Design Ativo e Caminhabilidade Urbana: Interfaces com o envelhecimento digno e o direito à cidade

Design Ativo e Caminhabilidade Urbana: Interfaces com o envelhecimento digno e o direito à cidade

A adoção do Design Ativo torna-se particularmente urgente diante da combinação entre envelhecimento demográfico, urbanização intensa e elevados níveis de inatividade física.


A intensificação da urbanização e o rápido envelhecimento populacional colocam as cidades no centro do debate sobre qualidade de vida, saúde pública e acessibilidade. Nesse cenário, o Design Ativo consolida-se como uma estratégia capaz de reorientar o ambiente urbano para favorecer a atividade física cotidiana e enfrentar o avanço do sedentarismo e das doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs) [1]. Formulado nos Estados Unidos a partir de 2010, o conceito articula planejamento urbano e arquitetura a intervenções que induzem escolhas mais saudáveis de forma integrada ao uso cotidiano da cidade [1,2].

No contexto brasileiro, a adoção desses princípios torna-se particularmente urgente diante da combinação entre envelhecimento demográfico, urbanização intensa e elevados níveis de inatividade física. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que 15,8% da população brasileira já tem 60 anos ou mais, percentual que deverá superar o de crianças e adolescentes até 2030 [3,4]. Paralelamente, 87,4% dos brasileiros vivem em áreas urbanas, onde cerca de 60% não atingem as recomendações mínimas de atividade física da Organização Mundial da Saúde (OMS), entre 150 e 300 minutos semanais de atividade aeróbica moderada a vigorosa [4]. Informações da Secretaria de Atenção Primária à Saúde (SAPS) apontam que aproximadamente 40,3% dos adultos são sedentários [6], condição associada ao aumento da mortalidade precoce e à maior incidência de diabetes, obesidade e depressão, com repercussões diretas sobre a saúde pública e a produtividade.

A centralidade do automóvel na organização das cidades agrava esse quadro. Além de congestionamentos e perdas de tempo, o volume de veículos contribui para mortes no trânsito, atropelamentos e impactos negativos à saúde física e mental. Segundo o Observatório do Clima, 80% das emissões de gases de efeito estufa do setor de transportes no Brasil são geradas por veículos individuais, que respondem por apenas um terço do transporte de passageiros. Os acidentes de trânsito figuram como a segunda principal causa externa de morte no país. Ainda assim, o planejamento urbano brasileiro tem historicamente privilegiado o modal rodoviário em detrimento de calçadas contínuas e acessíveis, travessias seguras e infraestrutura cicloviária, enquanto grandes obras viárias e a valorização das áreas centrais ampliaram distâncias urbanas e reforçaram a segregação socioespacial.

Nesse contexto, caminhar destaca-se como um modo de deslocamento não poluente, acessível e capaz de fortalecer a relação cotidiana com o território. Mesmo quando não constitui o percurso integral casa-trabalho — opção de 17,8% dos brasileiros, segundo o Censo 2022 —, o deslocamento a pé é parte indispensável do acesso ao transporte coletivo. Em diferentes intensidades, todos os cidadãos assumem o papel de pedestres ao longo do dia.

A decisão de caminhar está associada sobretudo à saúde e à economia de tempo e recursos, enquanto os principais obstáculos relacionam-se à precariedade das calçadas, à iluminação insuficiente e à sensação de insegurança. A noção de caminhabilidade abrange, portanto, não apenas a qualidade física de calçadas, cruzamentos e espaços públicos, mas também a atratividade do entorno, a densidade urbana, a segurança viária e pública e as políticas de uso e gestão do solo. Trata-se de um conceito que articula dimensões físicas, funcionais e simbólicas do ambiente urbano, reconhecendo seu papel na promoção da saúde física e mental, na vitalidade dos espaços públicos e no fortalecimento das relações sociais e econômicas na escala da rua e do bairro.

Transformando cidades em ambientes ativos

O Design Ativo propõe uma abordagem interdisciplinar que articula elementos do ambiente construído para facilitar o movimento humano no cotidiano, promovendo saúde física, mental e social. Para isso, diretrizes como as elaboradas no documento Active Design Guidelines: Promoting Physical Activity and Health in Design, da cidade de Nova York, servem de referência na criação de ruas, edificações e espaços urbanos acessíveis e inclusivos [1,2]. Além disso, o documento converge com os princípios dispostos na Política Nacional de Mobilidade Urbana, Lei Federal nº12.587, de 03 de janeiro de 2012; e na Cartilha produzida pelo Ministério das Cidades em 2013, que enfatiza tanto os transportes públicos quanto os deslocamentos ativos [7,8], conforme a Figura 1.

Figura 1. Representação da “pirâmide da mobilidade”. Fonte: Global Street Design Guide, National Association of City Transportation Officials (2022). Adaptado pelo autor (2025).

Os principais pilares dessa abordagem incluem:

1. Organização Espacial e Transporte Vertical

No contexto brasileiro, Fortaleza se destaca como referência em iniciativas de mobilidade urbana alinhadas aos princípios do Design Ativo (Figura 2). Entre 2012 e 2024, a infraestrutura cicloviária da cidade apresentou um crescimento expressivo de 529%, totalizando 427,9 km de ciclovias, ciclofaixas, ciclorrotas ou passeios compartilhados distribuídos pelas diversas regionais da capital. Segundo o Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP Brasil), Fortaleza lidera entre as capitais brasileiras no índice de proximidade da população às infraestruturas cicloviárias, com 51% dos habitantes residindo a menos de 300 metros de alguma via ciclável [9].

Figura 2. Fonte: Global Street Design Guide, National Association of City Transportation Officials (2022). Adaptado pelo autor (2025).

Esses avanços refletem um movimento mais amplo em nível nacional. Dados da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) revelam que 7% dos brasileiros optam pela bicicleta como meio de transporte principal, evidenciando a crescente relevância da mobilidade cicloviária no cotidiano urbano. Em 2023, a rede cicloviária do país registrou um aumento de 4%, reforçando o papel da infraestrutura ciclística na promoção de estilos de vida ativos e sustentáveis [10].

A redução de limites de velocidade nas vias e o fortalecimento de espaços exclusivos para pedestres também tornam o ambiente urbano mais seguro e convidativo, levando em consideração que os sinistros de trânsitos no país foram de 29.435 mil, resultando em 85.549 mil pessoas envolvidas e 2.906 mil mortes nas rodovias federais até junho de 2024, conforme a Confederação Nacional dos Transportes (CNT) [11].

2. Iluminação e Qualidade Sensorial

A iluminação desempenha um papel crucial na funcionalidade e na qualidade dos espaços urbanos e construídos. A luz natural, frequentemente integrada a elementos biofílicos – como áreas verdes e jardins –, não apenas orienta o deslocamento, mas também contribui significativamente para o bem-estar psicológico dos usuários, ao reforçar a conexão humana com a natureza [12,13]. Em ambientes internos, como metros, a presença de iluminação adequada em corredores e escadas os torna mais atrativos, seguros e convidativos, incentivando sua utilização.

3. Mobiliário e Espaços de Convivência

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O mobiliário urbano, além de sua função básica, atua como ferramenta de incentivo ao movimento e à interação social. Bancos dispostos em parques e praças, por exemplo, promovem encontros e fortalecem a coesão comunitária. Áreas de descanso distribuídas em longos percursos favorecem a circulação ativa e ampliam a acessibilidade [14,15].

4. Estética e Motivação para o Movimento

Os elementos estéticos do espaço urbano, como cores, texturas e materiais, exercem influência direta sobre o comportamento humano. Escadas e corredores podem ser enriquecidos com tons vibrantes e acabamentos acolhedores, tornando-os mais convidativos. Intervenções artísticas em espaços públicos, como murais e pavimentos interativos, transformam a paisagem urbana em um estímulo ao uso (Figura 3) [14,15].

Figura 3. Pedestres se divertindo ao descerem pela Escada Piano, Estocolmo, Suécia (2011).

5. Conforto Térmico e Qualidade do Ar

O controle do microclima urbano é essencial para criar condições adequadas ao movimento. Em ambientes externos, soluções como arborização e fachadas verdes ajudam a mitigar o calor e melhorar a qualidade do ar. Estudos indicam que um aumento de 30% na cobertura arbórea pode reduzir a temperatura local em até 0,4°C [16].

6. Aprendizagem e Desenvolvimento Cognitivo

Evidências científicas demonstram que exercícios espontâneos aprimoram processos atencionais, memorização e retenção de informações, especialmente em ambientes arborizados ao ar livre. Pesquisas longitudinais reiteram esses achados, indicando que a prática regular de atividades físicas ao longo da vida está associada ao fortalecimento da reserva cognitiva e à redução do risco de demências, como a Doença de Alzheimer, em idades avançadas [17,18,19].

Perspectivas Futuras

O Design Ativo redefine as cidades ao transcender a funcionalidade tradicional, integrando movimento, saúde e inclusão de maneira articulada e sustentável. Ao combinar estética, acessibilidade e estratégias ambientalmente responsáveis, essa abordagem posiciona o espaço urbano como um catalisador de transformação social e melhoria da qualidade de vida. No contexto brasileiro, onde o envelhecimento populacional e o sedentarismo se apresentam como desafios críticos, a adoção desses princípios promove não apenas o bem-estar físico e mental, mas também a construção de um futuro urbano mais inclusivo, dinâmico e equitativo.

É fundamental reconhecer, entretanto, que cada cidade possui demandas específicas, contextos estruturais distintos e escalas variadas. Nesse sentido, atualizações das diretrizes urbanísticas, aprimoramentos nos processos de concepção, execução e manutenção de infraestruturas, além da ampliação de intervenções de Design Ativo adaptadas às necessidades locais, são imprescindíveis para garantir a efetividade e a resiliência dessas iniciativas, bem como o direito ao envelhecimento digno e ao próprio exercício da cidadania.

Referências
1. NYC — THE CITY OF NEW YORK. Active Design Shaping the sidewalk experience: Tools and resources. NYC, 2013.
2. NYC — THE CITY OF NEW YORK. How to Use the Active Design Guidelines. In: Active Design Guidelines – promoting physical activity and health in design, NYC, 2018.
3. IBGE, INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. SÍNTESE DE INDICADORES SOCIAIS -2023 Uma análise das condições de vida da população brasileira. [s.l: s.n.]. Disponível em: <https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/media/com_mediaibge/arquivos/070903d82038130a93f0374ada39f81d.pdf>.
4. UN, UNITED NATIONS. World Population Prospects. Disponível em: <https://population.un.org/wpp/>.
5. WHO, WORLD HEALTH ORGANIZATION. WHO guidelines on physical activity and sedentary behaviour. [s.l.] World Health Organization, 2020.
6. SAPS — SECRETARIA DE ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE (SAPS). Observatório da atenção primária da Umane, Sedentarismo Brasileiro. Ministério da Saúde, Brasil. 2023.
7. BRASIL. Lei Nº 12.587, de 03/01/2012 (Política Nacional de Mobilidade Urbana). Site do Planalto. Disponível em: Acesso em: 12 de Maio de 2022 e 2 de Fevereiro de 2023.
8. BRASIL, Ministério das Cidades. Cartilha “Política Nacional de Mobilidade Urbana” produzida pelo Ministério das Cidades sobre a Lei Nº 12.587. Disponível em: https://antigo.mdr.gov.br/images/stories/ArquivosSEMOB/cartilha_lei_12587.pdf. Acesso em: 01 de set. 2024.
9. GOVERNO DO ESTADO DO CEARÁ, MOBILIDADE URBANA. Infraestrutura Cicloviária. Disponível em: <https://mobilidade.fortaleza.ce.gov.br/menu-programas/malha-ciclovi%C3%A1ria.html>. Acesso em: 01 de set. 2024.
10 . OBSERVATÓRIO DA BICICLETA. Ciclovias crescem 4% em um ano no país, “mas ainda faltam políticas que incentivem modal” – Observatório da Bicicleta. Disponível em: <https://observatoriodabicicleta.org.br/ciclovias-crescem-4-em-um-ano-no-pais-mas-ainda-faltam-politicas-que-incentivem-modal/>. Acesso em: 2 dez. 2024.
11. PORTAL DE TRÂNSITO E MOBILIDADE. Dados gaúchos da mortalidade no trânsito nas rodovias federais do Estado. Disponível em: <https://www.portaldotransito.com.br/noticias/fiscalizacao-e-legislacao/estatisticas/dados-gauchos-da-mortalidade-no-transito-nas-rodovias-federais-do-estado/>. Acesso em: 9 dez. 2024.
12. XU, J. et al. Effects of urban living environments on mental health in adults. Nature Medicine, v. 29, n. 6, p. 1456–1467, 1 jun. 2023.
13. VICH, G.; MARQUET, O.; MIRALLES-GUASCH, C. Green streetscape and walking: Exploring active mobility patterns in dense and compact cities. Journal of Transport & Health, v. 12, p. 50–59, mar. 2019.
14. BARDHAN, M. et al. From space to street: A systematic review of the associations between visible greenery and bluespace in street view imagery and mental health. Environmental Research, v. 263, p. 120213, dez. 2024.
15. CHIQUETTO, J. B. et al. Air quality improvements from a transport modal change in the São Paulo megacity. The Science of The Total Environment, v. 945, p. 173968–173968, 1 out. 2024.
16. OLIVETO, P. Aumento na quantidade de árvores em uma cidade reduz mortes precoces. Disponível em: <https://www.correiobraziliense.com.br/ciencia-e-saude/2023/02/5070272-aumento-na-quantidade-de-arvores-em-uma-cidade-reduz-mortes-precoces.html>. Acesso em: 9 dez. 2024.
17. FIGUEIREDO, A. E. B.; CECCON, R. F.; FIGUEIREDO, J. H. C. Doenças crônicas não transmissíveis e suas implicações na vida de idosos dependentes. Ciência & Saúde Coletiva, v. 26, n. 1, p. 77–88, jan. 2021.
18. GALVÃO, L. L. et al. Physical activity combined with sedentary behaviour in the risk of mortality in older adults. Revista de Saúde Pública, v. 55, p. 60, 8 nov. 2021.
19. VERONESE, N. et al. Physical activity and exercise for the prevention and management of mild cognitive impairment and dementia: a collaborative international guideline. European Geriatric Medicine, 28 set. 2023.

Foto destaque: Fonte: Freepik (2024).


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Ciro Ferrer
Ciro Férrer Herbster Albuquerque

Arquiteto e Urbanista. Mestre em Arquitetura, Urbanismo e Design pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Especializado em Gerontologia, NeuroArquitetura e Neurociência e Comportamento pela PUC/RS. Membro do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa (CMDPI), da SBGG/CE, da ABRAZ/CE e da Academy of Neuroscience for Architecture (ANFA). E-mail: ciro.ferrer@hotmail.com

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Arquiteto e Urbanista. Mestre em Arquitetura, Urbanismo e Design pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Especializado em Gerontologia, NeuroArquitetura e Neurociência e Comportamento pela PUC/RS. Membro do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa (CMDPI), da SBGG/CE, da ABRAZ/CE e da Academy of Neuroscience for Architecture (ANFA). E-mail: ciro.ferrer@hotmail.com

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