A economia invisível das mulheres idosas: quem administra a vida da família?

A economia invisível das mulheres idosas: quem administra a vida da família?

São as mulheres idosas que administram recursos, estabelecem prioridades, conciliam necessidades e garantem que a casa continue funcionando.


Por Maria Luiza Viana de Aquino (*)

Imagine uma mulher de 68 anos organizando a compra do mês. Antes de sair de casa, ela faz as contas: separa o dinheiro da aposentadoria, soma a contribuição de um dos filhos, calcula quanto será necessário para comprar alimentos, pagar a conta de energia, adquirir medicamentos e garantir as fraldas geriátricas da sogra de mais de 90 anos. Também reserva uma quantia para ajudar um neto e deixa uma pequena margem para alguma emergência que, quase sempre, acaba acontecendo.

Essa cena apareceu repetidamente durante uma pesquisa[1] realizada com mulheres idosas participantes de um projeto social na periferia de Fortaleza (CE). Longe de vivenciarem uma velhice marcada apenas pelo descanso ou pela dependência, muitas delas ocupam um lugar central na organização da vida familiar. São elas que administram recursos, estabelecem prioridades, conciliam necessidades e garantem que a casa continue funcionando.

Trata-se de um contexto que dialoga com o conceito de geração sanduíche, criado na década de 1980 para descrever adultos que, simultaneamente, cuidam dos filhos e dos pais idosos. As entrevistas, entretanto, sugerem um movimento interessante: para muitas mulheres, esse papel não termina na meia-idade. Ele atravessa a velhice e, em alguns casos, torna-se ainda mais complexo.

O envelhecimento da população brasileira costuma ser apresentado em números. O Censo Demográfico de 2022 mostrou que mais de 32 milhões de brasileiros já têm 60 anos ou mais, representando 15,6% da população. Em apenas doze anos, o número de pessoas com 65 anos ou mais cresceu 57,4%. Ao mesmo tempo, a expectativa de vida continua aumentando, prolongando o tempo em que diferentes gerações convivem dentro das mesmas famílias.

Por outro lado, Dados do IBGE demonstram que a proporção de jovens entre 25 e 34 anos vivendo com os pais aumentou nas últimas décadas, fenômeno associado ao prolongamento dos estudos, ao adiamento da constituição de novas famílias e às dificuldades econômicas enfrentadas por essa geração. Popularmente, esse cenário ficou conhecido como geração canguru, indicando a convivência entre diferentes gerações por mais tempo devido à saída dos filhos da casa dos pais ocorrer cada vez mais tarde.

A soma desses fenômenos produz essa realidade que ainda é pouco visível: muitas mulheres com mais de 60 anos tornaram-se as principais gestoras do cotidiano familiar. Administram não apenas dinheiro, mas também relações, cuidados, prioridades e expectativas de diferentes gerações. Mais do que consumidoras, revelam-se articuladoras silenciosas da vida doméstica.

Quem faz a vida da família acontecer?

Quando perguntadas sobre seus hábitos de consumo, muitas entrevistadas acabaram falando muito menos sobre compras e muito mais sobre responsabilidades. As conversas revelaram que consumir, para elas, significa tomar decisões diárias sobre como distribuir recursos limitados entre as necessidades de toda a família.

Uma das participantes descreveu como organiza sua aposentadoria para garantir a alimentação da casa, pagar medicamentos, manter as contas em dia e custear os cuidados com a sogra diagnosticada com Alzheimer. Outra contou que continua produzindo artesanato para complementar a renda familiar, enquanto outras relataram ajudar financeiramente filhos e netos sempre que necessário.

Essas histórias mostram que o papel dessas mulheres vai muito além da administração do próprio orçamento. Elas calculam despesas, antecipam imprevistos, estabelecem prioridades e distribuem recursos de acordo com as necessidades de cada membro da família. Em muitos casos, são elas que mantêm o delicado equilíbrio entre diferentes gerações, conciliando demandas que vão do cuidado com familiares muito idosos ao apoio oferecido a filhos e netos.

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Muito além da aposentadoria

Entre as mulheres entrevistadas, a aposentadoria não é utilizada apenas para atender às próprias necessidades. Ela ajuda a colocar alimento na mesa, contribui para o pagamento das contas da casa, financia medicamentos e tratamentos de saúde e, muitas vezes, serve de apoio para filhos e netos em momentos de dificuldade. Em alguns lares, esse recurso é somado à aposentadoria de outro familiar, à renda eventual dos filhos e aos pequenos trabalhos realizados pela própria idosa, formando um orçamento coletivo que precisa ser constantemente reorganizado para atender às necessidades de todos.

Ao administrar esses recursos, essas mulheres fazem muito mais do que controlar um orçamento. Elas conciliam diferentes demandas familiares, distribuem prioridades, organizam o tempo, articulam cuidados e administram, muitas vezes, os próprios conflitos que surgem da convivência entre várias gerações. O dinheiro é apenas uma das dimensões dessa gestão cotidiana, que envolve decisões permanentes sobre quem precisa de ajuda, quais despesas podem esperar e como garantir o bem-estar coletivo com recursos quase sempre limitados.

Embora esse conjunto de atividades exija planejamento, experiência, capacidade de negociação e tomada constante de decisões, raramente é percebido como trabalho. Por acontecer dentro de casa e estar historicamente associado ao papel feminino, esse esforço permanece quase invisível, apesar de ser fundamental para o funcionamento cotidiano de inúmeras famílias.

As entrevistas convidam, portanto, a rever uma imagem bastante difundida sobre a velhice. Durante muito tempo, essa etapa da vida foi retratada como um período marcado pela dependência e pela redução das responsabilidades. As histórias ouvidas durante a pesquisa mostram uma realidade mais complexa. Para muitas mulheres, envelhecer não significa deixar de cuidar; significa cuidar de outra forma. Mais do que aposentadas, consumidoras ou beneficiárias de políticas públicas, elas se tornam articuladoras da vida cotidiana, responsáveis por conectar recursos, pessoas e necessidades.

Reconhecer esse papel é também reconhecer uma forma de trabalho que sempre existiu, mas que permanece, em grande parte, invisível. Talvez seja esse um dos principais aprendizados desta pesquisa: antes de serem vistas apenas como destinatárias de cuidados, muitas mulheres idosas são, diariamente, aquelas que sustentam o cuidado, organizam a vida familiar e garantem que diferentes gerações continuem encontrando, dentro de casa, um lugar de proteção e pertencimento.

Nota
[1] Artigo vinculado à pesquisa “Práticas de consumo de pessoas idosas e seus sentidos no cotidiano”, selecionada na 5ª edição do Edital Acadêmico de Pesquisa: Envelhecer com Futuro, realizado pelo Itaú Viver Mais em parceria com o Portal do Envelhecimento e Longeviver.

(*) Maria Luiza Viana de Aquino – Mestra em Comunicação, Especialista em Marketing com larga experiência como gestora e planejadora de projetos na área e Pesquisadora em estudos do consumo. Especialista em Educação 4.0, Coordenadora de Curso, docente de nível superior há mais de 10 anos e experiência em planejamento de projeto em Design Instrucional. Pesquisadora selecionada pelo Edital Acadêmico Envelhecer com Futuro/2026. E-mail: malu_vianaaquino@hotmail.com

Foto de Anna Shvets/Pexels


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