No próximo dia 3/8 teremos a 10ª edição do Congresso Municipal sobre Envelhecimento Ativo de São Paulo, cujo tema será direitos e memórias. Inscrições abertas.
Por Ricardo Pessoa (*)
Você já pensou em seu legado e sua trajetória? Na importância que sua jornada pode ter para outros? E na possibilidade de ser completamente apagada?
O Congresso Municipal sobre Envelhecimento Ativo de São Paulo – Cidade Amiga do Idoso, que terá sua 10ª edição em 03 de agosto próximo, tem como tema central a memória e a jornada das pessoas idosas.
Este artigo trata do resgate da história do Congresso, uma viagem pela memória e pelo envelhecimento ativo desse processo e das reflexões que a arqueologia provocou.
O Congresso
Se você está na área de longevidade, o congresso é uma referência obrigatória. Foi criado em 2011 por Gilberto Natalini, então vereador, para fomentar a discussão de como preparar a cidade para o inevitável boom no número de pessoas idosas.
O congresso é um marco na arena da longevidade. Sempre capitaneado pelos incansáveis Gilberto Natalini e Luciana Feldman, e com a participação 50 entidades apoiadoras.
Nasceu (e continua) com uma característica que o diferencia até hoje no mundo dos movimentos sociais: participação engajada de organizações, ativistas, empresas e órgãos de governo.
CONFIRA TAMBÉM:
Hoje são mais de 60, dentre as quais sou participante orgulhoso de três: a Casa Séfora, o InovaSenior e a Serena. Não conheço outro movimento com essa abrangência, comprometimento, alcance e, com perdão do cacoete, longevidade.
Mais que papo, resultados
Ao longo de suas 9 edições, o Congresso transformou debates teóricos em resultados práticos e avanços legislativos significativos para a população idosa de São Paulo: como a Lei do Envelhecimento Ativo (Lei 14.905), as mais de 2000 Academias ao Ar Livre, e o programa de Capacitação de Cuidadores que já formou mais de 5.000 profissionais.
O tema deste ano é Direitos e Memória: o valor da jornada das pessoas idosas.
Para a edição deste ano, com o apoio da equipe da Serena (em especial Regina Farber e Marcos Moura), eu e Carmen Silvia Calandria Ponce embarcamos em uma viagem para produzir o site do congresso e resgatar nossa história.
As edições do Congresso demonstram uma contínua antecipação de pautas ligadas à longevidade. Temas como o trabalho sênior, inclusão digital, mobilidade urbana, clima, a desigualdade do envelhecer entre os bairros foram discutidos. Esta última, inclusive, trabalhando os dados de pesquisas como o Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento (SABE), subsidiando a proposição de distribuição de recursos públicos onde a infraestrutura é menos “amiga do idoso”.
A jornada rumo à 10ª. edição do Congresso
Esta edição foca no direito, na memória e no legado, na importância da jornada das pessoas idosas. Um dia de discussões, na Câmara Municipal de São Paulo, tratando de um tema que me é especialmente caro.
Participo da organização do Congresso desde a IV edição, em 2018. Eu e Carmen Silvia Calandria Ponce, assumimos a tarefa de construir um site que preservasse a memória do congresso.
O resultado desse trabalho está em https://congressoenvelhecimentosp.com.br
E é a experiência da construção desta página que quero trazer a vocês, e suas reflexões.
Fase I – A Arqueologia
Começamos por localizar links na internet que ainda estivessem vivos. Usamos o Perplexity para obter uma primeira lista de referências e passamos para uma deep research no NotebookLM.
Alguns resultados dessa primeira fase nos animaram, trazendo dados interessantes em um vídeo produzido pela IA que continha tinha erros, mas nada que não pudéssemos consertar conversando com os dados e aumentando a quantidade de fontes (doce e ledo engano).
Produzimos relatórios e levamos a duas LLM, o Claude e o ChatGPT. O objetivo agora era gerar um conteúdo que sintetizasse a linha do tempo, já desenhando o site.
Ao produzir planilhas sintetizando as informações, notou-se o primeiro problema: nem todos os congressos tinham informação. Dos três primeiros, pouco ou nada encontramos.
Passamos a focar nas edições das quais não tínhamos muita informação. Os sites já não existiam, foi preciso apelar para a Wayback Machine, a memória da internet, para localizar pedaços da informação.
A partir deles, conseguimos gerar mais links e, somando aos que tínhamos descoberto, voltamos ao NotebookLM para gerar uma nova versão, dessa vez já pensando no design da página. Geramos resultados como este:

Como diriam os gringos, “pretty cool”, não? Não, na verdade. As imagens tinham de ser editadas, pois continham erros, e o NotebookLM tem poucas alternativas para ajuste de produtos. E tentar fazer isso via prompt era um horror, enlouquecedor.
Retornamos às LLMs para tentar gerar uma planilha-resumo. Quem tentou fazer isso com o GPT sabe a loucura que é. Reapreendi a usar o Markdown (que já havia colocado na prateleira do conhecimento a ser reciclado) e, depois de muito, chegamos a três resultados que resumiam o que tínhamos conseguido levantar: esta planilha e estes dois NotebookLM Edições I a V e Edições VI a IX.
O Site
A partir daí, passamos ao design do site. Aqui, tomamos outros cuidados, para evitar que pessoas interessadas nesse conteúdo tivessem as mesmas dificuldades que nós tivemos.
Primeiro ponto: Lina Menezes providenciou o registro de uma URL nossa, e garante a nossa continuidade operacional.
Segundo: o site não deveria depender de pagamentos ou infraestrutura paga, pois muito provavelmente este pagamento seria esquecido (o Saber para Cuidar perdeu seu canal do YouTube por esquecimento da renovação do e-mail). Optamos por um site no Wix, gratuito, que permanecesse ativo e editável no futuro.
Terceiro: colocar o máximo de informação em texto, permitindo sua fácil indexação pelas máquinas de busca e pelos LLMs que as sucedem hoje.
O resultado está em https://congressoenvelhecimentosp.com.br.

Reflexões
A avalanche de conteúdo que geramos a cada minuto nos apaga pelo excesso. Sempre me lembro de uma figura que Daniela Machado apresentou em uma das edições do congresso, quando fizemos uma oficina sobre fake news: procurar informação naquela época pré-LLM já era como matar a sede em um hidrante com uma colherinha.
Hoje, colocamos as LLMs como torneira para regular a saída desse hidratante. Só que essa torneira: 1) quer te agradar; 2) gera uma resposta para tudo; e 3) usa estatística para determinar o que é certo ou errado.
Isso transforma o real e fictício em conceitos probabilísticos. Se você não tem relevância a ponto de influenciar a balança para o seu lado, é simplesmente apagado.
Como bem coloca Flavio Ferrari quando fala sobre o sexto poder, temos também de cuidar da reputação algorítmica, cuidar da imagem que os algoritmos têm de você e das lembranças de seu legado.
Se queremos manter nosso legado, precisamos ativamente registrá-lo e promovê-lo, sob pena de termos apagada e usurpada a história de nossas vidas.
O fato é que está cada vez mais difícil aprender história para seguir o conselho de Churchill, que dizia que “aquele que não aprende com a história está condenado a repeti-la.”

Serviço
10º. Congresso Municipal sobre Envelhecimento Ativo de São Paulo – Cidade Amiga do Idoso
Tema: Direitos e Memória: o valor da jornada das pessoas idosas.
Data: 03 de agosto (próxima segunda-feira)
Horário: das 9 às 17 horas
Local: Câmara Municipal de São Paulo – Plenário 1º de Maio (Viaduto Jacareí, 100, Bela Vista, SP)
Evento gratuito
Informações e inscrições: bit.ly/Envelhecimentoativo26
(*) Ricardo Pessoa – Coordenador e membro-fundador do InovaSenior, instituto criado por alumni da Politécnica-USP e do ITA para reintegrar engenheiros 60+ à economia, mitigando o “apagão” de engenharia que impede o desenvolvimento do país. Também é Co-Founder da Casa Séfora (economia compartilhada e longevidade – https://www.instagram.com/casa.sefora) e da Serena (https://www.serena.social.br, ia para cuidado em Alzheimer). Co-autor do livro ‘E aí? Preparado para viver 100 anos?’ (https://loja.uiclap.com/titulo/ua181043).
Atualizado às 18h22
