A discussão sobre tecnologias aplicadas à velhice se conecta diretamente ao conceito de funcionalidade, um dos pilares da qualidade de vida de pessoas idosas.
ABG (*)
O envelhecimento populacional acontece em um cenário cada vez mais permeado pela digitalização da vida cotidiana. Smartphones, tablets, plataformas on-line, sensores e ferramentas de Inteligência Artificial transformam a forma como as pessoas se relacionam, aprendem, se comunicam e realizam atividades essenciais. Para a população idosa, essas tecnologias podem ampliar a autonomia, fortalecer vínculos sociais, facilitar o acesso a serviços e favorecer o bem-estar.
CONFIRA TAMBÉM:
Contudo, para que essas possibilidades se concretizem, é indispensável a mediação de profissionais capacitados para compreender tanto o processo de envelhecimento quanto o impacto das tecnologias no cotidiano.
Estudos conduzidos por profissionais de diversas áreas, incluindo gerontólogos (bacharéis em Gerontologia), destacam que grande parte das pessoas idosas dispõe de dispositivos digitais, embora nem sempre saiba utilizá-los de maneira funcional (Alvarenga et al., 2019; Cachioni et al., 2020). A insegurança diante das telas, a falta de domínio de comandos básicos e as dúvidas sobre a confiabilidade das informações on-line, podem afastá-las da participação digital e contribuir para a infoexclusão.
Dados de oficinas de inclusão digital revelam que muitas pessoas idosas têm uma relação limitada com celulares e tablets, o que interfere na comunicação cotidiana e reduz possibilidades de autonomia (Cachioni et al., 2020). Esse cenário reforça a importância de ações educativas específicas, que atendam aos ritmos, experiências e necessidades da pessoa idosa.
Nesse contexto, o gerontólogo desenvolve estratégias que vão desde o aprendizado inicial dos dispositivos até a construção do letramento digital. Isso inclui ensinar a operar aparelhos, navegar na internet, avaliar conteúdos e utilizar aplicativos úteis à vida diária.
Intervenções conduzidas por profissionais da Gerontologia, como oficinas com tablets e atividades digitais adaptadas, têm mostrado impactos positivos na atenção, na memória de trabalho e em funções executivas, além de promoverem maior engajamento e satisfação dos participantes (Alvarenga et al., 2019). Da mesma forma, estudos com cursos de informática indicam que o ambiente acolhedor, o acompanhamento próximo e o uso de exemplos práticos contribuem para maior segurança digital e fortalecem a autoconfiança das pessoas idosas, que passam a utilizar mensagens, e-mails e ferramentas de busca com autonomia (Ordonez et al., 2012).
À medida que esses aprendizados se consolidam, outras tecnologias passam a ganhar espaço no cotidiano, especialmente aquelas voltadas para apoiar tarefas e compensar limitações funcionais. Além das Tecnologias da Informação e Comunicação, as Tecnologias Assistivas ampliam as possibilidades de independência e organização da rotina. Aplicativos de lembrete, interfaces adaptadas, relógios inteligentes, comandos de voz e sistemas de segurança domiciliar auxiliam na realização das atividades diárias.
Nesse cenário, o papel do gerontólogo é identificar quais recursos são adequados para cada pessoa idosa, orientar a instalação e o uso, adaptar estratégias e oferecer suporte para que essas tecnologias se tornem incorporadas ao cotidiano de forma prática e significativa.
Em paralelo ao crescimento dessas ferramentas, a Inteligência Artificial (IA) vem assumindo função cada vez mais relevante no campo do envelhecimento. Os pesquisadores Souza et al. (2021) destacam que, diante do aumento da população idosa, a IA se tornou uma aliada ao favorecer a análise de grandes bases de dados, apoiar pesquisas e contribuir para intervenções mais personalizadas. Algoritmos de aprendizado de máquina ajudam a identificar padrões complexos em estudos longitudinais, oferecendo subsídios para políticas públicas e estratégias clínicas mais eficazes.
Essa tecnologia também se conecta ao ambiente domiciliar. Melo et al. (2020) apontam que assistentes virtuais, como Alexa e Google Assistant, podem apoiar pessoas idosas respondendo dúvidas, orientando exercícios, emitindo lembretes de medicamentos e oferecendo companhia por meio de interações em linguagem natural. Além disso, robôs assistenciais equipados com IA já são utilizados para auxiliar em atividades, apoiar mobilidade, interagir socialmente e estimular funções cognitivas.
Exemplos como o robô terapêutico Paro e o sistema Bono demonstram o potencial dessas tecnologias para apoiar a reabilitação cognitiva, auxiliar na organização da rotina e reduzir estresse, sobretudo entre pessoas idosas com declínio cognitivo ou demência em estágio inicial.
A discussão sobre tecnologias aplicadas à velhice se conecta diretamente ao conceito de funcionalidade, um dos pilares da qualidade de vida. A funcionalidade refere-se à capacidade de realizar atividades de vida diária, desde ações básicas, como se alimentar e vestir-se, até atividades instrumentais mais complexas, como gerenciar finanças, planejar compromissos ou utilizar tecnologias digitais. Preservar a funcionalidade significa manter autonomia, senso de controle e independência.
Nessa perspectiva, Tecnologias Assistivas, ferramentas digitais e Inteligência Artificial podem apoiar essa preservação ao oferecer recursos que compensam limitações, ampliam a segurança e fortalecem o senso de autodeterminação. Relógios inteligentes monitoram sinais vitais; sensores detectam quedas; aplicativos organizam rotinas; assistentes de voz ajudam em decisões cotidianas; plataformas on-line ampliam a comunicação e favorecem o controle sobre a própria vida.
A tecnologia não substitui o cuidado humano, embora possa potencializá-lo. Ela amplia possibilidades, reduz barreiras e oferece meios para que cada pessoa idosa continue protagonista de sua história. O gerontólogo, ao unir conhecimentos sobre envelhecimento, educação, funcionalidade e inovação, contribui para que essas ferramentas sejam utilizadas de forma significativa, ética e alinhada às necessidades de cada indivíduo.
Referências
Alvarenga, G. M. O.; Yassuda, M. S.; Cachioni, M. Inclusão digital com tablets entre idosos: metodologia e impacto cognitivo. Psicologia, Saúde & Doenças, v. 20, n. 2, p. 384-401, 2019.
Cachioni, M. et al. Idosos on-line: tecnologia como recurso para a aprendizagem ao longo da vida. Estudos Interdisciplinares sobre o Envelhecimento, v. 25, 2020.
Melo, H.; Correia, W.; Campos, F. Idosos e o uso de tecnologias assistivas em casa: uma revisão sistemática de literatura. Ergodesign & HCI, 8 (2), 27-43. 2020.
Ordonez, T. N. et al. Idosos on-line: exemplo de metodologia de inclusão digital. Revista Kairós-Gerontologia, v. 15, p. 215-234, 2012.
Souza, R.; Farina, R. M,; Florian, F. Inteligência artificial adaptada a idosos. Revista Interface Tecnológica, v. 18, n. 2, p. 208-218, 2021.
(*) ABG – Associação Brasileira de Gerontologia. Assinam esse texto:
Gabriela dos Santos – PBG 694, Docente do curso de Medicina da Universidade Santo Amaro (UNISA). Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Gerontologia pela Universidade de São Paulo (USP), Graduada em Gerontologia pela USP, com Extensão pela Universidad Estatal Del Valle de Toluca. É pesquisadora no Grupo de Estudos em Treino Cognitivo da USP e atua com estimulação cognitiva para pessoas idosas. E-mail: santosgabriela084@gmail.com.
Thais Bento Lima da Silva – PBG 127. Gerontóloga formada pela Universidade de São Paulo (USP). Mestra e Doutora em Ciências com ênfase em Neurologia Cognitiva e do Comportamento, pela Faculdade de Medicina da USP. Docente do curso de Bacharelado e de Pós-Graduação em Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP (EACH-USP), pesquisadora do Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e vice-diretora científica da Associação Brasileira de Gerontologia (ABG). Membro da diretoria da Associação Brasileira de Alzheimer- Regional São Paulo. É parceira científica do Método Supera. Coordenadora do Grupo de Estudos em Treino Cognitivo da Universidade de São Paulo. E-mail: thaisbento@usp.br
Tiago Nascimento Ordonez – Gerontólogo pela Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP). Especialista em Estatística Aplicada pelo Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU) de São Paulo. Pós-graduando do MBA em Data Science e Analytics na Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” da Universidade de São Paulo (ESALQ/USP). Atualmente atua como gerontólogo e coordenador de banco de dados do estudo “A eficácia de um programa de estimulação cognitiva com componentes multifatoriais na cognição e em variáveis psicossociais de idosos sem demência e sem depressão: um ensaio clínico randomizado e controlado”, fruto da parceria entre EACH-USP, Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e o Supera Instituto de Educação. Graduando em Medicina pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. E-mail: tiagordonez@gmail.com
Foto de T Leish/pexels.
