A solidão é um fator de risco para a saúde emocional e os aspectos biopsicossociais da população idosa, e as festas de fim de ano podem intensificar essa vulnerabilidade.
Liga Acadêmica de Gerontologia EACH USP (*)
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Chegou o fim de ano e, com ele, o tempo de festas.
Comemorações, brindes, trocas de presentes. Reunião de família, risadas ao redor da mesa cheia de comidas e doces que resgatam memórias, união. Um período, na maioria das vezes, marcado por expectativas, encerramentos e a sensação de mudança. A reunião familiar torna-se mandatória, carregada de simbolismo.
Mas e para quem não tem a presença da família?
Estima-se que cerca de 5,6 milhões de pessoas idosas vivem sozinhas, segundo o Censo de 2022. Embora morar sozinho possa ter aspectos positivos e incentivar a individualidade e independência da pessoa idosa, essa condição também pode favorecer o isolamento social e desencadear vulnerabilidade, e depressão, especialmente em períodos festivos.
Síndrome do Fim de Ano
A Síndrome do Fim de Ano é um conjunto de reações emocionais que afeta parte da população principalmente no mês de dezembro. Nesse período, os níveis de estresse e sintomas de ansiedade e depressão tendem a aumentar em comparação aos demais meses devido a uma necessidade simbólica de fechar ciclos e ao forte vínculo que o período festivo tem com o familismo, a valorização dos vínculos familiares e das relações de apoio.
É importante refletir acerca desse fenômeno e seu impacto em diferentes grupos, sobretudo as pessoas idosas. Pesquisas já demonstram que a solidão é um fator de risco significativo para a saúde emocional e para os aspectos biopsicossociais da velhice, e o mês de dezembro pode intensificar ainda mais essa vulnerabilidade. Considera-se que a cada cinco idosos, um se sinta sempre sozinho.
A solidão não é algo passageiro; ela contribui para o declínio cognitivo, distúrbios do sono, como a insônia, agravos cardiovasculares e depressão (Oliveira et al., 2023). A memória afetiva atrelada às festividades, ausência de pessoas queridas e o contraste entre o que ocorre socialmente, como encontros familiares e união, e o que se vivencia na prática podem despertar a saudade e uma sensação profunda de vazio.
Por conseguinte, percebe-se que a manutenção de uma rede social ativa e o cuidado ao próximo são fundamentais para a saúde emocional de pessoas idosas. Um estudo realizado através de uma revisão da literatura conduzida com participantes de 48 países reforça que o familismo está fortemente associado ao maior bem-estar psicológico e maior satisfação com a vida, sendo assim um fator de proteção contra o isolamento social e a solidão (Schwartz et al., 2024).
Entretanto, para aqueles que não contam com esse suporte familiar e comunitário, torna-se essencial que comunidades, gestores e sistemas de saúde priorizem a criação de estratégias de bem-estar e políticas públicas que ampliem oportunidades de convivência, fortalecimento de redes de apoio e programas de prevenção da solidão e isolamento entre pessoas idosas.
Diante disso, é visível que dezembro não é um mês festivo e feliz para todos. Para aqueles que já viveram esse período de forma intensa e repleta de vínculos afetivos, a Síndrome do Fim de Ano pode ser emocional e fisicamente desafiadora. Logo, cabe a nós, como sociedade, olhar com mais sensibilidade e cuidado para quem enfrenta esse período na solidão e agir de maneira mais humanizada para que ninguém passe por essa época de forma invisível e desamparada.
Referências
Souza, J. R. S.; Ferreira, P. C. S.; Cotta, R. M. M. Solidão e sua associação com indicadores sociodemográficos e de saúde em adultos e idosos brasileiros: ELSI-Brasil. Cadernos de Saúde Pública, v. 39, n. 7, e00213222, 2023. Disponível em: https://www.scielosp.org/article/csp/2023.v39n7/e00213222/.
UNICESUMAR. Sente angústia no fim do ano? Conheça a dezembrite e seus sintomas. 2023. Disponível em: https://www.unicesumar.edu.br/sente-angustia-no-fim-do-ano-conheca-a-dezembrite-e-seus-sintomas/.
Schwartz, S.; et al. Familism and Well-Being Across 48 Countries. Family Systems & Health, 2024. Disponível em: https://www.ovid.com/journals/famse/abstract/10.1037/fsh0000938~familism-and-well-being-across-48-countries.
Oliveira, D. V.; et al. Solidão em idosos brasileiros: prevalência e fatores associados. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia, v. 25, n. 3, e220156, 2022. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbgg/a/shGrnPPJKBjYwf3rQCM8skM/?format=pdf&lang=pt.
(*) Liga Acadêmica de Gerontologia EACH USP. Texto escrito pela integrante da Liga: Ysis Barreto Donati – Educação Física e Saúde da EACH/USP. E-mail: ligagerontologiausp@gmail.com.
Foto de Simon Berger/pexels.
