O silêncio na velhice e na demência não deve ser compreendido apenas como sintoma de declínio ou vazio, mas como estratégia de preservação da identidade e forma de comunicação.
Leonardo Ferreira Almada (*)
O desafio da demência: para além do biologismo
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A demência é uma perda abrangente: (i) de memória, (ii) do sentido de self ou de identidade, (iii) de relacionamento com os outros, (iv) de linguagem, (v) de independência, (vi) de formas de ser anteriormente integradas e, dentre outras possíveis, (vii) de sentido de realidade. Contudo, a maneira como enxergamos esse fenômeno determina a qualidade do cuidado que oferecemos.
O modelo médico tradicional, muitas vezes focado excessivamente na deterioração orgânica, tende a tratar o cérebro como ‘mais real do que a mente’, falhando em captar a sutileza da experiência humana e perdendo oportunidades valiosas de intervenção psicoterapêutica.
É preciso desafiar essa visão ‘cerebralista’. Embora a base orgânica da doença seja inegável, o sofrimento e a psicopatologia na demência — como a depressão ou a ansiedade — não são determinados apenas pela lesão. A Psicanálise nos lembra que a memória emocional, função ligada ao mesencéfalo e não apenas ao córtex, pode ser retida por muito mais tempo.
Isso sustenta a capacidade da pessoa idosa de manter relacionamentos e afetos, mesmo quando as habilidades verbais e a memória consciente diminuem. O desejo não envelhece e o inconsciente, marcado pela atemporalidade, continua a operar.
Cabe, para além do tratamento sob a égide do modelo médico, visar ao sujeito e à dimensão subjetiva de fenômenos como ‘os esquecimentos e as repetições’. Nesse sentido, é importante se perguntar: como o espaço ocupado pelas pessoas idosas em nossa sociedade repercute no psiquismo daqueles que vivenciam a senescência ou a senilidade? Haverá, para além do que é alcançado pela metodologia das ciências positivas e do modelo médico, a possibilidade incluir, nas teorias etiológicas da demência, um espaço para a fragmentação do self e para as experiências não elaboradas?
Do silenciamento ao silêncio eloquente
Em Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs), a presença progressiva do silêncio é notória. No entanto, é fundamental distinguir dois fenômenos: o silenciamento e o silêncio.
O silenciamento é o resultado de um processo de impedimento da fala que destitui a importância do ser, tornando o dito inaudível e imprimindo uma conformidade indignada. O ambiente institucional, ao focar nas rotinas coletivas, corre o risco de cancelar a singularidade do indivíduo, perpetuando esse silenciamento.
Contudo, o silêncio não é meramente a ausência de som ou um ‘zero’ de sentido. Há um nível no qual podemos falar na ‘eloquência das lacunas’. O silêncio é um recurso que permeia as práticas de comunicação, funcionando como parte de um sistema alternativo de significado para a pessoa idosa, possibilitando-lhe reelaborar desejos e respostas. Ele pode ter funções pragmáticas diversas: pode ser cognitivo ou reflexivo, cauteloso, emocional ou até mesmo um ato de resistência.
A aposta ética na escuta do não-dito
Muitas vezes, falamos sobre os idosos mais do que os escutamos, e o discurso especializado tende a canalizar e codificar a fala deles. A escuta especializada, ancorada na premissa de que o silêncio se ‘infla de sentido’, torna-se crucial. Ela permite ao profissional resgatar a história do sujeito e reestruturar significados, recuperando os sentidos necessários para a manutenção da identidade.
O postulado ético fundamental para o trabalho com a demência é a aposta na presença de uma vida psíquica. Essa ‘aposta ética’ se expressa no ato de sustentar a presença e, especialmente, de sustentar o silêncio junto àqueles que estão cansados e em sofrimento existencial. A resposta a esse sofrimento não é apenas um diagnóstico, mas o reconhecimento do sujeito.
Mesmo diante das perdas cognitivas e do silenciamento institucional, a pessoa — esteja em pleno usufruto da racionalidade ou em processo demencial — pode reelaborar significados através de um olhar atento que reconhece o silêncio como linguagem. A nossa tarefa é garantir que, mesmo nos momentos de maior fragilidade, o idoso seja visto não como um rejeito do tempo, mas como um sujeito em pleno exercício de sua identidade.
Referências
BALFOUR, Andrew. The unconscious and the aging process. In: EVANS, Sandra; GARNER, Jane (Eds.). Talking over the years: A handbook of dynamic psychotherapy with older adults. New York: Brunner-Routledge, 2004.
BEAUVOIR, Simone de. A velhice. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990. BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembrança de velhos. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
3. GOLDFARB, Delia Catullo. Demência e subjetividade: o que resta da vida psíquica? São Paulo: Casa do Psicólogo, 2005.
BERRIOS, Germam E. Non-cognitive symptoms and the diagnosis of dementia: Historical and clinical aspects. British Journal of Psychiatry, v, 154, p. 11–16, 1989. PMID: 2690875. Disponível em https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/2690875/. Acesso em 02 de Dezembro de 2025.
DUARTE, Thais Barrroso. Desafios e possibilidades da clínica com demência: escutando o sujeito silenciado. 2024. 91 p. Dissertação (Mestrado em Psicanálise) – Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Programa de Pós-Graduação em Psicanálise, Rio de Janeiro-RJ, 2024. Orientador: Prof. Dr. Vinicius Anciães Darriba. Disponível em https://www.bdtd.uerj.br:8443/handle/1/21758. Acesso em 01 de Dezembro de 2025.
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