O envelhecer de cada um, ou o envelhecer possível?!

O envelhecer de cada um, ou o envelhecer possível?!

Ao costurar narrativas tão distintas, o documentário O Envelhecer de Cada Um desmonta a ideia de uma velhice única ou idealizada e nos convoca a olhar para a pluralidade.


por Raquel da Silva Pavin (*)

Quais fatores determinam o envelhecer no Brasil?

Esta escrita emerge do contato que tive com o tocante documentário O Envelhecer de Cada Um, que percorre histórias singulares de pessoas idosas no Brasil para destacar que envelhecer é um processo profundamente marcado por condições raciais, sociais territoriais, de gênero, corporais e afetivas. Ao costurar narrativas tão distintas, desmonta a ideia de uma velhice única ou idealizada e nos convoca a olhar para os contornos desiguais que moldam os percursos do tempo, sem perder de vista as formas de reinvenção que atravessam essas existências.

Envelhecer no Brasil está longe de ser uma experiência homogênea. As desigualdades sociais, econômicas e culturais moldam profundamente os percursos de vida.  O início do documentário já nos provoca refletir sobre a realidade dos bairros periféricos aonde, pessoas chegam a morrer até 20 anos mais cedo do que aquelas que vivem em áreas centrais e com melhores condições de infraestrutura. Pensar o envelhecimento exige, portanto, considerar interseccionalidades de gênero, raça, classe, território, deficiência, orientação sexual e redes de apoio que atravessam — e determinam — como se envelhece na diversidade.

Ao observarmos os relatos apresentados no documentário, o recorte de gênero surge com força. Zulmira (79 anos), mulher, negra, conta que começou a trabalhar muito cedo e teve um casamento arranjado aos 15 anos, marcadores que irão determinar a vivência de sua juventude, fase adulta e que acompanharam até a velhice. Para ela, envelhecer bem significa preservar a lucidez, a saúde e a mobilidade. Ao comentar que “tricô já era”, indica também uma ruptura com estereótipos tradicionais e aponta novas formas de interpretar a velhice.

José Marcos (68 anos), que hoje se define, no vídeo, como “faz-tudo”, reforça a centralidade do trabalho em sua vida. Em sua narrativa, envelhecer bem passa por manter uma alimentação, onde se come de tudo, preservar a mobilidade e continuar ativo profissionalmente.

Já Alda (86 anos) chama atenção para os territórios marcados por antigas zonas fabris que, com o tempo, se esvaziaram. Nessas regiões, a mobilidade limitada e a ausência de serviços produzem redes de apoio frágeis. Para ela, quem envelhece melhor é quem dispõe de recursos financeiros, mas também destaca a importância das amizades e do centro de convivência que frequenta para sua socialização.

Entre os três primeiros participantes, algo se repete: a preocupação constante com a lucidez e a mobilidade — condições vistas como fundamentais tanto para o lazer quanto para o trabalho.

O documentário também dá visibilidade às velhices vividas em situação de rua e extrema fragilidade financeira. Clóvis (70 anos) expressa o medo de envelhecer nessas condições, mas, ao mesmo tempo, compartilha estratégias de resistência. Para ele, envelhecer é ter “um lugar para ficar e uma grana para viver”. Em reflexão ainda mais dura sobre as desigualdades estruturais, afirma: “A escravidão não terminou, só mudou o esquema.”

Esses relatos reforçam que o envelhecer é atravessado por desigualdades profundas que acabam por determinar, sobretudo para as populações minoritárias, as condições concretas dessa etapa da vida.

Ao tratar da experiência de pessoas idosas com deficiência, Antônio (67 anos) afirma que “a sociedade impõe barreiras para viver de forma digna” e acrescenta que o capacitismo se intensifica quando combinado ao idadismo, resultando em processos constantes de infantilização. Ainda assim, afirma que envelhecer bem também é manter a esperança.

No campo do envelhecimento LGBT+, Luís (65 anos) destaca que chegar aos 60 anos foi, para ele, uma grande conquista diante das violências e preconceitos vividos ao longo da vida. Aponta ainda que a homofobia se agrava com o idadismo, ao impor padrões sobre corpos, desejos e sobre quem é considerado belo ou interessante.

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Isabel (69 anos), por sua vez, fala da realidade de mulheres que, após longos casamentos, descobrem traições e se veem sem independência financeira. O que poderia se transformar apenas em lamento, no entanto, aparece como resiliência: ela relata como a abertura para relações por meio de aplicativos lhe permitiram redescobrir desejos e possibilidades, e com isso escreve um livro: “32: um homem para cada ano que passei com você”. Ao mesmo tempo, faz uma crítica contundente ao idadismo, afirmando que as normas sociais sobre os corpos femininos envelhecidos acabam atribuindo “novos donos” a esses corpos sobre intensos e novos julgamentos na velhice.

Sobre o envelhecimento de mulheres negras, Maria Cecília (68 anos) enfatiza que os determinantes socioeconômicos se acumulam ao longo da vida. Reconhece que, por meio do trabalho, conseguiu acessar alguns privilégios que impactam positivamente seu envelhecer hoje, mas ressalta que, historicamente, mulheres negras permanecem em desvantagem quando comparadas às mulheres brancas. Reflete ainda sobre o tempo que passa, mas também sobre os potenciais que seguem sendo preservados, no processo.

Antônio Alberto (69 anos) fala da corrida como parte central de sua vida e como forma de enfrentar desafios, inclusive durante uma grave doença. Sua lição é clara: envelhecer bem é ter consciência do próprio processo de envelhecimento.

O documentário apresenta também a trajetória Odele (70 anos), marcada pelo cuidado com a filha. Ela relata que criar um blog para apoiar outras pessoas na mesma situação trouxe novo sentido à sua vida. Para ela, envelhecer bem envolve reunir-se com outras pessoas, cultivar o bom humor e aprender a “não vestir a dor”.

Já Anira, aos 98 anos, encerra as narrativas combinando lucidez e serenidade. Diz que envelhecer bem é estar entre família e amigos, embora reconheça os marcadores da idade em seu corpo. E conclui: “O que eu fiz aqui, não sei se fiz bem-feito, mas fiz.”

O que fica para mim e, imagino, para muitas outras pessoas que foram tocadas pelo necessário documentário, é a pluralidade das formas de acessar as velhices. Não se trata de construir uma visão romantizada, mas de reconhecer que cada envelhecer é atravessado por inúmeros desafios e, simultaneamente, por processos contínuos de resiliência.

Assim, o envelhecer de cada um, é como cada um(a) consegue envelhecer?!

O que você pensa sobre?!

Serviço
Documentário O Envelhecer de Cada Um
Direção: Gabriel Martinez
Produção executiva: Lilian Liang e Marcel Hiratsuka
Roteiro: Gabriel Martinez, Lilian Liang e Marcel Hiratsuka
Brasil: Faculdade de Medicina da USP (Disciplina de Geriatria – LIM/66) e Newcastle University Ano: 2025
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ZP8mvxa5xLU

(*) Raquel da Silva Pavin  Doutora em Memória Social e Bens, Especialista em Envelhecimento e Qualidade de Vida. Graduada em Serviço Social e Gerontologia. Autora dos livros “Mulheres idosas e o apoio social” e “Narrativas de mulheres idosas avós: Construindo perspectivas sobre novos conceitos de avosidades”. Articuladora do Grupo de Estudos sobre Velhices Plurais (GEVP). Pesquisadora das velhices femininas, apoio social e avosidades. Instagram: @geronidade

Foto de destaque: print do Documentário/entrevista: Alda Giovanni

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