Cuidados para a Saúde do Cérebro: O que dizem as novas diretrizes da OMS?

Cuidados para a Saúde do Cérebro: O que dizem as novas diretrizes da OMS?

Documento da OMS reúne as evidências científicas mais recentes e reforça que proteger a saúde cerebral é um cuidado que deve começar muito antes da velhice e ser mantido ao longo da vida.


A saúde do cérebro tem recebido cada vez mais atenção diante do crescimento do número de pessoas que vivem com declínio cognitivo e demência em todo o mundo. Em resposta a esse cenário, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou, em 2026, a segunda edição das Diretrizes para Redução do Risco de Declínio Cognitivo e Demência, atualizando as recomendações divulgadas em 2019. O novo documento reúne as evidências científicas mais recentes e reforça uma mensagem importante: proteger a saúde cerebral é um cuidado que deve começar muito antes do envelhecimento e ser mantido ao longo de toda a vida.

Segundo a OMS, aproximadamente 57 milhões de pessoas viviam com demência em 2021, sendo que mais de 60% delas estavam em países de baixa e média renda. Além disso, estudos indicam que até 45% dos casos de demência podem estar relacionados a fatores potencialmente modificáveis, evidenciando que mudanças no estilo de vida e o controle adequado da saúde podem contribuir significativamente para reduzir o risco de desenvolvimento dessas condições.

As novas diretrizes ampliam o olhar sobre a prevenção ao reconhecer que o risco de declínio cognitivo é influenciado por diversos fatores que se acumulam durante toda a vida. Assim, cuidar do cérebro não significa apenas realizar exercícios de memória na velhice, mas também investir em hábitos saudáveis, controlar doenças crônicas, promover ambientes favoráveis e fortalecer a participação social desde a vida adulta.

Algumas recomendações da OMS

Entre as recomendações destacadas pela OMS está a estimulação cognitiva, incluindo atividades que desafiem o cérebro e favoreçam o aprendizado contínuo. A leitura, os jogos, a resolução de problemas, o treinamento cognitivo estruturado e até mesmo atividades cotidianas que exijam planejamento e raciocínio podem contribuir para manter o cérebro ativo. O documento também ressalta a importância da participação em atividades sociais, reconhecendo que manter vínculos sociais e participar da comunidade favorece não apenas o bem-estar emocional, mas também a saúde cognitiva.

Outro ponto fortemente reforçado é a prática regular de atividade física. Exercícios realizados de forma contínua trazem benefícios para a circulação cerebral, para o funcionamento cognitivo e para a saúde geral, sendo recomendados tanto para adultos com cognição preservada quanto, em determinadas situações, para pessoas com comprometimento cognitivo leve. Associada à atividade física, uma alimentação saudável e equilibrada também integra as estratégias de redução de risco, reforçando que escolhas alimentares fazem parte dos cuidados com o cérebro.

As diretrizes também abordam fatores relacionados ao estilo de vida. A cessação do tabagismo continua sendo uma recomendação importante, assim como intervenções voltadas à redução ou interrupção do consumo nocivo de álcool. Um aspecto relevante do novo documento é esclarecer que, para pessoas sem deficiência nutricional estabelecida, não há recomendação para o uso de vitaminas B ou E, ômega-3 ou suplementos multivitamínicos com o objetivo específico de prevenir declínio cognitivo ou demência. Essa orientação contribui para combater informações equivocadas sobre o uso indiscriminado de suplementos como estratégia de proteção cerebral.

A OMS também reforça que cuidar da saúde do cérebro significa cuidar da saúde como um todo. O controle do excesso de peso, da obesidade, da hipertensão arterial, do diabetes e das alterações dos níveis de colesterol faz parte das estratégias de prevenção. Da mesma forma, a identificação e o tratamento da perda auditiva, incluindo o uso de aparelhos auditivos quando indicados, são considerados componentes importantes na redução do risco de declínio cognitivo.

Outro avanço importante presente nas novas diretrizes é a inclusão dos fatores ambientais. A OMS reconhece a poluição do ar como um fator de risco modificável e recomenda reduzir a exposição tanto à poluição ambiental quanto à poluição presente dentro das residências, especialmente aquela relacionada ao material particulado fino (PM2,5), como parte das estratégias de promoção da saúde cerebral.

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As recomendações ainda destacam o valor das chamadas intervenções multidomínio, que combinam diferentes estratégias de prevenção de forma personalizada. Em vez de atuar sobre apenas um fator de risco, essas intervenções integram ações voltadas aos hábitos de vida, ao controle de doenças, à estimulação cognitiva, ao fortalecimento das relações sociais e aos fatores ambientais. A implementação dessas medidas depende não apenas das escolhas individuais, mas também de uma atuação integrada dos serviços de saúde, da atenção primária, das políticas públicas, das universidades, da iniciativa privada e da sociedade, promovendo acesso equitativo aos cuidados.

Embora as recomendações sejam baseadas nas melhores evidências científicas disponíveis, a própria OMS destaca que nem todas apresentam o mesmo nível de evidência, motivo pelo qual a prevenção deve ser compreendida como um processo contínuo, individualizado e adaptado às necessidades e ao contexto de cada pessoa. Mais do que buscar soluções isoladas, proteger a saúde do cérebro envolve construir, ao longo da vida, hábitos que favoreçam um envelhecimento saudável, ativo e com melhor qualidade de vida.

Referências
World Health Organization. (2026). Risk reduction of cognitive decline and dementia: WHO guidelines (2nd ed.). Geneva: World Health Organization. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240123557

(*) Assinam este texto pela ABG – Associação Brasileira de Gerontologia as autoras:
Flávia Roberta Evaristo Veloso – Gerontóloga, graduada pela Universidade de São Paulo (USP). Pós-graduanda em Reabilitação Neuropsicológica pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-FMUSP) e em Neurociências pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Atua como Assessora Científica do Método SUPERA – Ginástica para o Cérebro e integra o Grupo de Estudos em Treino Cognitivo da Universidade de São Paulo (GETCUSP), vinculado ao programa USP 60+, sob coordenação da Profa. Dra. Thaís Bento Lima da Silva. Desenvolve atividades nas áreas de envelhecimento saudável, estimulação cognitiva, reabilitação neuropsicológica, capacitação de equipes multiprofissionais de saúde, educação gerontológica, inclusão digital e promoção da saúde da pessoa idosa. E-mail: flaviareveloso@gmail.com

Thais Bento Lima da Silva – Gerontóloga formada pela Universidade de São Paulo (USP). Mestra e Doutora em Ciências com ênfase em Neurologia Cognitiva e do Comportamento, pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Docente do curso de Bacharelado e de Pós-Graduação em Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH- USP), pesquisadora do Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e diretora científica da Associação Brasileira de Gerontologia (ABG). Coordena Grupos de Apoio para cuidadores da Associação Brasileira de Alzheimer- Regional São Paulo. É parceira científica do Método Supera com a condução de ensaios clínicos. Coordenadora do Grupo de Estudos em Treino Cognitivo da Universidade de São Paulo. E-mail: thaisbento@usp.br    

Imagem de destaque: Google DeepMind/Pexels


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Blog do Gerontólogo - Iniciativa coordenada pela Diretoria Científica da Associação Brasileira de Gerontologia (ABG). Reúne discussões sobre as potencialidades e as possibilidades de atuação dos profissionais bacharéis em Gerontologia, bem como notícias sobre projetos, programas e serviços liderados por gerontólogos. São discutidos temas contemporâneos sobre a pauta do envelhecimento, enaltecendo as contribuições do gerontólogo à sociedade. Henrique Salmazo da Silva - Presidente Tatiane Andrade Alvarez - Vice-Presidente E-mail: abgeronto@gmail.com

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