O envelhecimento feminino e o novo padrão da magreza extrema: imposição estética ou imposição de fragilidade?

O envelhecimento feminino e o novo padrão da magreza extrema: imposição estética ou imposição de fragilidade?

O que antes aparecia como tendência entre mulheres jovens, a magreza extrema, passou a ser observado também entre mulheres envelhescentes e idosas.


Monica Tritone Medeiros (*)

De um tempo para cá, a estética da magreza extrema em corpos femininos tem ocupado espaço central na mídia, nas redes sociais, na moda e no entretenimento. O que antes aparecia como tendência entre mulheres jovens passou a ser observado também entre mulheres envelhescentes e idosas, muitas delas figuras públicas, atrizes, apresentadoras e influenciadoras. De acordo com Garcia e Silveira (2024), nos últimos anos tem se observado o retorno da valorização da magreza extrema na indústria da moda, evidenciado pela predominância de corpos muito magros e pela redução da diversidade corporal nas passarelas de desfiles.

Esse movimento resgata padrões estéticos de décadas anteriores, como dos anos 1990 e que agora é potencializado pelas redes sociais, que difundem conteúdos associados à magreza como ideal de beleza, contribuindo para a insatisfação corporal e para o aumento dos riscos à saúde física e mental das mulheres. Portanto, o assunto tornou-se um fenômeno cultural que merece reflexão.

Mais do que perguntar por que tantas mulheres estão emagrecendo, talvez seja preciso perguntar o que significa, socialmente, um corpo feminino cada vez mais magro, especialmente quando esse corpo é velho. A questão não parece estar apenas na busca por saúde ou longevidade, mas na permanência de uma lógica histórica que regula os corpos das mulheres e define quais formas de existir são consideradas aceitáveis.

Nesse sentido, Beauvoir (2018) já alertava que o envelhecimento feminino costuma ser vivido sob o peso do olhar social. A mulher idosa frequentemente deixa de ser percebida como sujeito pleno e passa a ser tratada como alguém que deve tornar-se discreta, silenciosa e pouco visível. O corpo envelhecido, portanto, não é apenas um corpo biológico: é também um corpo socialmente construído e regulado.

Corroborando com este pensamento, Wolf (2018) apontou que a cobrança pela beleza faz com que as mulheres necessitem da aprovação da sociedade, promovendo uma fragilidade à própria autoestima devido a toda exposição submetida. Quando a sociedade espera que a mulher ocupe menos espaço, física, simbólica e politicamente, o ideal da extrema magreza pode funcionar tanto como metáfora quanto como expressão concreta dessa redução. Essa perspectiva torna-se especialmente relevante quando observamos o contexto contemporâneo. Em diferentes partes do mundo, assiste-se ao fortalecimento de discursos conservadores que reafirmam papéis tradicionais de gênero e colocam em disputa direitos e conquistas das mulheres.

Historicamente, momentos de ampliação da participação feminina na vida pública costumam ser acompanhados pelo surgimento ou pelo recrudescimento de novas formas de controle sobre seus corpos, comportamentos e modos de existir. Nem sempre esse controle ocorre por meio de leis ou proibições explícitas; muitas vezes, manifesta-se de forma mais sutil, por expectativas culturais, padrões de beleza e ideais de feminilidade que parecem naturais, mas orientam comportamentos e delimitam possibilidades.

Quando observamos mulheres mais velhas no cinema, nas novelas, na publicidade e na moda, percebemos um paradoxo. Celebra-se o discurso do envelhecer bem, mas esse envelhecimento frequentemente só é reconhecido como bem-sucedido quando acompanhado de um corpo cada vez mais magro, jovem e controlado. A diversidade dos corpos envelhecidos desaparece, substituída por uma imagem de velhice quase sem marcas, sem volume, sem excesso e, por vezes, sem potência. Fin, Portella e Scortegagna (2017) destacam que a percepção da aparência feminina influencia a autoestima, a qualidade de vida e as relações sociais ao longo de toda a vida.

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Talvez o ponto central seja este: o novo padrão da magreza extrema não represente apenas um ideal estético, mas também a valorização de um corpo associado à fragilidade. Um corpo feminino que ocupa menos espaço parece ser mais facilmente aceito, menos ameaçador e mais compatível com expectativas tradicionais de feminilidade. Vale perguntar, então, se a crescente valorização da magreza extrema entre mulheres envelhescentes revela apenas uma tendência estética ou se também expressa uma expectativa de contenção, de corpos menores, mais discretos e, simbolicamente, de vozes menos incômodas justamente em uma fase da vida em que muitas mulheres conquistam maior autonomia, experiência e liberdade para ocupar espaços.

Mais do que discutir a magreza, talvez seja hora de discutir a autonomia. A autonomia para envelhecer sem que o corpo feminino continue sendo permanentemente avaliado, corrigido ou enquadrado em novos ideais. Afinal, toda norma que determina como uma mulher deve parecer, em qualquer fase da vida, limita aquilo que o envelhecimento poderia oferecer de mais valioso: a possibilidade de existir com autenticidade, ocupando o espaço que desejar.

Referências
BEAUVOIR, S. de. A velhice. 4 ed. Rio de Janeiro (RJ). Nova Fronteira. 2018. 608 p.
FIN, T. C.; PORTELLA M. R.; SCORTEGNA S. A. Velhice e beleza corporal das idosas: conversa entre mulheres. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia. v.20 n.1. 2017.
GARCIA, C. C.; SILVEIRA, V. R. da. Tamanho zero, a epidemia da magreza. Obra[s] – revista da Associação Brasileira de Estudos de Pesquisas em Moda, S. l.], n. 42, p. 33-53, 2024. Disponível em: https://dobras.emnuvens.com.br/dobras/article/view/1832. Acesso em: 5 jul. 2026.
WOLF, N. O mito da beleza (recurso eletrônico). Rio de Janeiro (RJ). Rosa dos Tempos. 2018. 490 p.

(*) Monica Tritone Medeiros – Doutoranda em Ciências do Envelhecimento pelo PGCE da Universidade São Judas Tadeu e mestre em Psicogerontologia pelo Instituto Educatie de Ensino e Pesquisa. Autora do livro “O Corpo Envelhescente: Percepções de Mulheres a Partir dos 40 anos” (Portal Edições, 2022). E-mail: monicatritone@gmail.com

Foto: estúdio Cottonbro/Pexels


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