Dia dos Pais e o envelhecimento masculino

Dia dos Pais e o envelhecimento masculino

Como os homens envelhecem e de que maneira vivenciam a paternidade, a saúde e a vulnerabilidade ao longo da vida?


O Dia dos Pais, comemorado hoje no Brasil, é tradicionalmente marcado por celebrações afetivas, almoços em família e homenagens à figura do provedor e protetor. Queremos aproveitar esta oportunidade para convidar nossos leitores a reflexão mais profunda: como os homens envelhecem e de que maneira vivenciam a paternidade, a saúde e a vulnerabilidade ao longo da velhice?

A literatura científica no campo da Gerontologia tem buscado desconstruir o mito do homem invulnerável. Historicamente moldado por construções sociais de masculinidade hegemônica — caracterizadas pela autossuficiência, distanciamento emocional e pela exigência de força física e econômica —, o homem idoso enfrenta desafios singulares ao transitar para a aposentadoria, ao lidar com alterações físicas e ao redefinir seus papéis familiares.

A invisibilidade da saúde masculina no envelhecimento

Um dos aspectos mais críticos abordados pelas pesquisas acadêmicas é a relação do homem idoso com os serviços de saúde e com o autocuidado. A socialização masculina tradicional frequentemente associa a procura por ajuda médica à fraqueza ou perda de controle, o que gera diagnósticos tardios de doenças crônicas e reduz os índices de prevenção primária.


Estudos publicados na nossa revista técnica-científica chamada Kairós-Gerontologia, por exemplo, destacam que o envelhecimento masculino ainda é atravessado por tabus relacionados à sexualidade, saúde mental e declínio físico. A relutância masculina em frequentar a atenção primária à saúde resulta em maior vulnerabilidade a eventos agudos graves e ao isolamento social na velhice avançada. Estamos falando, portanto, das barreiras culturais e adesão ao cuidado. Esse tem sido um grande desafio para os gestores em políticas públicas.

A implementação da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH), instituída em 2009 pelo Ministério da Saúde (Portaria nº 1.944), busca mitigar essas lacunas, encorajando estratégias de acolhimento que considerem as especificidades subjetivas dos homens, desmistificando o autocuidado como um ato exclusivamente feminino. Essa política foca na saúde dos homens brasileiros entre 20 e 59 anos, com o objetivo de facilitar o acesso aos serviços do SUS e reduzir a mortalidade por meio da prevenção de doenças e fatores de risco. Aqui o desafio está no acolhimento na Atenção Básica, especialmente para os homens após os 60 anos.

Redefinindo a paternidade e os afetos na maturidade

Outro aspecto importante a se falar das masculinidades, é que à medida que o tempo avança, a paternidade ganha novos contornos. O encerramento do ciclo de trabalho formal e a convivência com os filhos já adultos — além da chegada dos netos — abrem espaço para a reconfiguração dos vínculos afetivos e do exercício do cuidado.

Artigos veiculados na Revista Longeviver, por exemplo, apontam que a maturidade oferece aos homens a oportunidade de exercer uma “paternidade ressignificada”. Homens que foram pais ausentes ou distantes devido às exigências do mercado de trabalho frequentemente encontram na sua velhice um momento de reparação e reaproximação interpessoal, resgatando a escuta e a sensibilidade.

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A avosidade surge como um capítulo fundamental nesse processo, permitindo que a afetividade seja vivenciada sem as pressões disciplinares e financeiras que costumam acompanhar a criação dos filhos.


Caminhos para velhices masculinas plurais

Pensar o envelhecimento masculino exige reconhecer que não existe um modelo único de velhice. As masculinidades na maturidade são plurais e atravessadas por questões de classe, raça, orientação sexual e condições funcionais. Para efeitos de reflexão destacamos alguns aspectos, quanto a:

Identidade e Trabalho: Com a perda do papel social de provedor pós-aposentadoria surge a oportunidade de construir projetos de vida focados no bem-estar e no lazer comunitário.

Saúde Integral: Ante o desafio da negligência de sintomas físicos e mentais por estigma, há a oportunidade de fortalecer a prevenção e sensibilização para a saúde mental.

Vínculos Afetivos: Se o desafio encontrado é a dificuldade histórica de expressão interpessoal e emocional, na velhice há a oportunidade de resgatar o cuidado intergeracional e vivência afetiva na avosidade e paternidade.

Neste Dia dos Pais, homenagear os homens que envelhecem significa, acima de tudo, garantir-lhes o direito à vulnerabilidade, ao cuidado e à construção de uma longevidade com dignidade e afeto.

Foto de Nautilus Ph/Pexels.


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