A lógica assistencial da prática da saúde voltada para a população que envelhece não pode mais se sustentar apenas nos fluxos tradicionais entre UBS e serviços especializados.
Conforme avançamos na discussão sobre saúde pública, é importante reconhecer que a lógica assistencial voltada para a população que envelhece não pode mais se sustentar apenas nos fluxos tradicionais entre UBS (Unidade Básica de Saúde) e serviços especializados. O cenário demográfico e epidemiológico mudou, provocando tensionamentos sobre os serviços e exigindo novas formas de organização do cuidado.
No Brasil, as pessoas com 60 anos ou mais correspondem a aproximadamente 15% da população. Quando observamos a cidade de São Paulo, esse número sobe para cerca de 17%. Esses dados evidenciam a magnitude do desafio e a necessidade de respostas estruturadas.
Nesse contexto, o envelhecimento populacional tem desencadeado impactos importantes, sobretudo entre os mais longevos, mais vulneráveis e com maior carga de doenças crônicas, o que repercute diretamente no modo operacional da rede.
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Essa realidade demonstra a necessidade de revisão dos protocolos assistenciais e das estratégias de cuidado em saúde.
Ao analisarmos a prática cotidiana, identificamos casos que não seguem o roteiro preestabelecido do cuidado. São justamente esses casos que provocam inquietação nas estruturas do sistema. Em geral, envolvem pessoas oriundas de territórios com desigualdades sociais, vínculos familiares reduzidos e frágeis, uso abusivo de medicação, descompensações psiquiátricas, demências, quadros neurológicos, barreiras arquitetônicas e limitações funcionais. Essas situações evidenciam a dificuldade da rede em se articular, uma vez que demandam maior integração entre os setores da saúde e da assistência, além de políticas públicas mais abrangentes.
A lógica do cuidado precisa evoluir
Esses casos que fogem à curva não devem ser vistos como exceção a ser contornada, mas como sinalizadores de que a lógica do cuidado precisa evoluir. Eles tensionam a rede porque revelam onde a engrenagem desacopla, onde a comunicação falha, onde faltam recursos ou onde a atuação ainda está distante da integralidade e, principalmente, da equidade no cuidado. São esses casos que mobilizam as equipes a revisitar suas práticas, estimulam o desenvolvimento de novas estratégias e impulsionam a formulação de políticas públicas mais sensíveis às necessidades reais da população que envelhece.
Visto que o envelhecimento populacional está dado, torna-se emergente revisitar a lógica de cuidado. Ao compartimentar o sujeito e tentar resolver as partes de forma isolada, corremos o risco de reduzir a potência da intervenção e a efetividade da atuação, uma vez que deixamos de considerar a totalidade, as particularidades e as interações entre as partes que constituem o sujeito.
Ao enquadrar a pessoa idosa a protocolos que não consideram aspectos predominantes dessa fase da vida, tais como comorbidades clínicas, psiquiátricas e neurológicas, isolamento social e a inexistência de rede de apoio, por conseguinte, tensiona-se a rede de saúde e da assistência.
Tanto os profissionais quanto a pessoa idosa podem se ver sem suporte necessário, pois não existem abordagens que considerem situações de manejo complexo.
Na prática da atenção básica, uma situação recorrente que exemplifica esse cenário é a de idosos cuidando de outros idosos, todos em condição de fragilidade. Nessa conjuntura, o manejo e a abordagem em saúde tornam-se prejudicados, uma vez que o acesso do idoso à UBS é permeado por diversos obstáculos, como prejuízo funcional, alterações de marcha, artrose de joelho e quadril, além de barreiras arquitetônicas. Há também situações em que familiares impedem o acesso da equipe de saúde ao domicílio, o que gera demanda para outros setores, especialmente a assistência social. Nesses casos, a articulação intersetorial precisa ser realizada com cuidado, para não fragilizar ainda mais as relações entre família, usuário e serviço de saúde.
Diante desse cenário, as reuniões entre serviços de atenção básica, especializada e intersetorial se apresentam como um espaço importante de troca e apoio entre as equipes. Entretanto, isoladamente, não têm sido suficientes para lidar com a complexidade e a profundidade dos desafios que o novo perfil epidemiológico vem impondo à rede.
Para além da garantia desses espaços de reunião, torna-se necessário investir em instrumentos que facilitem e viabilizem um olhar ampliado para a população que exige cuidados mais complexos. Planilhas de acompanhamento, instrumentos de avaliação, projetos terapêuticos singulares mais efetivos e a organização de prontuários que favoreçam a integração das informações são alguns exemplos de dispositivos que precisam ser pensados, aprimorados e incorporados ao cotidiano dos serviços.
Projeto Terapêutico Singular (PTS)
Nesse contexto, o Projeto Terapêutico Singular (PTS) emerge como dispositivo central na tentativa de organizar o cuidado diante de situações complexas. No entanto, quando sustentado por uma lógica ainda compartimentada, o PTS passa a evidenciar os limites do próprio modelo de atenção. Muitas vezes, ele se estrutura como a soma de intervenções setoriais, desconsiderando as inter-relações, os efeitos das intervenções e os elementos não evidenciados que atravessam a vida da pessoa idosa. Assim, mais do que uma solução em si, o PTS torna-se um sintoma do desajuste entre a complexidade das demandas e um modo de pensar e operar o cuidado que ainda pressupõe previsibilidade, linearidade e disponibilidade plena da rede.
Nesse mesmo sentido, o envelhecimento populacional evidencia a necessidade de diferenciar o olhar da gerontologia da abordagem generalista. Cuidar de uma pessoa idosa implica compreender dimensões subjetivas, identidade e vivências que influenciam diretamente a adesão ao cuidado. Implica também reconhecer que envelhecer no Brasil é profundamente marcado por desigualdades: idosos que trabalharam sem contribuição previdenciária, mulheres que assumiram toda a carga do trabalho doméstico invisível, cuidadores adoecidos pela sobrecarga e moradias que não acompanham o declínio funcional. Todos esses fatores interferem na prática profissional e delimitam os caminhos possíveis de intervenção.
Do ponto de vista da gestão, é fundamental reconhecer que a crescente demanda por atenção domiciliar e pelo manejo de quadros complexos não pode recair exclusivamente sobre a boa vontade ou a criatividade individual das equipes. O envelhecimento populacional precisa se traduzir em expansão de programas, diretrizes específicas, qualificação permanente dos profissionais, protocolos atualizados e investimentos contínuos. A rede só se fortalece quando há sustentação política e administrativa capaz de garantir condições reais de trabalho.
Nesse marco institucional, é relevante destacar que a cidade de São Paulo assinou, em outubro de 2025, o compromisso com a Organização Mundial da Saúde como Cidade Amiga do Idoso. Essa iniciativa pressupõe articulações multissetoriais e reforça a necessidade de integrar a saúde a políticas urbanas, sociais e de cuidado, alinhando o planejamento municipal às demandas do envelhecimento populacional.
Por fim, a potência do trabalho em saúde reside justamente na capacidade de transformar essas tensões em oportunidades de qualificação da rede, melhoria da prática e fortalecimento do cuidado centrado na pessoa idosa e em seu contexto de vida. Esse movimento exige revisão constante, articulação entre setores e compromisso institucional com um modelo de cuidado mais integral, equitativo e sensível às realidades do envelhecer.
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