pessoas idosas, suas histórias de superação, sua capacidade de reinventar a vida mesmo diante das perdas. Isso me ensina que, junto à fragilidade, há também potência. E é nesse encontro entre limite e possibilidade que encontro motivação para continuar.

Quais são hoje os principais desafios para manter e fortalecer o PAI?

Olhando para o futuro, os principais desafios para manter e fortalecer o PAI estão profundamente ligados ao envelhecimento acelerado da população e às desigualdades sociais presentes no território. Entre os desafios mais imediatos, destacam-se:

Complexidade das situações sociais e familiares: O isolamento, a precariedade habitacional, conflitos familiares e a sobrecarga de cuidadores exigem atenção cada vez mais personalizada e estratégias intersetoriais.
Valorização e capacitação das equipes: Manter profissionais qualificados, motivados e bem supervisionados é essencial, considerando a complexidade do trabalho domiciliar.
Integração com a rede de saúde e serviços sociais: A rede precisa de continuidade no cuidado, demandando articulação efetiva e protocolos claros de comunicação entre serviços.

Quais avanços ainda são urgentes para que o PAI continue cumprindo seu papel?

Em termos de avanços urgentes para que o PAI continue cumprindo seu papel, destaco:

Ampliação do programa: Diante da demanda crescente e da complexidade dos casos.
Fortalecimento da interdisciplinaridade e da gestão participativa: Garantir supervisão constante, troca de experiências e construção conjunta de planos de cuidado.
Políticas públicas integradas e intersetoriais: Reforçar a articulação entre saúde, assistência social, direitos humanos e serviços de proteção à pessoa idosa.
Investimento em tecnologias e ferramentas de monitoramento: Que possibilitem um acompanhamento eficiente sem perder a centralidade do vínculo e da escuta qualificada.
Promoção da autonomia e protagonismo do idoso: Mesmo diante da vulnerabilidade, é urgente fortalecer estratégias que valorizem escolhas, capacidades e redes de apoio.

Em síntese, o PAI precisa continuar crescendo e garantindo que cada pessoa idosa fragilizada tenha acesso a um acompanhamento digno, humano e territorializado. O desafio é grande, mas também é um campo fértil de aprendizado e inovação em saúde pública.

Você também está em formação em Psicopatologia. Como esse olhar mais voltado para os aspectos emocionais e subjetivos do envelhecimento tem atravessado sua prática e sua forma de pensar o cuidado dentro do PAI?

O olhar da Psicopatologia corrobora minha prática e a forma como penso o cuidado dentro do PAI. Ele amplia a compreensão do envelhecimento para além do físico ou funcional, trazendo à tona os aspectos emocionais, subjetivos e existenciais que atravessam a vida das pessoas idosas. Na prática, isso significa que cada acompanhamento domiciliar não é apenas uma verificação de saúde ou cumprimento de protocolos: é também um espaço de escuta sensível, de percepção de sentimentos, angústias, lutos e desejos. Passamos a valorizar as narrativas de vida, os modos individuais de enfrentar perdas, as estratégias de resiliência e até os pequenos sinais de bem-estar que muitas vezes não aparecem nos indicadores técnicos.

Essa perspectiva influencia diretamente a construção do plano de cuidado. Ele deixa de ser apenas um conjunto de tarefas ou metas e se torna um processo interativo, flexível e centrado na pessoa, no qual o cuidado emocional e afetivo é tão relevante quanto o cuidado físico ou clínico. Permite também às equipes reconhecer quando a presença, o vínculo e o acolhimento têm impacto mais significativo do que qualquer intervenção técnica isolada. Além disso, a Psicopatologia reforça a importância da autonomia e do protagonismo da pessoa idosa, ajudando a equilibrar proteção e liberdade. Em contextos de fragilidade, essa sensibilidade é essencial para que o cuidado não se torne paternalista, mas sim respeitoso, ético e humanizado.

Camila, quer fazer algum comentário final?

Agradeço desde já pela disponibilidade, pela generosidade em compartilhar experiências e reflexões, e pela abertura em dialogar sobre temas tão necessários para quem atua e para quem está em formação nas áreas relacionadas à Gerontologia. Tenho certeza de que esta troca contribuirá para o debate sobre o cuidado domiciliar, a gestão em saúde e seus desafios.

Fotos: arquivo pessoal.

(*) Esta entrevista foi escrita sob orientação de Beltrina Côrte – Jornalista, CEO do Portal do Envelhecimento.


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Ana Beatriz Ferraz
Ana Beatriz S. Ferraz

Ana Beatriz S. Ferraz é bacharelanda em Gerontologia pela Universidade de São Paulo. Atualmente é estagiária no Portal do Envelhecimento e Longeviver. www.linkedin.com/in/ana-beatriz-s-ferraz-a3a7a2132.

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