A velhice, quando atravessada pelas desigualdades sociais, é marcada por sentimentos de limitação, falta de perspectivas e dificuldade de transformar a própria realidade.
Por Sara Alves Bernardes (*)
Em 1960, Carolina Maria de Jesus, mulher negra e moradora da Favela do Canindé, em São Paulo, publicou Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, obra em que relata, por meio de seu cotidiano, a realidade vivenciada por milhares de pessoas que habitam nas periferias paulistanas. Ela é uma das primeiras escritoras negras do Brasil, e considerada uma das mais importantes do país. Ao longo da obra, Carolina apresenta uma das realidades mais marcantes da literatura brasileira ao afirmar que a favela constitui o “quarto de despejo” da sociedade paulistana, evidenciando que a população pobre é colocada em um espaço de exclusão e invisibilidade social.
Segundo o Dicionário de Favelas Marielle Franco, o livro Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada é composto por diários escritos pela autora (nascida em 14 de março de 1914) entre os anos de 1955 e 1960. Durante a escrita dos diários (1955–1960) Carolina Maria de Jesus tinha entre 41 e 45 anos de idade (completando 46 anos no final das anotações, em março de 1960). Na publicação da obra (agosto de 1960), ela estava com 46 anos. Sua obra e vida permanecem objetos de diversos estudos, tanto no Brasil quanto no exterior.
A autora viveu boa parte de sua vida na favela sustentando a família como catadora de papéis. E, ao mesmo tempo, registrava o cotidiano da comunidade onde morava nos cadernos que encontrava no material que recolhia. Em um desses registros está o relato de um desabafo de outra mulher periférica, que diz: “Se eu fosse jovem eu não residia nesta favela nem um dia. Mas eu já sou velha. E velho não se governa.” Essa fala revela que a velhice, quando atravessada pelas desigualdades sociais, pode ser marcada por sentimentos de limitação, falta de perspectivas e pela dificuldade de transformar a própria realidade.
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Foto: DICIONÁRIO de Favelas Marielle Franco. Carolina Maria de Jesus autografando seu livro Quarto de Despejo em 1960.
Envelhecimento periférico
Essa reflexão dialoga diretamente com a crítica de Guita Debert (1999) acerca da reprivatização do envelhecimento. Embora seja fundamental incentivar o autocuidado, a autonomia e práticas que favoreçam um envelhecimento ativo e saudável, não é possível atribuir essa responsabilidade exclusivamente ao indivíduo. A reprivatização do envelhecimento desloca para a pessoa idosa a obrigação de envelhecer bem, como se esse processo dependesse apenas de escolhas pessoais, desconsiderando fatores estruturais, como moradia, renda, acesso aos serviços de saúde, mobilidade, lazer, educação e políticas públicas.
Nesse contexto, compreender o envelhecimento periférico significa reconhecer que envelhecer de forma saudável não depende apenas da vontade individual, mas também das oportunidades construídas ao longo da vida. Enquanto regiões centrais concentram equipamentos públicos, atividades de lazer, serviços especializados e programas voltados à população idosa, muitas periferias convivem com a ausência desses recursos, dificultando o acesso a direitos que deveriam ser universais. Assim, o envelhecimento ativo não deixa de existir na periferia, mas encontra limites impostos pelas desigualdades territoriais e sociais.
Essa discussão também pode ser relacionada ao filme O Último Azul (2025), no qual Teresa, personagem principal da obra, aos 77 anos, passa a ter sua autonomia restringida por uma política governamental que determina seu afastamento do convívio social. Sua história demonstra que, mesmo na velhice, a liberdade precisa ser conquistada. Sua autonomia deixa de ser um direito plenamente garantido e passa a depender das condições sociais e econômicas que lhe permitem viver conforme seus próprios desejos.
Essa realidade aproxima-se da vivida por muitas mulheres idosas periféricas, que continuam sustentando suas famílias, cuidando de filhos, netos e companheiros ou permanecendo no mercado de trabalho porque a aposentadoria, embora seja um direito, frequentemente não garante condições dignas de sobrevivência.
Dessa forma, pensar o envelhecimento periférico não significa olhar apenas para aquelas pessoas que já são idosas, mas compreender o envelhecimento como um processo que se inicia ao longo de todo o curso da vida. As crianças, adolescentes e adultos que hoje vivem nas periferias também envelhecem nesses territórios caso as desigualdades continuem sendo reproduzidas.
Portanto, promover um envelhecimento saudável exige muito mais do que estimular hábitos individuais, exige políticas públicas que reduzam desigualdades e garantam acesso à saúde, educação, mobilidade, cultura, lazer, moradia, segurança, saneamento… Afinal, não se constrói uma velhice digna apenas na velhice, ela é construída ao longo de toda a vida.
Vale pontuar que o envelhecimento não é um processo homogêneo. Assim como Teresa, em O Último Azul, e Carolina Maria de Jesus, escritora de Quarto de Despejo, existem inúmeras pessoas idosas que, neste exato momento, continuam lutando diariamente para sobreviver à fome, ao excesso de trabalho, à violência, às desigualdades e às diversas formas de exclusão social. Para muitas, envelhecer ainda significa resistir.
Ao discutir a reprivatização do envelhecimento, como propõe Debert (1999), não estamos falando apenas da autonomia individual ou de hábitos saudáveis. Estamos questionando a ideia de que envelhecer com qualidade depende exclusivamente das escolhas do sujeito, quando, na realidade, esse processo é profundamente marcado pelas desigualdades sociais e pela garantia ou negação de direitos. Um envelhecimento significativo não deveria ser um privilégio, mas um direito assegurado a todas as pessoas.
Assim, tanto a população idosa que vive na Cohab Teotônio Vilela[1] quanto aquela que mora em Higienópolis deveria ter acesso às mesmas oportunidades de envelhecer com dignidade, autonomia, participação social e qualidade de vida. O envelhecimento ativo não deve ser um privilégio de determinados territórios ou classes sociais, ele deve ser uma possibilidade concreta para todos aqueles que envelhecem, independentemente de sua condição socioeconômica ou do lugar onde vivem.
Por fim, cabe ressaltar a dificuldade da população periférica em se permitir acessar esses espaços de lazer, convivência e participação social. Muitas vezes, essa população encontra dificuldades para vivenciar o ócio em razão da necessidade constante de exercer algum tipo de trabalho. Além disso, em muitos casos, nunca houve acesso a essas possibilidades e, quando esse acesso ocorre, esses espaços parecem não ter sido pensados para ela.
Esse cenário se intensifica quando falamos de pessoas que nasceram na periferia e precisaram trabalhar desde cedo. A ausência histórica de direitos faz com que muitos cresçam acreditando que tais experiências não lhes pertencem ou sequer são necessárias. Desse modo, essa população permanece excluída por anos e, por viver às margens dos centros urbanos, frequentemente tem suas necessidades, direitos e formas de existência invisibilizados.
Notas
[1] Bairro onde vivi por 19 anos. A partir dessa vivência, percebi o quanto a periferia é negligenciada no processo de envelhecimento por conta das desigualdades sociais.
Referências
CAROLINA Maria de Jesus. In: DICIONÁRIO de Favelas Marielle Franco. [S. l.], 30 set. 2025. Disponível em: https://wikifavelas.com.br/index.php/Carolina_Maria_de_Jesus. Acesso em: 31 jul. 2026.
DEBERT, Guita Grin. A reinvenção da velhice: socialização e processos de reprivatização do envelhecimento. São Paulo: EDUSP, 1999.
JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. 10. ed. São Paulo: Ática, 2015.
O ÚLTIMO azul. Direção: Gabriel Mascaro. Brasil: Desvia; Cinevinay; Globo Filmes, 2025. Filme.
(*) Sara Alves Bernardes, estudante de Gerontologia pela Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP), fotógrafa amadora. E-mail: sara123pj@gmail.com
Foto destaque: produzida por Sara Alves Bernardes (2026). Ela representa a resistência cotidiana de pessoas idosas em contextos de desigualdade, evidenciando que mesmo em meio à adversidade e ao caos urbano, há garra no processo de envelhecer na vivência periférica.
