Envelhecer, afinal, pode não ser o processo de perder o que fomos — mas de nos tornarmos, com mais consciência, aquilo que sempre poderíamos ter sido.
Um exercício que pode ser desconfortável para muitos é olhar fotografias antigas. Há quem se decepcione. Eu não. Eu apenas penso que, se fui um jovem bonito, hoje sou um sênior igualmente interessante — com outras linhas, outras curvas, outras histórias marcadas no rosto.
O corpo muda. Isso é inegociável. Rugas aparecem, músculos cedem, o vigor físico negocia novos termos com o tempo. Mas há uma pergunta que me acompanha há anos, talvez desde que comecei a envelhecer com mais consciência: e o cérebro?
“Por fora eu sou enrugada, mas por dentro ainda sou lisinha”, dizia minha mãe, hoje com cem anos, com um pouco menos de lucidez, mas com uma saúde quase impossível para sua idade, comprovada em todo exame clínico que faz.
Durante mais de quarenta anos fui professor. Essa profissão me deu um privilégio curioso: conviver permanentemente com jovens. Para não me tornar obsoleto diante deles, precisei fazer algo que hoje a ciência confirma como essencial — aprender continuamente. Mudar abordagens, atualizar repertórios, reinventar a linguagem. Fiz isso por necessidade. Só mais tarde entendi que estava, sem saber, treinando meu cérebro para continuar vivo.
Na década de noventa, vivi um momento singular. A internet começava a se expandir, a lógica das redes se impunha ao mundo e, discretamente, a neurociência começava a revelar algo revolucionário: o cérebro não é uma estrutura rígida condenada à decadência. Ele é dinâmico. Adaptável. Plástico.
Eu estava próximo dos cinquenta anos quando essas ideias começaram a ganhar forma. E tive o privilégio de observá-las não apenas nos livros, mas na vida.
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Minha mãe é o melhor exemplo. Já octogenária, decidiu iniciar uma atividade improvável: teatro. Tornou-se atriz. Frequentava ensaios, decorava textos, enfrentava palcos. Tudo isso com uma limitação auditiva significativa. Como resolvia? Decorava não apenas suas falas, mas as de todos os colegas, antecipando o momento exato de entrar em cena.
Isso não é apenas uma boa história. É neuroplasticidade em estado puro. O cérebro, quando desafiado, responde. Cria caminhos. Reorganiza-se. Compensa perdas. Reinventa possibilidades.
Mas há um outro lado dessa história. Durante a pandemia, já com mais de noventa anos, minha mãe foi privada daquilo que mais alimentava sua vitalidade: o convívio, o movimento, a troca. O isolamento cobrou seu preço. O cérebro, sem estímulos, sem interação, sem desafios, começou a desacelerar.
A plasticidade existe — mas exige uso.
Foi também observando isso que comecei a me preparar para a aposentadoria. Não como um fim, mas como uma transição de projeto. Se durante anos ajudei jovens a desenvolverem ideias, que projeto eu desenvolveria quando não tivesse mais alunos?
Aprendi algo fundamental: a arte de bem viver começa com uma boa coleção de perguntas.
Foi uma dessas perguntas que me reconectou com um antigo desejo: escrever. Sempre escrevi, mas sem compromisso. Até entender que escrever não era apenas um talento eventual, mas uma possibilidade concreta de reinvenção.
Em vez de envelhecer escrevo poemas.
Rejuvenesço a cada verso.
Não há tempo para as duas coisas, são incompatíveis.
Quem escreve não vê o tempo passar.
(Paulo Venthura)
A neurociência, que naquele momento já ocupava espaço no debate contemporâneo, parecia sussurrar uma resposta simples e poderosa: continue aprendendo.
Aprender não é um privilégio da juventude. É uma necessidade da vida. Aprender um idioma. Aprender a usar uma tecnologia. Aprender a escutar melhor. Aprender a lidar com as próprias emoções. Tudo isso é treino cerebral.
Durante muito tempo acreditou-se que o cérebro envelhecia como uma máquina que se desgasta. Hoje sabemos que ele se comporta muito mais como uma cidade: algumas rotas ficam congestionadas, outras se deterioram, mas novos caminhos podem ser abertos. Há reorganização, adaptação, reconfiguração.
A juventude tem velocidade. A maturidade tem arquitetura.
Talvez por isso um jovem aprenda rapidamente a usar um aplicativo, enquanto alguém mais velho leve mais tempo. Em compensação, a pessoa madura tende a compreender melhor o sentido daquele uso, suas implicações, suas escolhas.
Envelhecer, nesse sentido, não é perder capacidade. É transformar a forma de utilizá-la. Isso se torna ainda mais evidente em tempos de rápidas transformações tecnológicas. A inteligência artificial, por exemplo, exige algo que a maturidade costuma oferecer com mais consistência: capacidade de julgamento, repertório, senso crítico.
Fazer boas perguntas — e isso aprendemos com o tempo — é metade da resposta.
Ao longo dos anos, fui também incorporando práticas que hoje são amplamente recomendadas, mas que, mais do que regras, são escolhas de vida: atividade física regular, leitura constante, escrita frequente, boas noites de sono, convivência com amigos.
Mas acrescento outras, menos óbvias e igualmente importantes:
– Aprender todos os dias, ainda que algo pequeno.
– Cultivar relações que façam sentido — aquelas que aparecem quando precisamos.
– E desenvolver inteligência emocional, essa habilidade silenciosa de administrar o próprio mundo interno. Reduzir o estresse, não alimentar ressentimentos, manter o humor como aliado.
Talvez haja algo pouco dito nos manuais: pessoas lúcidas tendem a ser bem-humoradas.
O cérebro humano muda ao longo de toda a vida. Ele não se apaga como uma lâmpada. Ele se expande como uma biblioteca. Novos conteúdos são incorporados. Talvez demoremos um pouco mais para encontrar um livro específico, mas o acervo continua crescendo.
Essa é a boa notícia. A outra é que ninguém fará esse trabalho por nós. Envelhecer, afinal, pode não ser o processo de perder o que fomos — mas de nos tornarmos, com mais consciência, aquilo que sempre poderíamos ter sido.
E, nesse percurso, o cérebro não é um espectador passivo do tempo. Ele é o autor das possibilidades.
Foto de Birkant Cakar/Pexels
