EnvelheSer é mais que envelhecer: a complexidade de um processo invisibilizado

EnvelheSer é mais que envelhecer: a complexidade de um processo invisibilizado

Atender uma pessoa em processo de envelhecimento exige outra lógica de cuidado, outra abordagem, outro modo de compreender o envelhecer.


EnvelheSer é revisitar a própria história e reconhecer que muitas das forças que hoje faltam foram gastas não apenas pelo tempo, mas pelas sobrecargas carregadas ao longo da vida. É compreender que a autonomia perdida não surge no envelhecimento — ela é construída, ou retirada, muito antes.

Em que momento a pessoa idosa deixa de ter opinião?

Em que momento ela aceita as condições que lhe foram impostas porque “tinha que ser assim”?

“Tinha que ajudar.”

“Precisavam de mim.”

“Era minha mãe, eu tinha que fazer alguma coisa.”

“Meu marido faleceu, precisei criar meu filho sozinha.”

“Me separei com quatro filhos, o pai abandonou a família e tive que trabalhar muito para sustentar todos.”

As decisões tomadas na vida adulta, aliadas às necessidades urgentes daquele período, vão se perpetuando sem uma revisão sincera do que se deseja manter ou transformar.

Passada a fase de criar e educar os filhos, a pessoa idosa costuma desejar ser contemplada e valorizada, esperando o reconhecimento de todo o esforço. Dizem: “A vida foi como tinha que ser.”

Mas o desgaste físico e emocional não encontra amparo, conforto, admiração nem reconhecimento. Os filhos seguem demandantes. O troféu nunca chega. Pelo contrário, as cobranças permanecem firmes: “Fique com seus netos, preciso trabalhar.”

Hoje, muitas vezes, é a aposentadoria que sustenta a família dos filhos e dos netos. A renda mal cobre o aluguel e quase não sobra para comer. Luta, luta, luta… sem vencedores, apenas sobreviventes.

Este é o retrato de algumas velhices: nada gloriosas, nada harmoniosas. Aquele papo de “quando eu me aposentar vou descansar, viajar, fazer o que eu quiser” não chega nem perto da realidade da maioria. Tudo tem um custo: o remédio, a consulta, o exame que não pode esperar, o aluguel, a luz, o celular, o mercado…

Muitos idosos não falam nada, não pedem nada. Não acionam os familiares porque se sentem constrangidos. Alguns dizem: “Eles sabem da minha situação e não fazem nada.”

A falta de exercício da autonomia e a redução da capacidade de decisão, ao longo do tempo, fazem com que o sujeito se sinta incapaz de decidir por si, de resolver problemas, de criar estratégias. Pode até perder a capacidade de planejar. Assim, a vulnerabilidade se instala mais pela insegurança do que pela incapacidade real.

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O medo do abandono — o medo de acontecer algo e estar sozinho — interfere nas decisões. Instala-se o conflito: manter a autonomia x medo da rejeição ou do abandono.

O equilíbrio entre autonomia e independência torna-se frágil conforme a capacidade funcional se altera. Quanto mais a pessoa se percebe dependente, mais cautelosa se torna, reduzindo decisões que dizem respeito à própria vida: horários, rotinas, alimentação, vestuário, preferências, deslocamentos. Tudo vai ficando em segundo plano ou invisibilizado pela lógica do “tem que ser feito”. Valorizamos o que precisa ser feito — e esquecemos de como a pessoa deseja fazer.

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Precisamos, como profissionais, de outra lógica de cuidado

Esse relato intenso e denso, que escuto no consultório, me faz olhar o processo de envelhecimento por uma lógica diferenciada: envelhecer não é simplesmente se tornar um adulto que envelheceu. A frase soa simples, mas carrega uma ruptura necessária.

Atender uma pessoa em processo de envelhecimento exige outra lógica de cuidado, outra abordagem, outro modo de compreender. É perceber as nuances das relações, ler as entrelinhas, reconhecer que aquele olhar distante procura um elo consigo mesmo que se perdeu em algum momento da vida.

Portanto, velhices são mais que a soma das idades. São heterogêneas, dinâmicas, processuais; carregam bagagens históricas sólidas, efeitos psicológicos duradouros, crenças sociais prévias, alterações bioquímicas e funcionais, diminuição da reserva biológica, interações medicamentosas, mudanças sensoriais, transformações familiares e modificações na rede de apoio.

Atuar no campo da gerontologia é identificar o tom e reconhecer as cores que o compõem. Quanto mais idade, mais essas cores se misturam, se diluem ou se sobrepõem. E às vezes fica difícil enxergar: o que é o quê? O que interfere nessa reação? O que sustenta esse comportamento?

Sugiro a manutenção de um olhar ampliado, sensível e sistêmico sobre a gerontologia, para captar e compreender as nuances e os elementos que compõem o sujeito em processo de envelhecimento — reconhecendo as partes que formam a totalidade daquela pessoa idosa. Acolher e respeitar sua singularidade é fundamental.

Ressalto também que esse olhar ampliado se constrói em um ambiente de atuação integrada, com equipes compostas por múltiplos profissionais que se abrem à troca de saberes e à corresponsabilização. É nesse terreno frutífero que germina uma gerontologia coerente com o processo de envelhecimento.

A desconstrução de saberes unilaterais, hierárquicos e fragmentados abre espaço para práticas ampliadas, integradas, colaborativas. O momento atual exige identificar a unidade na diversidade, pensar de forma dialógica, reconhecer multicausalidades e compreender o dinamismo presente nas relações e intervenções, e desta forma promover uma gerontologia contemporânea.

Foto de Joshua Ruanes/pexels.


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Suhaila Harati

Suhaila Harati das Neves é Terapeuta Ocupacional, mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP, pós graduação em Terapia Ocupacional aplicada a Neurologia pelo Einstein, atuante no SUS- Atenção Primária. Colaboradora do Portal do Envelhecimento. E-mail: su_to2002@yahoo.com.br

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Suhaila Harati das Neves é Terapeuta Ocupacional, mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP, pós graduação em Terapia Ocupacional aplicada a Neurologia pelo Einstein, atuante no SUS- Atenção Primária. Colaboradora do Portal do Envelhecimento. E-mail: su_to2002@yahoo.com.br

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