O envelhecimento populacional significa o surgimento de novos comportamentos de consumo. O turismo, portanto, não pode ficar de fora dessa conversa.
Olívia Souza Cruz (*)
Há 15 anos escrevendo sobre viagens, acompanho de perto as mudanças no jeito de viajar. E uma delas ficou cada vez mais evidente: o viajante que envelhece não é mais, necessariamente, aquele que o mercado de turismo imaginou durante décadas.
Ele pesquisa, compara preços, escolhe destinos, monta seus próprios roteiros, viaja sozinho ou acompanhado e, muitas vezes, prefere a baixa temporada. Quer conhecer lugares, viver experiências, visitar amigos, estar perto da família e simplesmente continuar descobrindo o mundo.
A pergunta, portanto, não é apenas quem é esse viajante contemporâneo. É outra: o mercado de turismo já percebeu que ele mudou?
É a partir dessa pergunta que olho para a relação entre longevidade e turismo. Não pelo viés da saúde, mas pela perspectiva de quem acompanha o viajante e observa o mercado: hotéis, operadoras, destinos, agências e os produtos que estão sendo criados ou que ainda não estão.
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Os números ajudam a dimensionar essa transformação. O Brasil tinha pouco mais de 32,1 milhões de pessoas com 60 anos ou mais em 2022, segundo o Censo Demográfico do IBGE. Esse grupo representava 15,8% da população brasileira.
As projeções demográficas apontam para uma participação ainda maior das pessoas idosas nas próximas décadas. Ou seja, não estamos falando de uma pequena parcela da população que poderá, eventualmente, interessar ao turismo. Estamos falando de uma mudança estrutural na sociedade brasileira.
E existe uma diferença importante entre envelhecer e deixar de consumir, de circular, de experimentar e de viajar.
O envelhecimento populacional também significa o surgimento de novos comportamentos de consumo. O turismo, portanto, não pode ficar de fora dessa conversa.
O viajante atual não cabe mais no antigo “turismo sênior”
Uma pesquisa realizada entre março e abril de 2026, com apoio do Ministério do Turismo, ajuda a desmontar alguns estereótipos sobre esse viajante. Segundo os dados divulgados, 78% dos entrevistados com 60 anos ou mais fazem pelo menos duas viagens por ano. Além disso, 87% afirmam não depender de uma data específica para viajar.
Esse segundo dado chama particularmente a atenção do mercado. A flexibilidade de datas pode favorecer justamente os períodos em que o turismo mais precisa de demanda. Na pesquisa, 55,9% afirmaram preferir viajar na baixa temporada.
Não é pouca coisa. Para um setor que convive historicamente com o desafio da sazonalidade, existe aí uma oportunidade que vai muito além de criar um pacote chamado “terceira idade”.
As motivações também mostram que não existe um único jeito de viajar depois dos 60. Descanso e relaxamento aparecem com 35,9%, enquanto 23,4% viajam para estar perto da família e 20,1% por lazer e diversão.
Ou seja, são pessoas viajando por razões bastante parecidas com as de outras gerações. Talvez seja justamente esse o ponto que o turismo precise compreender.
Quem acompanha o turismo há algum tempo viu a imagem tradicional da excursão em ônibus, do roteiro fechado e do pacote padronizado ocupar durante décadas o imaginário sobre o viajante mais velho.
Esse modelo continua existindo e atende a muita gente. O problema é imaginar que ele representa todo o público. Na minha experiência acompanhando viajantes, vejo cada vez mais pessoas maduras pesquisando destinos pelo celular, comparando preços, escolhendo hospedagens, montando seus próprios roteiros e decidindo quando e como querem viajar.
Também vejo mulheres viajando sozinhas, casais escolhendo experiências diferentes das oferecidas pelos roteiros tradicionais e pessoas que usam a maior disponibilidade de tempo para viajar fora da alta temporada.
Uma mulher de 65 anos planejando sozinha uma viagem para Portugal não deveria mais ser tratada como uma exceção. E talvez seja aí que esteja uma das maiores mudanças: o viajante envelheceu, mas o desejo de autonomia não envelheceu com ele.
O mercado já percebeu?
Há sinais de que sim. Eventos e iniciativas direcionados ao chamado turismo da longevidade começam a aparecer, e empresas e destinos já reconhecem o potencial econômico desse público.
Um exemplo é o Encontro Sênior das Águas Quentes, promovido pelo Grupo diRoma, em Caldas Novas, que chega à sua décima edição em 2026 com o tema “Turismo da Longevidade”. É um sinal importante. Mas ainda não parece suficiente.
A mesma pesquisa do Ministério do Turismo mostra isso pela ótica de quem viaja: 74% dos entrevistados dizem não perceber produtos turísticos adaptados à sua faixa etária, e apenas 26% sentem que as viagens são realmente pensadas para eles. O desafio não está apenas em criar produtos específicos. Está em entender que esse público pode exigir mudanças na experiência turística como um todo.
Um hotel pode, por exemplo, pensar em informações mais legíveis, comunicação digital mais clara, iluminação adequada, corrimãos bem posicionados e quartos que ofereçam segurança sem transformar a hospedagem em um ambiente hospitalar. Pode também rever a forma de atender quem viaja sozinho.
Por que uma pessoa que ocupa apenas um quarto precisa necessariamente ser penalizada por isso com tarifas que tornam a viagem inviável?
E existe ainda uma questão menos visível: o atendimento. Tratar uma pessoa madura como incapaz, infantilizá-la ou presumir que ela não sabe utilizar tecnologia também é uma forma de etarismo.
O viajante não deixa de ser adulto porque envelheceu.
Referências
IBGE: Censo Demográfico 2022 e projeções populacionais.
Ministério do Turismo: pesquisa sobre hábitos de viagem do público 60+, realizada em março e abril de 2026.
Grupo diRoma: informações sobre o Encontro Sênior das Águas Quentes, em Caldas Novas.
(*) Olívia Souza Cruz é jornalista de viagem, fundadora da plataforma Olivia Garimpando Por Aí, com 15 anos de atuação na produção de conteúdo sobre turismo. É vice-presidente e diretora de Eventos da Associação Brasileira de Criadores de Conteúdo de Viagem (ABBV). E-mail: oliviagarimpandoporai@gmail.com
Foto de Kampus Production/Pexels
