O ENEM e o despertar para o envelhecimento de todos nós

O ENEM e o despertar para o envelhecimento de todos nós

O ENEM deixa uma dica para os nossos governantes que serão eleitos no próximo ano: incluir o envelhecimento em seus programas de governo.


Elba Chagas Sobral (*)

Desde quando tomei conhecimento do tema da redação proposto pelo Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), fiquei profundamente impactada pois senti como se um clarão atravessasse a minha trajetória, e, ao mesmo tempo, muito satisfeita. Pela primeira vez, a principal avaliação educacional do país convida não só milhões de estudantes, mas também a comunidade acadêmica e a sociedade a refletir sobre um tema que, até então, permanecia à margem das discussões escolares: o envelhecimento humano.

Ver a educação lançar luz sobre essa questão é testemunhar um avanço simbólico e necessário, um passo em direção a uma Escola mais sensível, crítica, inclusiva e cuidadora das pessoas idosas do amanhã. Este tema é relevante, incontestável e fundamental para a formação dos professores e professoras, desde a Educação Infantil até o Ensino Superior.

Torna-se cada vez mais urgente que os orientadores das diretrizes que regulamentam os conteúdos a serem ministrados em cada etapa do ensino básico ao superior percebam definitivamente que a sociedade brasileira está envelhecendo a passos acelerados. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os idosos deixaram de ser a menor fatia da população brasileira em 2023 e, daqui a duas décadas, vão ser a maior delas (Judite Cypreste, g1, 22/08/2024).

Esse dado demográfico impõe à Educação um desafio ético e político: formar gerações capazes de compreender e valorizar o seu próprio envelhecimento como parte integrante da maravilhosa experiência humana. Discutir o tema do envelhecimento começa na compreensão de que ele diz respeito a todos, não apenas às pessoas idosas de hoje, mas também, às que envelhecem a cada dia. Além disso, não se trata simplesmente de acrescentar conteúdos sobre a velhice nos currículos escolares. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), em suas diretrizes para todos os níveis da Educação Básica, já abre espaços para o diálogo sobre as diferentes fases da vida, incluindo a velhice.

 Nesse sentido, a formação de professores precisa incluir a discussão sobre o processo do envelhecimento humano, não como tema periférico, mas como dimensão essencial da cidadania. Trata-se de transformar a maneira como a escola aborda as diferentes etapas da vida, reconhecendo que educar para o envelhecimento é educar para a vida. A velhice não representa um ponto final, mas sim uma fase de continuidade, memória e possibilidade de aprendizado, como nos ensinaram Paulo Freire e tantos educadores e educadoras comprometidos com uma pedagogia verdadeiramente humanizadora.

 Ao escolher o tema da redação “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”, o ENEM lança um desafio e cumpre um papel histórico: o de educar o olhar das juventudes sobre o envelhecimento que as espera, convidando o país a refletir sobre como queremos viver e envelhecer juntos. Inicia-se, assim, o combate ao etarismo, ao idadismo, cultivando relações intergeracionais que levem em conta a convivência mais inclusiva, segura e acolhedora para todas as idades; promovendo políticas públicas que contribuam para a adaptação dos espaços físicos e dos sistemas de transportes das cidades, facilitando o ir e vir das pessoas com dificuldades de locomoção.

Ao longo da minha trajetória na educação, tenho observado o quanto o envelhecimento ainda é tratado de forma silenciosa ou estigmatizada nos espaços escolares. Em geral, fala-se sobre infância, adolescência e juventude, mas pouco se aborda o ciclo da vida em sua totalidade. No entanto, educar é também preparar para o envelhecer, um processo que se inicia muito antes da velhice propriamente dita.

É na escola, espaço de convivência e formação humana, que se pode construir uma nova compreensão sobre o tempo, a finitude e a continuidade da existência. Inserir o tema do envelhecimento na educação básica significa promover o diálogo entre gerações, fortalecer laços de respeito e cultivar uma cultura de cuidado e empatia, valores fundamentais para uma sociedade que se reconhece em todas as suas idades.

Não perca nenhuma notícia!

Receba cada matéria diretamente no seu e-mail assinando a newsletter diária!

Como pesquisadora, educadora e mulher que há meio século se dedica à educação, sinto-me esperançosa: a semente foi lançada. Cabe agora às escolas, às universidades e aos formadores de professores cultivá-la com diálogo, afeto e compromisso. Que esse movimento contribua para a construção de uma sociedade mais justa, longeva e consciente de que envelhecer é um direito, uma conquista e uma etapa preciosa da vida humana.

Ah! Que bom seria ter acesso a algumas redações para compreender o que nossa juventude está pensando sobre as diversas velhices que a espera. Que histórias, medos, esperanças e visões sobre o futuro estão emergindo da escrita desses jovens? Talvez seja nesse diálogo entre o que eles escrevem hoje e o que viverão amanhã, que encontraremos pistas para construir, juntos, um país mais atento, mais cuidadoso e mais humano com todas as idades.

Fica também uma dica para os nossos governantes que serão eleitos no próximo ano: que tal incluir essa temática tão relevante em seus programas de governo? Afinal pensar no envelhecimento hoje é garantir um futuro mais digno, humano e sustentável para todos. É fazer a diferença!

(*) Elba Chagas Sobral. Mestra em Psicologia Clínica pela Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP). Graduada em Pedagogia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Especialista em Gerontologia e Coordenação Pedagógica pela UNICAP e em Psicopedagogia pela Faculdade Santa Helena (FASH). Atualmente desenvolve pesquisas na área do envelhecimento com foco na formação de docentes e discentes para uma educação sensível às questões geracionais. Membro do Grupo de Estudos Espiritualidade, Saúde e Envelhecimento (GEESE), do Grupo de Estudos do Envelhecimento Humano na Perspectiva da Totalidade Social (GEEHPTS), do Centro de Estudos Bíblicos (CEBI) e do Grupo de Estudos Bíblia e Psicologia.  Ministra assessorias, palestras e consultoria voltadas para o tema do envelhecimento saudável a partir do ponto de vista psicológico e social, numa abordagem interdisciplinar. E-mail: elba.sobral01@gmail.com.

Foto de Merve Şahin/pexels.


blackfriday 2025 portal do envelhecimento
Cursos gravados com até 50% OFF (você tem acesso a eles por 1 ano): https://edicoes.portaldoenvelhecimento.com.br/novo/course-category/gravado/
Todos os livros, combos e e-books com desconto: https://edicoes.portaldoenvelhecimento.com.br/novo/categoria-produto/todos-livros/

Portal do Envelhecimento

Compartilhe:

Avatar do Autor

Portal do Envelhecimento

Portal do Envelhecimento escreveu 4554 posts

Veja todos os posts de Portal do Envelhecimento
Comentários

Os comentários dos leitores não refletem a opinião do Portal do Envelhecimento e Longeviver.

LinkedIn
Share
WhatsApp
Follow by Email
RSS