O Cárcere do Envelhecimento

O Cárcere do Envelhecimento

Sob a engrenagem capitalista a passagem dos anos é lida como obsolescência programada, e o envelhecer torna-se um defeito de fabricação a ser mascarado ou adiado.


A ferida do espelho

Ao cruzarmos o portal da segunda metade da vida, o calendário deixa de ser contagem para se tornar um veredito. A pergunta sobre a idade converte-se em constrangimento silencioso, aquela poeira que se tenta varrer para debaixo do tapete da conversa. Erguem-se escudos verbais: “meu espírito é jovem”, “a idade está na cabeça”. São preces proferidas diante do espelho, tentativas de provar que, sob o acúmulo das décadas, ainda pulsa um sujeito que se recusa ao esquecimento.

Nessa negociação de bastidores, o termo “velhice” é exilado. Em seu lugar, desfilam eufemismos: “terceira idade”, “melhor idade”… É uma maquiagem linguística que revela, ironicamente, a extensão de nossa negação. Ao empurrarmos a palavra para a margem, empurramos junto o corpo que a carrega, confinando-o a uma invisibilidade decorada com laços de fita.

Essa recusa não nasce no vácuo. Como propõe Jacob Levy Moreno, criador do psicodrama, o homem torna-se veículo de conservas culturais, de formas cristalizadas de agir, sentir e existir que a sociedade sedimenta ao longo do tempo e que o indivíduo reproduz sem questionar, como um ator que decorou o papel mas esqueceu como improvisar. Aplicadas ao envelhecimento, essas conservas ditam que a velhice é perda e declínio. O envelhecer deixa de ser um ato de criação para tornar-se a reprodução mecânica de um roteiro que nunca escolhemos interpretar.

A internalização do idadismo

O que nasce como construção social infiltra-se, gota a gota, no interior do próprio sujeito. Ao incorporar as conservas culturais sobre a velhice, o indivíduo passa a contemplar-se a partir das mesmas lentes opacas que a cultura usa para sentenciá-la. A rejeição que antes vinha de fora converte-se em refúgio interno, configurando o idadismo autodirigido: processo pelo qual o sujeito volta contra si mesmo o arsenal de valores e expectativas que a sociedade desenhou para o envelhecer.

Esse processo tem um nome preciso no psicodrama: papel cristalizado. Um papel de jovem, produtivo e belo que em algum momento foi genuíno e funcional, mas que, ao perder sua espontaneidade, deixa de ser uma escolha do sujeito para se tornar uma prisão. O papel cristalizado não é apenas um hábito; é uma identidade enrijecida que o indivíduo continua encenando mesmo quando ela já não corresponde à vida que vive. No contexto do idadismo autodirigido, é o papel da juventude perpetuamente reencenado, não por desejo, mas por terror de que, sem ele, não reste nenhum outro palco onde se possa legitimamente existir.

Sob a engrenagem capitalista, esse processo se intensifica: a passagem dos anos é lida como obsolescência programada, e o envelhecer torna-se um defeito de fabricação a ser mascarado ou adiado. Produz-se uma vigilância silenciosa dedicada a apagar os rastros do tempo, como se cada ruga fosse uma falha no sistema. O avanço da idade transmuta-se em um contínuo pedido de desculpas. A pessoa não apenas envelhece, ela se desculpa por persistir.

O impacto dessa violência é concreto. Como detalha o Relatório Mundial sobre o Idadismo da OPAS/OMS, ao internalizar os estereótipos de que a velhice é perda, o sujeito pode ser empurrado para o abuso de álcool e tabaco, dietas não saudáveis e não adesão a tratamentos médicos essenciais. O idadismo atinge metade do mundo e, em sua face autodirigida, é capaz de subtrair quase oito anos de uma vida. Mas os relatórios não alcançam o que se perde pelo caminho: as falas interrompidas, os espaços que deixam de ser habitados, os desejos adiados para um tempo que não chega. O idadismo não mata de um só golpe. Ele desgasta, como a água que consome a pedra.

livro aberto na mão de uma pessoa, que está ao ar livre.
Foto de Karolina Grabowska/pexels

Dorian Gray no palco psicodramático

Pela perspectiva de Moreno, a interpretação legítima nasce do encontro. Como não podemos dialogar diretamente com o autor da obra, este ensaio assume seu caráter exploratório. Buscamos aqui, mais do que definir a intenção de Wilde, utilizar sua narrativa como um palco para discutir o autoidadismo e a busca pela espontaneidade na maturidade.

O pacto

A recusa em habitar o próprio tempo encontra sua face mais cruel na obra de Oscar Wilde. Antes mesmo de selar seu destino trágico, Dorian já manifestava o abismo que cavava entre si e o amadurecimento: “Quanto aos velhos, estou sempre em contradição com eles”. E a cultura ao redor de Dorian não apenas tolerava essa contradição, ela a celebrava:

Um retrato como este colocá-lo-ia muito acima de todos os jovens da Inglaterra e faria muita inveja aos velhos, se é que os velhos são capazes de qualquer emoção.

A frase desvela uma hierarquia etária: a juventude erigida como valor supremo, a velhice sentenciada como perda absoluta da capacidade de sentir. É a conserva cultural em estado puro, e Dorian a absorve como verdade.

No psicodrama, a inversão de papéis é a técnica pela qual o sujeito ocupa o lugar do outro para compreendê-lo por dentro. Ao fazê-lo, amplia sua capacidade de encontro e reconhecimento. Dorian é incapaz dessa inversão com o envelhecido: para ele, o velho não é um “eu futuro”, mas um antagonista a evitar. Essa resistência gera o que Moreno chamaria de tele negativa em relação à própria ancestralidade, uma corrente afetiva de repulsa direcionada ao fluxo natural da vida. Ao colocar-se em permanente oposição aos mais velhos, Dorian torna-se prisioneiro de uma conserva cultural devastadora: a crença de que a velhice é, por definição, a perda de valor.

É esse peso que, ao confrontar a própria imagem capturada na tela, faz o horror ao tempo deixar de ser sussurro para se tornar grito:

Como é triste! Eu ficarei velho, horrível e medonho. Mas este retrato permanecerá sempre jovem… Se fosse o contrário? Se eu pudesse permanecer sempre jovem e o retrato envelhecesse? Por isso, eu daria tudo! Sim, não há nada no mundo que eu não desse! Daria até a minha alma!

O duplo

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Sob a lente psicodramática, o retrato revela-se como o duplo contrário de Dorian, não uma cópia, mas a materialização daquilo que o sujeito não reconhece e não consegue integrar à própria identidade. No psicodrama, o duplo é a técnica que dá voz à parte silenciada do eu: aquilo que o protagonista sente mas não consegue expressar, o aspecto de si que permanece na sombra. No romance, o retrato cumpre exatamente essa função, ele carrega o que Dorian não suporta habitar: o tempo, a decadência e a finitude.

Ao rejeitar a tela, Dorian amputa uma parte de si, instaurando uma cisão entre o eu jovem que deseja preservar e o eu envelhecido que precisa esconder. No universo moreniano, o Eu não é uma estátua, mas um fluxo que se nutre do ato criativo. Moreno nomeou espontaneidade como a capacidade de dar novas respostas a situações antigas ou novas. Ao fixar-se na moldura da juventude eterna, Dorian bloqueia essa espontaneidade; ele deixa de ser um criador para tornar-se apenas uma criatura da imagem. Enquanto o retrato ganha a densidade visceral da experiência, o “si mesmo” de Dorian definha.

A queda

Em outro lance da narrativa, Dorian sentencia o próprio destino: “Agora, sei que quando se perde a beleza, seja ela qual for, perde-se tudo. A juventude é a única coisa que vale a pena ter. Quando eu verificar que estou a envelhecer, suicido-me”. É a confissão de um papel cristalizado levado ao extremo. Dorian reduziu seu eu a um único papel, o do jovem eterno e sem espontaneidade para criar novos atos conforme os ciclos da vida avançam. Não consegue imaginar existência fora dessa moldura. Ele prefere ser um objeto de arte acabado a ser um sujeito em orgânica transformação.

O retrato transfigura-se, então, em espelho, já não um depósito de sombras, mas a técnica do espelho levada ao limite trágico: a imagem que devolve a ele a verdade nua de sua finitude, uma face que ele não suporta habitar. No silêncio do sótão, a tela grita o que a pele lisa de Dorian tenta calar, que a vida só é plena quando aceita o risco de se transformar.

No ápice de sua angústia, Dorian tenta destruir o retrato, numa tentativa violenta contra o duplo que o denuncia. Ao ferir o quadro, a máscara cai. Ele torna-se “murcho, enrugado e de rosto repulsivo”. O tempo negado e escondido no sótão da alma não desaparece, acumula uma força de verdade que, ao ser libertada, esmaga o sujeito que não aprendeu a caminhar com ele.

O psicodrama como antídoto

A tragédia de Dorian aponta o problema, o psicodrama propõe o movimento inverso. Para Moreno, o Encontro é uma das bases conceituais de seu pensamento filosófico, e encontrar é, em sua essência, olhar o outro com os olhos do outro e ser olhado com os seus. É esse movimento recíproco que rompe o isolamento dos estereótipos:

Para que tal encontro – extremamente difícil, mas não impossível – possa acontecer, para que possa florescer a verdadeira integração do homem com os demais homens, e da humanidade consigo mesma, deverão ser superados os estereótipos técnicos, científicos e culturais, o que dará lugar, segundo Moreno, ao desenvolvimento da liberdade, da espontaneidade e da criatividade (Menegazzo; Tomasini; Zuretti, 1995, p. 81).

No idadismo autodirigido, o estereótipo a superar é o mais íntimo de todos,  aquilo que se construiu sobre si mesmo.

Por meio da ação dramática, o “retrato” deixa de ser fardo secreto para se tornar espelho vivo, espaço onde o sujeito pode, pela inversão de papéis com seu eu envelhecido, retomar a autoria do próprio percurso. Esse processo passa pelo resgate da matriz de identidade: o conjunto de papéis, vínculos e experiências que constituem o indivíduo ao longo de toda a vida, não apenas os papéis da juventude, mas a trama inteira de quem se é. Ao reconectar-se com essa matriz, descobre que sua identidade não começa nem termina na estética da performance, ela é mais vasta, mais densa e mais resistente do que qualquer papel cristalizado.

Ao retirar o “retrato” da escuridão e colocá-lo no centro da cena, o idadismo autodirigido perde sua força de silenciamento. O encontro com o próprio duplo envelhecido deixa de ser confronto com o horror para tornar-se resgate da dignidade. Romper a conserva cultural da juventude eterna é permitir que o sujeito deixe de pedir desculpas por existir.

Wilde real — resistência como ato político

A tragédia de Dorian Gray transbordou as páginas para alcançar a vida de seu criador. Oscar Wilde tornou-se vítima do julgamento de uma sociedade amordaçada por suas próprias conservas culturais. No tribunal, sua literatura foi usada como prova contra sua existência, onde os valores morais da época, cristalizados em preconceitos, não permitiam o desvio ou a fluidez. Wilde foi condenado ao cárcere e ao ostracismo quando sua carreira e sua vitalidade foram interrompidas pela rigidez de um mundo que, tal qual Dorian, preferia a punição à aceitação do humano em sua complexidade.

A trajetória de Wilde e a de seu personagem se cruzam em um alerta ético: quando uma sociedade se recusa a atualizar suas respostas e se fixa em valores de exclusão, ela se torna o próprio sótão que deforma e aprisiona o sujeito. Romper esse pacto não é apenas um exercício individual de espontaneidade, mas um ato de resistência política, a escolha de não permitir que o olhar do sistema dite o tamanho do nosso “si mesmo”, garantindo que nossa história seja escrita não por sentenças externas, mas pelo fôlego renovado de cada novo ato.

A morte de Dorian não é apenas o desfecho de um romance, é o aviso de que o idadismo autodirigido é, em última instância, um pacto suicida. Ao trancafiarmos a própria história no sótão da mente para preservar uma fachada que o capitalismo valide, extinguimos aos poucos a capacidade de continuar existindo no mundo real. O antídoto não está na negação do tempo, mas na coragem de habitá-lo. Cada ato espontâneo, cada resposta nova diante de uma situação que o roteiro da juventude não previu, é um apunhalar, não o retrato, mas a conserva. É o sujeito que recupera, um gesto de cada vez, a autoria do próprio envelhecer.

Referências
Collins, P. H.; & Bilge, S. (2021). Interseccionalidade (R. Souza, Trad.; 1ª ed.). São Paulo: Boitempo.
Menegazzo, C. M.; Tomasini, M. A.; & Zuretti, M. M. (1995). Dicionário de Psicodrama e Sociodrama (M. Lopes, M. Carbajal & V. Caputo, Trads.). São Paulo: Ágora.
Moreno, J. L. (2012). O teatro da espontaneidade. São Paulo: Ágora. (Obra original publicada em 1947).
Organização Mundial da Saúde. (2021). Relatório mundial sobre o idadismo: Resumo executivo. https://iris.who.int/bitstream/handle/10665/340210/9789240020504-por.pdf
Silva, A. M.; Lima, P. M. R.; & Sousa, M. G. L. D. (2021). Corpo e envelhecimento: A vivência do papel social do homem idoso com doença cardiovascular crônica. Revista da SBPH, 24(1), p. 118-137.
Wilde, O. (2012). O retrato de Dorian Gray (P. Schiller, Trad.). São Paulo: Penguin Classics – Companhia das Letras. (Obra original publicada em 1890).

Foto destaque: SHVETS production/pexels.


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Silmara Simmelink

Psicodramatista formada pela Associação Brasileira de Psicodrama e Sociodrama. Psicóloga graduada pela Universidade São Judas Tadeu. Especialista em Gerontologia pelo Albert Einstein e fez curso de extensão da PUC-SP de Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento. Pós graduada em psicanálise pela SBPI e Sociopsicologia pela Fundação Escola de Sociologia e Política de SP. Atua em clínica com abordagem psicodramática e desenvolve oficinas terapêuticas com grupos de idosos. É consultora em Desenvolvimento Humano e especialista em psicologia organizacional titulada pelo CRP/SP. E-mail: ssimmel@gmail.com

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Psicodramatista formada pela Associação Brasileira de Psicodrama e Sociodrama. Psicóloga graduada pela Universidade São Judas Tadeu. Especialista em Gerontologia pelo Albert Einstein e fez curso de extensão da PUC-SP de Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento. Pós graduada em psicanálise pela SBPI e Sociopsicologia pela Fundação Escola de Sociologia e Política de SP. Atua em clínica com abordagem psicodramática e desenvolve oficinas terapêuticas com grupos de idosos. É consultora em Desenvolvimento Humano e especialista em psicologia organizacional titulada pelo CRP/SP. E-mail: ssimmel@gmail.com

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