Docente da UCP-Lisboa apresenta a conjuntura do envelhecimento no país, assim como seus desafios e possibilidades para se envelhecer bem.
Portugal é, atualmente, o segundo país europeu que guarda a maior proporção de pessoas idosas (24,1%) e as mais acentuadas curvas de envelhecimento do continente.
Este cenário resulta de um processo de duplo envelhecimento demográfico: entre 1970 e 2024, a proporção de jovens (0 a 14 anos) diminuiu de 28,5% para 12,6%, enquanto a proporção de pessoas com 65 ou mais anos aumentou de 9,7% para 24,3%, segundo o Instituto Nacional de Estatística (2024).
O índice de dependência de idosos portugueses mais que duplicou nas últimas décadas – passou de 15,6 em 1970 para 38,6 em 2024. Este panorama demográfico coloca desafios relevantes de natureza social, política e econômica.
Nomeadamente no que diz respeito à sustentabilidade dos sistemas de saúde e de previdência, à necessidade de reconfiguração das políticas públicas de cuidado e inclusão, bem como à revisão das dinâmicas intergeracionais e do lugar social da velhice.
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É neste contexto que se insere esta entrevista. Buscando compreender a conjuntura do envelhecimento em Portugal, seus desafios e possibilidades, conversamos com a pesquisadora do envelhecimento profa. Maria Vânia Silva Nunes, docente na Universidade Católica Portuguesa (UCP/Lisboa), especialista em Neuropsicologia e Psicogerontologia.

Paula Akkari – Doutora, o que a senhora tem a dizer sobre as imagens sociais da velhice na sociedade portuguesa hoje?
Maria Vânia Silva Nunes: Se eu tivesse que resumir, diria que as imagens sociais da velhice, infelizmente, ainda são predominantemente negativas… Há uma visão genericamente muito negativa das pessoas idosas como sendo pouco produtivas, sem valor econômico. Não há muito tempo, inclusive, referiram-se no Parlamento ao envelhecimento e às pessoas que envelhecem como “peste grisalha”, em uma discussão de caráter econômico sobre o sistema previdenciário. O simples facto de essa expressão existir já revela uma concepção bastante problemática do que é o envelhecimento.
Em que situações o idadismo manifesta-se mais fortemente em Portugal?
Há um idadismo muito assimilado e, muitas vezes, as pessoas não têm noção de que estão a ser idadistas ou preconceituosas. Vemos isto em muitas situações: por exemplo, na sinalética nos autocarros, em que as pessoas idosas são representadas com bengala; por vezes, nos próprios profissionais de saúde, numa lógica em que parece que o sofrimento é mais aceitável em pessoas mais idosas do que em pessoas mais novas. Outra manifestação é também o facto de as gerações ainda não se misturarem muito. As pessoas não têm, em geral, amigos de idades significativamente maiores.
Nesse sentido, como são os espaços de intergeracionalidade em Portugal?
Há tentativas de fazer atividades e criar momentos intergeracionais, e mesmo iniciativas intergeracionais – equipamentos que promovem convivência, por exemplo –, mas não diria que a intergeracionalidade faz parte da malha da nossa sociedade. Nas respostas sociais, as coisas estão muito tipificadas, as pessoas estão muito separadas.
Nos espaços, há o reflexo do tipo de vida que todos nós temos e como a sociedade se organizou. A sociedade tem o ciclo de vida ainda muito organizado – estuda-se quando jovem, trabalha-se quando adulto, reforma-se quando idoso, e, no imaginário, idosos fazem “coisas de reformados”. Essa divisão é muito desequilibrada: eu devia aprender ao longo da vida, eu devia trabalhar ao longo da vida, quando conseguisse, e devia ter aspectos lúdicos ao longo da vida.
Na prática não temos isso. Então muitas vezes as pessoas reformam-se e também não sabem aprender, não sabem divertir-se, não têm relações e, portanto, a reforma fica ainda mais penosa pela vida que foi vivida. Há muitos programas de transição para a reforma, muitas atividades, academias, universidades sêniores, muitos centros recreativos e culturais… Mas estão espalhados. É preciso que as pessoas também depois consigam organizar a sua vida, tenham esse interesse, o que nem sempre é fácil.
A senhora considera que a solidão tem sido uma questão para o envelhecimento?
Sim, e muito complicada. Como eu estava a dizer, nós temos muitas pessoas que vivem sozinhas nos centros da cidade, temos muitas pessoas que vivem sozinhas nas aldeias, isoladas e, portanto, mais vulneráveis à solidão. Há levantamentos – até a polícia ou as Santas Casas fazem alguns dessa natureza –, e nós vemos que há uma grande quantidade de pessoas idosas que vivem sozinhas e que não têm os filhos na vizinhança, que às vezes também já não têm os vizinhos… Às vezes, têm condições físicas que as isolam nos sítios onde elas vivem – prédios sem elevador, por exemplo. Portanto, muitos ficam dependentes de apoios domiciliários – mas a própria pessoa não tem uma vida comunitária porque não tem essa possibilidade.
Como os problemas todos, efeitos do processo de envelhecimento, refletem-se na cognição dos sujeitos?
Não estamos a falar de uma coisa causal. Hoje, porém, nós sabemos que aquilo que a Organização Mundial de Saúde designa por saúde cerebral tem muitos determinantes – físicos, sociais e ambientais. Na prática, a maneira como eu vivo, a maneira como o meu corpo está e como eu o alimento, as dificuldades com que eu me deparo, a poluição que eu enfrento, as redes sociais que eu estabeleço, a educação que tenho, tudo isso são fatores que vão promover que eu tenha uma melhor saúde cerebral. Portanto, sim, todos esses fatores da pergunta têm impacto na cognição. Fala-se muito na ideia de declínio cognitivo – inclusive, muito preconceito é feito com base nessa concepção de que pessoas velhas declinam.
O sistema nervoso envelhece. Da mesma maneira que um atleta não corre a maratona da mesma forma aos 90 e aos 30, o cérebro também tem diferenças em termos de desempenho em algumas métricas – o que não quer dizer que a pessoa cognitivamente não esteja a funcionar. Uma pessoa pode estar a funcionar bem, e existirão mudanças. Há mudanças fisiológicas e não patológicas. Por exemplo, se eu já não estou com boa memória, posso fazer alguma coisa sobre isso – posso ter agendas, fazer pequenas coisas de treino cognitivo, manter-me ativo, fazer exercício… Vivemos numa sociedade hipercognitiva. Se eu já não estou a produzir cognitivamente o máximo, com a máxima rapidez, é como se eu não valesse tanto. E isso não é verdade. As pessoas mais velhas, de facto, têm experiência e maior capacidade de reconhecer padrões, conseguem lidar melhor com a incerteza, não catastrofizam tanto. Portanto, há coisas que eu ganho com o envelhecimento.
E por que se fala tão pouco dos ganhos cognitivos do envelhecimento?
A imagem que se valoriza ainda é a produtividade econômica. Os idosos aparecem aqui como não produtivos, consumindo recursos, consumindo saúde, consumindo pensões. Interiorizar a percepção negativa vigente na sociedade acaba por gerar um autoidadismo. Muitos idosos pensam “eu já não sei fazer isso, essas coisas já não são para mim”. Quando uma pessoa idosa que está a falar com um jovem, não é raro que ela, no final da conversa, se desculpe.
A senhora considera que há políticas públicas suficientes para cuidar da velhice, seja em saúde física, mental, seja no lazer, seja no combate ao idadismo?
Ainda falta. As políticas ainda não partem de uma perspectiva preventiva. Agora identifico um esforço no sentido de tentar, de uma forma mais consciente, apanhar essa esteira da prevenção, embora eu acho que foi um pouco tardio. Vamos ter que correr atrás do prejuízo. Cá o envelhecimento não foi pauta principal nas políticas públicas, e vivemos uma situação muito particular, em que nós envelhecemos muito rápido. Nós passamos de uma altura em que tínhamos um avô, dois pais e quatro filhos, rapidamente passamos para ter quatro avós, dois pais e um filho.
Além disso, tivemos outras transformações estruturais importantes, como a entrada rápida das mulheres no mercado de trabalho. Isso alterou profundamente o modelo de cuidados, porque existia uma figura feminina – normalmente no contexto doméstico – que assumia o papel de cuidadora informal. Com a sua entrada no mercado de trabalho, essa estrutura de cuidado deixou de existir da mesma forma. Há também uma questão de desigualdade de género muito evidente. As mulheres continuam a ser, em grande parte, as principais cuidadoras — tanto no contexto familiar como, muitas vezes, no contexto profissional. Aquilo que eu estava a sublinhar é que, durante muito tempo, a existência dessas cuidadoras informais fez com que o próprio sistema não sentisse a necessidade de desenvolver, de forma robusta, respostas formais de cuidado. Essas funções eram asseguradas de forma invisível. Quando essas mulheres passam também a integrar o mercado de trabalho, torna-se mais evidente a carência existente na estrutura de cuidados.
Como a senhora considera que podemos construir, enquanto profissionais, enquanto sociedade, enquanto pessoas, um futuro mais solar para as pessoas velhas?
Tenho refletido muito sobre isto e caio em uma conclusão muito simples: para envelhecermos bem, temos que viver bem. E isso não está a acontecer. Nós sobrecarregamos os nossos jovens, criamos expectativas irrealistas, impomos horários e enfrentamos instabilidade social, relacional e laboral. A vida não é uma vida fácil. Nós temos que ter consciência de que a maneira como vivemos, a maneira como tratamos os outros, os recursos que a nossa sociedade nos permite ter, o direito a uma vida digna, enquadrada na comunidade, com uma alimentação adequada, com um contexto comunitário adequado em termos habitacionais – com oportunidade de ter espaços lúdicos e contacto com a natureza – são coisas que eu devo pensar ao longo da vida.
Ouvi uma ideia que achei muito interessante de alguém que dizia que as pessoas fazem seguros de saúde, seguros de tudo, mas não fazem um “seguro emocional”. Valorizamos o trabalho, o cargo, a produtividade. E depois, quando chegamos à reforma, tudo isso desaparece… Nós temos que garantir que as pessoas vivem bem. Viver bem é ter uma vida equilibrada.
E, nesse sentido, os profissionais e a sociedade em geral também têm de ajudar a criar condições para que, mesmo com doença, essa vida possa continuar a ser participativa. A pessoa que tem 90 anos tem o potencial para se desenvolver um bocadinho mais. Tenhamos isto presente: “hoje vai ser um dia em que eu vou desenvolver um bocadinho mais, eu vou viver um pouco mais, eu vou ter mais experiências, eu vou usufruir mais do meu dia. E naquela fase mais dependente, essa perspetiva também tem de estar na cabeça de quem trata de nós”. Se esta pessoa está doente, se esta pessoa é idosa, hoje vamos ter um dia que vai ser um dia positivo e construtivo e em que ela se vai desenvolver.
Circula uma mensagem de que, para pessoas idosas, “não há mais o que fazer”. Isto é uma coisa hiperidadista: a pessoa está viva, como é que não há nada a fazer? A pessoa está viva, vai viver aquele dia, não? Como é que não há nada a fazer naquele dia? Não o fazer é um desperdício da vida que não faz sentido. O idadismo é um desperdício de vida. É uma causa de sofrimento de que a pessoa pode não se dar muito conta, porque é muito prevalente. Nós somos uma sociedade idadista, nós somos idadistas para nós próprios, interiorizamos aquilo e depois até acaba por, de certa maneira, promover o declínio. Se eu interiorizo que sou incapaz, faço menos coisas, e ao fazer menos coisas fico mais incapaz. É uma coisa perniciosa, não é?
Qual é a tua palavra final a quem está a envelhecer à chegada da velhice?
Viva bem. Nós temos que viver bem cada dia. Temos que pensar em viver bem e em tratar-nos bem e em tratar os outros bem a cada dia que nós vivemos. Uma vida boa não é garantia de uma velhice saudável – mas eu posso afrontar a doença de maneiras muito diferentes. Estão a ocorrer mudanças graduais na forma com que se encara o envelhecimento. Temos que tirar o enfoque nas doenças. Tenhamos enfoque na vida saudável, equilibrada, mesmo na presença de doença. Porque eu posso estar doente – e o envelhecimento, naturalmente, traz algumas doenças associadas à diminuição da vitalidade –, mas ainda assim posso viver uma vida equilibrada, participativa.
O lema não é mantenha-se jovem. c Ninguém vai se manter jovem. Uma das definições do envelhecimento é este ser um processo inexorável. Nós vamos passar pelo processo de envelhecimento, nós não vamos manter jovens. Desejemos envelhecer bem.
Foto destaque de Alina Chernii/Pexel
