Setembro Amarelo: saúde mental e prevenção do suicídio entre pessoas idosas

Setembro Amarelo: saúde mental e prevenção do suicídio entre pessoas idosas

O Dia Mundial de Prevenção do Suicídio é celebrado em 10 de setembro, a fim de ampliar a conscientização e mobilizar governos, instituições e comunidades em torno da prevenção do suicídio.


Setembro é um mês de conscientização sobre a prevenção de cuidados de saúde mental e também de suicídio no Brasil. Setembro Amarelo é uma outra campanha educativa e informativa que busca ampliar o diálogo sobre saúde mental, reduzir o estigma relacionado ao sofrimento emocional e incentivar a procura por apoio. Quando voltamos esse olhar para as pessoas idosas, a discussão se torna especialmente importante, pois tristeza persistente, isolamento, desesperança ou perda de interesse pela vida ainda podem ser interpretados, de forma equivocada, como consequências naturais do envelhecimento.

O principal marco do mês é o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, celebrado em 10 de setembro. A data foi estabelecida em 2003 pela International Association for Suicide Prevention (IASP), em parceria com a Organização Mundial da Saúde (OMS), com o propósito de ampliar a conscientização e mobilizar governos, instituições e comunidades em torno da prevenção do suicídio (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2025a).

No Brasil, a mobilização começou a ganhar visibilidade em 2014 e teve sua primeira campanha nacional em 2015 (CENTRO DE VALORIZAÇÃO DA VIDA, 2026). Mais recentemente, a Lei nº 15.199/2025 instituiu oficialmente o Setembro Amarelo em todo o território nacional e estabeleceu o 10 de setembro como Dia Nacional de Prevenção do Suicídio. Entre os objetivos previstos pela legislação estão estimular a conscientização sobre saúde mental, combater o estigma e “promover a empatia, a compreensão e o apoio” às pessoas em sofrimento (BRASIL, 2025).

Por que precisamos falar sobre saúde mental na velhice?

Envelhecer é uma experiência diversa. Para muitas pessoas, a velhice é um período de continuidade de projetos, vínculos, participação social e novas experiências. Ao mesmo tempo, algumas trajetórias podem ser atravessadas por acontecimentos como viuvez, perda de pessoas próximas, redução das redes sociais, mudanças na autonomia, doenças crônicas, dor persistente ou transformações nos papéis exercidos ao longo da vida.

Essas experiências não tornam o sofrimento emocional uma consequência inevitável do envelhecimento, nem devem ser utilizadas de forma isolada para explicar o comportamento suicida, que é complexo e multifatorial. No entanto, perdas, solidão, dor crônica, adoecimento e dificuldades relacionais estão entre as situações que podem contribuir para contextos de maior vulnerabilidade ao longo da vida (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2025b).

Por isso, frases como “é normal ficar triste nessa idade”, “depois de velho é assim mesmo” ou “ela não tem mais vontade de sair porque está envelhecendo” merecem ser questionadas. Naturalizar mudanças importantes de humor ou comportamento pode fazer com que um sofrimento que precisa de atenção seja percebido apenas como parte da idade.

Escutar uma pessoa idosa, levar suas queixas a sério e perceber mudanças em sua rotina, em seus vínculos ou em sua maneira de falar sobre a própria vida são atitudes importantes. Saúde mental também faz parte do cuidado no envelhecimento.

Essa necessidade aparece, inclusive, na literatura científica. Ao analisarem iniciativas de prevenção do suicídio, Cray et al. (2025) observaram que, embora pessoas idosas sejam frequentemente reconhecidas como um grupo que necessita de atenção, ainda existem poucos materiais e campanhas desenvolvidos especificamente para essa população. Os autores destacam a necessidade de estratégias mais acessíveis e sensíveis às diferentes experiências do envelhecimento.

O sofrimento nem sempre é visível

O suicídio é um importante problema de saúde pública e pode ocorrer em diferentes fases da vida. Segundo a Organização Mundial da Saúde, mais de 720 mil pessoas morrem por suicídio a cada ano no mundo (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2025b). Esses números mostram a dimensão do problema, mas não revelam tudo o que existe antes e depois de cada morte: histórias pessoais, relações, famílias e comunidades também são profundamente afetadas.

O sofrimento emocional nem sempre é facilmente percebido. Algumas pessoas conseguem falar sobre o que sentem; outras podem se afastar, mudar hábitos, perder o interesse por atividades que antes faziam parte de sua rotina ou ter dificuldade para pedir ajuda. Entre pessoas idosas, essas mudanças podem ser ainda mais facilmente atribuídas à idade, o que reforça a importância de olhar e escutar com atenção.

O estigma também pode dificultar a procura por cuidado. Medo de julgamento, vergonha ou a ideia de que é preciso enfrentar os problemas sozinho podem fazer com que alguém permaneça em silêncio. Por isso, falar sobre suicídio de maneira responsável não significa dramatizar ou transformar qualquer tristeza em uma situação de risco. Significa criar condições para que o sofrimento possa ser reconhecido e para que pedir ajuda seja uma possibilidade.

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Mudar a forma de falar também faz parte da prevenção

Entre 2024 e 2026, o tema internacional do Dia Mundial de Prevenção do Suicídio é “Changing the Narrative on Suicide” – “Mudando a narrativa sobre o suicídio”. A proposta da IASP e da OMS é substituir uma cultura marcada pelo silêncio e pelo estigma por outra baseada em abertura, compreensão e apoio (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2025a).

Mudar essa narrativa também significa rever a maneira como falamos sobre saúde mental na velhice. Uma pessoa idosa não deve ser definida apenas pelas perdas, doenças ou limitações que possa apresentar. Ela continua tendo história, vínculos, desejos, projetos e necessidade de ser reconhecida e ouvida. Da mesma forma, sofrimento emocional não deve ser tratado como fraqueza, falta de gratidão ou algo esperado simplesmente porque alguém envelheceu.

Escutar também não significa ter todas as respostas. Muitas vezes, estar presente é permitir que a pessoa fale sem interromper, julgar ou minimizar aquilo que está sentindo. Em outras situações, cuidar significa ajudá-la a se aproximar de familiares, pessoas de confiança ou profissionais e serviços de saúde capazes de oferecer o suporte necessário.

A prevenção do suicídio também não pode ser colocada apenas sobre os ombros das famílias. Ela depende de redes de apoio, acesso aos serviços de saúde, profissionais capacitados, políticas públicas e comunidades que reconheçam a saúde mental como parte do cuidado ao longo de toda a vida.

O Setembro Amarelo oferece uma oportunidade para ampliar essa conversa, mas a atenção à saúde mental das pessoas idosas precisa continuar durante todo o ano. Perguntar como alguém está, perceber mudanças, preservar vínculos, estimular a participação social, valorizar a autonomia e facilitar o acesso ao cuidado são atitudes que fazem parte de uma sociedade que reconhece o envelhecimento em toda a sua complexidade.

Falar sobre prevenção na velhice é, acima de tudo, lembrar que envelhecer não torna o sofrimento menos importante. Pessoas idosas também precisam encontrar espaços nos quais possam falar, ser escutadas e receber cuidado quando necessário.

Que o Setembro Amarelo ajude não apenas a tornar o tema mais visível, mas também a construir uma forma mais atenta e humana de olhar para a saúde mental ao longo de toda a vida.

Referências
BRASIL. Lei nº 15.199, de 8 de setembro de 2025. Institui a campanha Setembro Amarelo, o Dia Nacional de Prevenção da Automutilação e o Dia Nacional de Prevenção do Suicídio. Brasília, DF, 2025.
CENTRO DE VALORIZAÇÃO DA VIDA. O movimento: Setembro Amarelo. São Paulo: CVV, 2026.
CRAY, H. V.; PASCIAK, W.; BREHENEY, R.; VAHIA, I. V. Public Awareness Campaigns on Suicide Prevention Are Not Optimized for Older Adults. The American Journal of Geriatric Psychiatry, v. 33, n. 4, p. 463–467, 2025. DOI: 10.1016/j.jagp.2025.01.011.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. World Suicide Prevention Day 2025: Changing the Narrative on Suicide. Geneva: WHO, 2025a.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Suicide. Fact sheet. Geneva: WHO, 2025b.

(*) Assinam este texto pela ABG – Associação Brasileira de Gerontologia as seguintes autoras:
Djessica Hilton Peixoto Gerontóloga formada pela Universidade de São Paulo (USP) e mestranda em Gerontologia pela Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP). Assessora Científica no Método SUPERA – Ginástica para o Cérebro, pesquisadora e integrante do Grupo de Estudos em Treino Cognitivo da Universidade de São Paulo (GETCUSP). Atua como monitora da Oficina de Jogos Digitais e Educação para o Envelhecimento Saudável, vinculada ao programa USP 60+, sob coordenação da Profa. Dra. Thais Bento Lima da Silva. Desenvolve atividades relacionadas ao envelhecimento, estimulação cognitiva, inclusão digital e promoção da saúde da pessoa idosa. E-mail: djessicahiltongeronto@gmail.com.
Kauane Macedo Barbosa – Gerontóloga formada pela Universidade de São Paulo (USP) e mestranda em Gerontologia pela Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP). Assessora Científica no Método SUPERA – Ginástica para o Cérebro, pesquisadora e integrante do Grupo de Estudos em Treino Cognitivo da Universidade de São Paulo (GETCUSP). Atua como monitora da Oficina de Jogos Digitais e Educação para o Envelhecimento Saudável, vinculada ao programa USP 60+, sob coordenação da Profa. Dra. Thais Bento Lima da Silva. Desenvolve atividades nas áreas de envelhecimento, estimulação cognitiva, inclusão digital, educação gerontológica e promoção da saúde da pessoa idosa. E-mail: gerontokauane@gmail.com.
Thais Bento Lima da Silva – Gerontóloga formada pela Universidade de São Paulo (USP). Mestra e Doutora em Ciências com ênfase em Neurologia Cognitiva e do Comportamento, pela Faculdade de Medicina da USP. Docente do curso de Bacharelado e de Pós-Graduação em Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP (EACH-USP), pesquisadora do Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e vice-diretora científica da Associação Brasileira de Gerontologia (ABG). Membro da diretoria da Associação Brasileira de Alzheimer- Regional São Paulo. É parceira científica do Método Supera. Coordenadora do Grupo de Estudos em Treino Cognitivo da Universidade de São Paulo. E-mail: thaisbento@usp.br  

Imagem produzida pela IA/Manus


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Blog do Gerontólogo - Iniciativa coordenada pela Diretoria Científica da Associação Brasileira de Gerontologia (ABG). Reúne discussões sobre as potencialidades e as possibilidades de atuação dos profissionais bacharéis em Gerontologia, bem como notícias sobre projetos, programas e serviços liderados por gerontólogos. São discutidos temas contemporâneos sobre a pauta do envelhecimento, enaltecendo as contribuições do gerontólogo à sociedade. Henrique Salmazo da Silva - Presidente Tatiane Andrade Alvarez - Vice-Presidente E-mail: abgeronto@gmail.com

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