Publicação inédita propõe uma comunicação mais humanizada e respeitosa com pessoas que vivem com demência.
Durante muito tempo, falar sobre demência significou falar sobre perda, medo e isolamento. Expressões como “perder a memória”, “ficar gagá” ou “estar senil” tornaram-se comuns no discurso cotidiano, carregando estereótipos e reduzindo a complexidade da experiência de quem vive com alterações cognitivas. Essas expressões revelam não apenas o desconhecimento sobre o tema, mas também a forma como a sociedade ainda compreende ou não compreender o envelhecimento e a perda cognitiva.
Com o objetivo de transformar essa realidade, a Federação Brasileira das Associações de Alzheimer (Febraz) lançou o Guia de Linguagem Inclusiva em Demência, uma publicação inédita no Brasil que chama atenção para o papel das palavras no cuidado e na construção de novas formas de ver e tratar a demência.
O documento, produzido por Elaine Mateus, Larissa Picinato Mazuchelli, Christina Mattos e Leandro Minozzo, vai além de um conjunto de recomendações técnicas, é resultado de um processo de escuta e diálogo com pessoas que vivem com demência, familiares, cuidadores e profissionais de saúde. Por isso, o guia se apresenta como uma ferramenta ética, política e cultural, cuja proposta é clara: repensar a forma de comunicar para que ela se torne mais humana, inclusiva e consciente de seus impactos.
CONFIRA TAMBÉM:
“A linguagem não é neutra. Ela constrói realidades sociais, molda percepções e orienta práticas. O jeito como falamos não só mostra como vemos o mundo, mas também influencia e pode mudar nossas relações e interações.” (Guia de Linguagem Inclusiva em Demência, 2025, p. 1)
Essa constatação serve de alerta sobre a influência das palavras que podem acolher ou afastar, curar ou ferir, incluir ou excluir. No caso das demências, o uso de metáforas negativas e expressões desumanizadoras (muitas vezes repetidas sem reflexão) reforça visões estigmatizadas e limitantes.
Ao longo da publicação, a Febraz mostra que a maneira como nomeamos as pessoas e as condições de saúde revela a forma como a sociedade compreende o envelhecimento. O guia propõe um exercício de reposicionamento: olhar para além da doença e enxergar a pessoa.
Historicamente, o discurso biomédico foi predominante, descrevendo a demência apenas como perda, incapacidade e declínio. O guia convida a uma mudança de perspectiva, que reconheça a experiência da demência como também social, relacional e cultural. Essa abordagem amplia o entendimento e valoriza a pessoa como sujeito de direitos, história e afetos.
Essa transformação no modo de comunicar é, ao mesmo tempo, uma mudança no modo de cuidar. Quando familiares, profissionais e comunicadores passam a escolher com atenção as palavras que utilizam, tornam-se agentes de um movimento que ultrapassa o vocabulário: um movimento que promove respeito, inclusão e dignidade.
O guia dedica parte de suas páginas às diretrizes para uma linguagem inclusiva, que orientam o uso de termos mais respeitosos e centrados na pessoa, um passo para uma sociedade que busca compreender e acolher melhor o envelhecimento e as demências.


O documento também amplia o debate para além das palavras, mostrando que a comunicação envolve imagens, sons e representações visuais. Ao afirmar que “a linguagem não se limita ao verbal”, o guia destaca que fotografias escuras, metáforas visuais de vazio ou de perda e trilhas sonoras excessivamente dramáticas contribuem para reforçar o estigma e a ideia de sofrimento permanente. Em contraposição, recomenda o uso de imagens com cores vivas, expressões de interação e contextos que evidenciem vitalidade e pertencimento.
Mais do que revisar termos, o guia propõe uma mudança na forma de se comunicar sobre a demência, incentivando uma postura ética e socialmente responsável. Em um país que envelhece rapidamente e ainda enfrenta desinformação sobre o tema, adotar uma linguagem inclusiva significa promover respeito, ampliar o diálogo e fortalecer uma cultura de cuidado mais sensível e justa.
Acesse o guia completo:
Serviço
Guia de Comunicação Inclusiva sobre Demência
Autores: Mateus, Elaine; Mazuchelli, Larissa Picinato; Mattos, Christina; Minozzo, Leandro. Editora: Federação Brasileira das Associações de Alzheimer – Febraz
Ano: 2025
Disponível em: https://bitlybr.com/fGGIi
(*) Texto escrito sob orientação de Beltrina Côrte – Jornalista, CEO do Portal do Envelhecimento. E-mail: beltrina@portaldoenvelhecimento.com.br
