A Conferência Municipal reuniu pessoas idosas, estudantes e trabalhadores para fortalecer a participação cidadã e debater os direitos na velhice.
Com o tema “Envelhecimento Multicultural e Democracia: Urgência por Equidade, Direitos e Participação”, a VI Conferência Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa de São Paulo reuniu entre os dias 16 e 18 de maio de 2025 pessoas idosas, estudantes e trabalhadores, em um espaço de escuta, construção coletiva e fortalecimento das políticas públicas voltadas ao envelhecimento.
O evento aconteceu em dois espaços emblemáticos do bairro da Liberdade: o Bunkyo – Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social, que sediou o primeiro e o terceiro dia de atividades, e a Faculdade FMU, que recebeu os debates do segundo dia.
No município de São Paulo, onde a população idosa já soma cerca de 2 milhões de pessoas, vêm sendo debatidas questões de fortalecimento das políticas públicas direcionadas a esse grupo. As discussões se organizaram em torno de cinco eixos temáticos que refletem as necessidades e desafios do envelhecimento na cidade. As propostas apresentadas durante a conferência trouxeram contribuições para diversas áreas, buscando garantir maior financiamento, proteção social, saúde integral, inclusão digital, mobilidade urbana e fortalecimento da participação social da pessoa idosa.
Em grupos, foram elaboradas propostas abordando os principais temas relacionados aos direitos das pessoas idosas, organizadas nos eixos a seguir e que em breve serão apresentadas na XVI Conferência Estadual.

Grupo de pessoas idosas da Zona Leste. Foto de Andreia Matias Plácido
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Principais pontos abordados
Eixo 1 – Financiamento das políticas públicas para a ampliação e garantia dos direitos sociais: Entre os principais pontos abordados está a ampliação e garantia de orçamentos específicos para a pessoa idosa em diferentes esferas de governo (municipal, estadual e federal). Também foram discutidas a necessidade de ampliar recursos para equipamentos de assistência social, saúde e serviços de cuidado integral, com foco na inclusão de equipes multiprofissionais e atendimento especializado.
Eixo 2 – Fortalecimento de políticas públicas para a proteção à vida, à saúde e para o acesso ao cuidado integral da pessoa idosa: Neste eixo, as discussões abordaram a implantação e ampliação de serviços como Centros-Dia, Núcleos de Convivência e programas de acompanhamento da pessoa idosa. A importância da capacitação de profissionais, da avaliação multidimensional e da inclusão digital para as pessoas idosas também foi apontada, assim como a melhoria da mobilidade urbana com acessibilidade.
Eixo 3 – Reflexões sobre políticas públicas para o envelhecimento: Garantindo os direitos e a equidade da pessoa idosa: Foram discutidas ações para aumentar o número de equipes especializadas na área da saúde para atendimento a pessoas idosas vítimas de violência, a regulamentação de programas de acompanhamento domiciliar, a formação continuada de profissionais para identificação e acolhimento, e a implementação de programas educativos e campanhas de combate ao preconceito e violência contra a pessoa idosa.
Eixo 4 – Participação social, protagonismo e a vida comunitária na perspectiva das múltiplas velhices: Este eixo concentrou-se na ampliação do acesso ao transporte público com infraestrutura adequada, capacitação de profissionais, e campanhas de conscientização. Também foram abordadas a inclusão digital, ampliação de espaços culturais e de convivência, e a garantia de segurança na mobilidade urbana, com ações educativas e fiscalização das condições das vias públicas.
Eixo 5 – Consolidação e fortalecimento da atuação dos conselheiros de direito da pessoa idosa como política pública do estado brasileiro: Foram discutidas propostas para fortalecer os Conselhos Municipais, Estaduais e Federais da Pessoa Idosa, ampliar a participação da sociedade civil, promover capacitação contínua dos conselheiros e profissionais, integrar conselhos em diferentes esferas, e garantir transparência e acesso à informação, fortalecendo a atuação e fiscalização das políticas públicas.

Foto: Andreia Matias Plácido
Bastidores
Apesar da força e da potência política da VI Conferência Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa, os bastidores do evento apontaram questões importantes para se pensar em uma próxima conferência. Diversas pessoas idosas presentes compartilharam insatisfações sobre como foram tratadas ao longo dos três dias. A escuta dessas vozes revela que, mesmo em espaços pensados para promover os direitos na velhice, ainda há muito o que rever quando se trata de acolhimento e respeito.
Os dois locais escolhidos para a realização da conferência apresentaram intercorrências. Na FMU, onde aconteceram as atividades do segundo dia, o prédio de cinco andares não oferecia acessibilidade adequada. As rampas eram extensas e cansativas, e o elevador disponível não comportava o fluxo de participantes com mobilidade reduzida. Muitas pessoas, diante das dificuldades, optaram por permanecer nos andares mais baixos, temendo se desgastar fisicamente, sobretudo aquelas com comorbidades. O caminho até o espaço das refeições era longo e cansativo, e, ao chegar, as cadeiras disponíveis eram pesadas e de difícil manuseio.
Além da estrutura física, o comportamento da equipe contratada para auxiliar no evento também foi alvo de críticas. Foram relatadas falas idadistas, uso de microfones com volume excessivo e falta de preparo para lidar com pessoas idosas e pessoas idosas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Ainda assim, é importante lembrar que algumas pessoas da equipe se mostraram cuidadosas e acolhedoras, oferecendo suporte com respeito.
O Bunkyo, que sediou a abertura e o encerramento, também teve seus limites, faltaram mesas para o café da manhã, e muitas pessoas idosas precisaram se sentar nas escadas ou comer em pé. A espera para entrar no local gerou filas longas, e o encerramento do último dia, previsto para as 14 horas, sofreu atrasos. Muitas participantes permaneceram no local sem acesso ao almoço. O lanche oferecido, composto por banana, salada de frutas, suco e água, não foi suficiente para suprir as necessidades após tantas horas de participação.

Estudantes de Gerontologia/USP entre Dinéia Cardoso (Secretaria de Esportes). Foto de Sandy Nonaka
Esses relatos, que surgem de quem viveu a conferência por dentro, não podem ser ignorados, pois quando se realiza um evento voltado à defesa dos direitos das pessoas idosas é preciso garantir que esses mesmos direitos estejam presentes na prática. A ausência de acessibilidade, o despreparo das equipes e a desatenção com detalhes básicos como o conforto nas refeições e o tempo de espera revelam que ainda caminhamos em direção a um envelhecimento digno e respeitado. Escutar o que se passou nos bastidores é um exercício de responsabilidade coletiva.
A próxima etapa, a plenária estadual, reunirá representantes de diversos municípios paulistas, que buscarão consenso para levar as propostas prioritárias à VI Conferência Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa, em Brasília. Que esse percurso siga com mais compromisso e respeito, olhando para a pessoa idosa em suas singularidades. Porque garantir direitos não é apenas promover debates, mas assegurar que esses direitos se concretizem na prática.
Conferência Estadual da Pessoa Idosa
A XVI Conferência Estadual da Pessoa Idosa, oficializada por decreto, e publicada no Diário Oficial do Estado de São Paulo, será realizada entre os dias 17 e 21 de agosto de 2025.
De acordo com o decreto, a conferência será coordenada e organizada pelo Conselho Estadual do Idoso, responsável pela condução dos trabalhos preparatórios e pela mobilização da sociedade civil. As despesas decorrentes da realização do evento serão custeadas com recursos do Fundo Estadual do Idoso.
A XVI Conferência Estadual da Pessoa Idosa será um espaço estratégico de escuta qualificada, articulação intersetorial e formulação de propostas voltadas ao fortalecimento das políticas públicas para o envelhecimento em todo o estado de São Paulo.
Foto destaque de Raissa Heizenreider.
