A difícil decisão de envelhecer

A difícil decisão de envelhecer

As pessoas se agarram como podem a uma juventude idealizada. Se não aceitarmos que somos velhos, há poucas chances de a sociedade, um dia, colocar o tema da velhice como central.


Antes de ser apresentado ao livro “A (difícil) decisão de envelhecer”, de Jorge Félix, li um comentário em um grupo de WhatsApp questionando o título: ninguém decide envelhecer, simplesmente envelhece com o passar do tempo. Uma afirmação óbvia e rasa ao mesmo tempo. Decidir envelhecer não é fácil, por isso as pessoas se agarram como podem a uma juventude idealizada. Por mais que o tempo passe, por mais que a ação do tempo imprima na pele o carimbo da velhice, essas pessoas insistem em negar o óbvio, como a Carolina da música de Chico Buarque, que se recusa a ver o tempo passar na janela.

Jorge Félix abre o livro (Editora da Unicamp) com a experiência de uma cardiologista francesa, Véronique, que, aposentada compulsoriamente do sistema público de saúde por conta da idade avançada, cria um movimento para discutir a velhice, visto que não concorda com o critério de idade usado pelo governo francês para afastar profissionais experientes do trabalho, e lança uma grande discussão sobre o tema, cujo movimento hoje abarca milhares de pessoas.

Em um seminário com pessoas tão velhas quanto ela, em 2020, faz a incômoda pergunta: Quem é velho aqui? Ninguém levanta o braço. Ou seja, as pessoas que vão a um seminário discutir a velhice, adeptos do envelhecimento ativo, acreditam piamente que estão ali porque “decidiram” continuar jovens (estudando, trabalhando, namorando, praticando esportes etc.). Se fossem velhas, creem, estariam com demência, com deficiências, doentes, inativas, presas a uma cama ou sofá e não participando de um evento, seja qual for. Diante da negativa, Véronique conclui: se não aceitarmos que somos velhos, há poucas chances de a sociedade, um dia, colocar o tema da velhice como central.

A inspiração para o título do livro, porém, Jorge encontra no romance de Rosa Monteiro: A ridícula ideia de nunca mais te ver. É a personagem do romance, uma cientista no mundo real, Marie Curie (1867-1934), detentora de dois prêmios Nobel, que só decide envelhecer quando enfrenta um ano difícil. Não li o romance, mas posso imaginar o inferno vivido pela viúva, com o linchamento público quando se envolve amorosamente com um aluno, bem mais novo. Não faço ideia do que significou esta “decisão” na época, mas a autora dá uma dica: a professora nunca mais foi a mesma.

O livro, portanto, tem essa leveza, faz o leitor pensar e passear por situações bem interessantes. É apresentado em duas partes. Na primeira, Notícias sobre o envelhecimento, o autor reúne toda a discussão que tem feito e proposto nas áreas da economia da longevidade e da sociologia do envelhecimento. Uma discussão urgente, pois mudanças na Lei da Previdência são pauta no Congresso Nacional, baseadas em um pensamento pobre, o fiscalismo, em contas puramente ditas, sem considerar o bem-estar social, a qualidade de vida etc. É replicar no Brasil modelos que não deram certo em outros países, como o desmonte da seguridade social, que irão provocar o desamparo da velhice, o empobrecimento de grande faixa da população, causando desespero e levando ao suicídio, tema tabu que se joga para baixo do tapete.

O Brasil envelhece em ritmo acelerado e o que se faz é maquiar a velhice, apagar o tempo, afirmando, por exemplo, que os 70 anos são os novos 50. Jovens e adultos tendem a ignorar a velhice, a não ser quando se deparam com uma velhice indesejada, como a de um pai ou uma mãe que se torna dependente por conta de uma demência que geneticamente poderá alcançá-los no futuro. Aí começam a agir, a se solidarizar, a se conscientizar que a velhice não é só o oba-oba do envelhecimento ativo, da melhor idade ou NOLT (termos inadequados criados pelo mercado publicitário).

Buscar exemplos que estão dando certo lá fora seria o ideal, mas apostamos no atraso e não na construção de uma política de bem-estar social. O que faz a Europa hoje em prol dos seus velhos? Exemplos de políticas na Alemanha, França etc., são apresentadas no livro. A questão do cuidado, da gestão hospitalar, da dinâmica demográfica, enfim, o autor traz notícias sobre o envelhecimento para tudo e para todos nesta primeira parte do livro. São 21 artigos fáceis de ler, compreender e absolutamente atuais.

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A segunda parte é composta por dois artigos de maior fôlego, publicados em revistas científicas, abordando a economia da longevidade, a gerontecnologia e a economia do cuidado diante do envelhecimento populacional. O livro ainda traz, de brinde, uma reflexão de Frei Betto a respeito dos seus 80 anos, Daniela Chiaretti reflete sobre o termo etarismo (idadismo, ageism, idosismo etc.) e Pedro Cafardo destaca o endividamento que coloca idosos em apuros.

Para fechar, uma entrevista concedida por Jorge Félix para Guilherme Arruda, do site Outra Saúde, chamando a atenção para a transferência dos cuidados com os idosos do Estado para as famílias. A apresentação é de Guita Debert, que garante que este livro é imprescindível num contexto em que o etarismo não pode impedir a construção de uma sociedade mais justa e solidária.

parte de capa de um livro de Jorge Félix: A difícil decisão de envelhecer em fundo meio que cinza e preto.

Serviço
Livro “A (difícil) decisão de envelhecer”
Autor: Jorge Félix
Editora: Editora da Unicamp
Ano: 2026

Foto de Ron Lach/Pexels


banner com fundo azul escuri com um home idoso negro anunciando o curso o envelhecimento na perspectiva da gerontologia social
Mário Lucena

Jornalista, bacharel em Psicologia e editor da Portal Edições, editora do Portal do Envelhecimento. Conheça os livros editados por Mário Lucena.

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