Exposição silenciosa: estudo liga pesticida ao aumento do risco de Parkinson

Exposição silenciosa: estudo liga pesticida ao aumento do risco de Parkinson

Estudo aponta o clorpirifós como fator ambiental relevante no desenvolvimento da doença de Parkinson, a partir de dados populacionais e evidências biológicas.


A doença de Parkinson é uma condição neurológica crônica e progressiva que compromete, principalmente, os movimentos. Ocorre em decorrência da degeneração de células localizadas na substância negra[1], região do cérebro responsável pela produção de dopamina[2], neurotransmissor fundamental para a coordenação motora.

A redução da dopamina provoca sintomas como tremor em repouso, lentidão dos movimentos, rigidez muscular e alterações no equilíbrio e na postura, que tendem a se intensificar ao longo do tempo. De acordo com a Biblioteca Virtual de Saúde a progressão é variável entre as pessoas e o diagnóstico é clínico, baseado na história do paciente e no exame neurológico, já que não há um teste específico para confirmar ou prevenir a doença.

Embora não exista cura, o tratamento — que envolve medicamentos, terapias de reabilitação e, em alguns casos, cirurgia — permite controlar os sintomas e preservar a autonomia, reforçando a importância do cuidado contínuo ao longo do envelhecimento.

Pesquisa

Um estudo científico publicado recentemente na revista Molecular Neurodegeneration identificou que a exposição residencial prolongada ao pesticida clorpirifós está associada a um risco 2,5 vezes maior de desenvolvimento da doença de Parkinson. A pesquisa, conduzida por cientistas de diferentes instituições e liderada por pesquisadores da UCLA Health, combinou dados epidemiológicos em humanos com experimentos laboratoriais em modelos animais, fortalecendo a compreensão sobre o papel de exposições ambientais acumuladas ao longo da vida no surgimento da doença, especialmente durante o envelhecimento.

O clorpirifós é um pesticida organofosforado amplamente utilizado na agricultura por décadas. Nos Estados Unidos, seu uso residencial foi proibido em 2001, e o uso agrícola passou a sofrer restrições mais severas a partir de 2021. Ainda assim, a substância segue sendo utilizada em diversas culturas agrícolas no país e permanece amplamente aplicada em outros países, o que torna os achados do estudo particularmente relevantes para a saúde pública.

Como a pesquisa foi realizada

Para investigar a associação entre o clorpirifós e a doença de Parkinson, os pesquisadores analisaram dados de 829 pessoas diagnosticadas com a doença e 824 pessoas sem o diagnóstico, todas participantes do estudo longitudinal Parkinson’s Environment and Genes (PEG), coordenado pela UCLA. A equipe utilizou registros oficiais de uso de pesticidas do estado da Califórnia, combinados com históricos detalhados de endereços residenciais e locais de trabalho dos participantes, para estimar a exposição individual ao clorpirifós ao longo do tempo.

Além da análise populacional, o estudo incluiu experimentos laboratoriais para compreender de que forma o pesticida poderia provocar danos cerebrais. Camundongos foram expostos ao clorpirifós por meio de aerossóis durante 11 semanas, utilizando um método de inalação que simula a forma mais comum de contato humano com a substância. Também foram realizados experimentos com peixes-zebra, modelo amplamente utilizado para investigar mecanismos celulares e moleculares de doenças neurológicas.

Principais resultados

Os resultados mostraram que pessoas com exposição residencial prolongada ao clorpirifós apresentaram um risco significativamente maior de desenvolver a doença de Parkinson quando comparadas àquelas sem esse histórico de exposição. Nos modelos animais, os camundongos expostos ao pesticida desenvolveram alterações motoras e apresentaram perda de neurônios produtores de dopamina, as mesmas células que são progressivamente perdidas em pessoas com Parkinson.

Os pesquisadores também observaram sinais de inflamação cerebral e acúmulo anormal da proteína alfa-sinucleína, uma característica central da patologia da doença. Nos experimentos com peixes-zebra, foi identificado que o clorpirifós interfere na autofagia, um processo essencial de limpeza celular responsável por eliminar proteínas danificadas. Quando esse mecanismo foi restaurado ou quando a alfa-sinucleína foi removida, os neurônios mostraram maior proteção contra os danos.

Esses achados fornecem uma explicação biológica para a associação observada nos dados humanos, reforçando a plausibilidade causal entre a exposição ao pesticida e o desenvolvimento da doença.

Implicações para o envelhecimento e a saúde pública

Ao identificar o clorpirifós como um fator ambiental específico associado ao risco de Parkinson, o estudo contribui para ampliar o debate sobre como as exposições ambientais ao longo do curso da vida podem impactar o envelhecimento cerebral. Os autores destacam que, embora o uso do pesticida tenha sido reduzido nos Estados Unidos, muitas pessoas foram expostas no passado, e pesticidas com características semelhantes continuam sendo amplamente utilizados.

Os resultados também apontam a disfunção da autofagia como um possível alvo para o desenvolvimento de estratégias terapêuticas futuras, com potencial para proteger neurônios vulneráveis. Além disso, o estudo sugere que pessoas com histórico de exposição ao clorpirifós podem se beneficiar de um acompanhamento neurológico mais atento.

Para o neurologista Jeff M. Bronstein, professor da UCLA Health e autor sênior do estudo, os achados reforçam a importância de identificar fatores ambientais específicos associados à doença. “Este estudo estabelece o clorpirifós como um fator de risco ambiental específico para a doença de Parkinson, e não apenas os pesticidas como uma classe geral. Ao demonstrar o mecanismo biológico em modelos animais, mostramos que essa associação provavelmente é causal”, afirma.

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Ao integrar evidências populacionais e laboratoriais, a pesquisa reforça a necessidade de políticas de prevenção, monitoramento e regulação que considerem os efeitos de exposições ambientais de longo prazo, um tema central para pensar o envelhecimento com mais saúde e dignidade.

E no Brasil?

No Brasil, a doença de Parkinson não é de notificação compulsória, o que dificulta a obtenção de dados oficiais abrangentes sobre sua ocorrência em todo o território nacional. Ainda assim, estimativas baseadas em pesquisas populacionais extensas oferecem um panorama mais claro da situação epidemiológica da doença no país.

De acordo com um estudo nacional representativo que utilizou dados da coorte ELSI-Brasil, um levantamento sistemático de saúde feito com indivíduos brasileiros com 50 anos ou mais, a prevalência da doença de Parkinson nessa faixa etária foi estimada em cerca de 0,84%, padrão que aumenta significativamente com a idade. Nos grupos mais velhos, por exemplo, os números chegam a 2,75% entre pessoas com 80 anos ou mais.

Com base nas projeções demográficas do Brasil, os pesquisadores estimam que aproximadamente 535 mil pessoas viviam com Parkinson em 2024. Esse número pode chegar a 750 mil até 2034, 1 milhão até 2046 e cerca de 1,25 milhão até 2060, caso as taxas de prevalência se mantenham e a população continue envelhecendo.

Esses dados confirmam que a prevalência da doença aumenta de forma expressiva com o avanço da idade e que o crescimento da população idosa tende a elevar o número absoluto de pessoas afetadas pela condição nas próximas décadas. Esse cenário reforça a necessidade de políticas públicas voltadas ao diagnóstico precoce, ao acompanhamento contínuo e ao cuidado integral das pessoas com Parkinson, bem como de estratégias que considerem fatores ambientais, comportamentais e sociais no enfrentamento da doença.

Notas
[1] A substância negra (SN) é um núcleo dopaminérgico do mesencéfalo, que desempenha um papel na modulação do movimento motor e das funções de recompensa como parte do circuito dos gânglios da base.
[2] A dopamina é um neurotransmissor responsável por levar informações para várias partes do corpo e, quando é liberado provoca a sensação de prazer e aumenta a motivação.


(*) Sob orientação de Beltrina Côrte – Jornalista, CEO do Portal do Envelhecimento. E-mail: beltrina@portaldoenvelhecimento.com.br

Foto de Rollz International/pexels.


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Ana Beatriz Ferraz
Ana Beatriz S. Ferraz

Ana Beatriz S. Ferraz é bacharelanda em Gerontologia pela Universidade de São Paulo. Atualmente é estagiária no Portal do Envelhecimento e Longeviver. www.linkedin.com/in/ana-beatriz-s-ferraz-a3a7a2132.

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Ana Beatriz S. Ferraz é bacharelanda em Gerontologia pela Universidade de São Paulo. Atualmente é estagiária no Portal do Envelhecimento e Longeviver. www.linkedin.com/in/ana-beatriz-s-ferraz-a3a7a2132.

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