“Às vezes, tudo o que uma pessoa idosa precisa é que alguém volte a enxergar nela um futuro”

“Às vezes, tudo o que uma pessoa idosa precisa é que alguém volte a enxergar nela um futuro”

O geriatra mudou completamente a forma como enxergávamos o envelhecimento. E isso transformou não apenas a minha mãe — transformou toda a nossa família.


Por Monica Loureiro Jorge (*)

Existe um momento muito delicado no envelhecimento em que a pessoa deixa de ser vista como alguém cheio de vida… e passa a ser tratada apenas como alguém “fragilizado”.

Foi exatamente isso que eu aprendi com a minha mãe.

Há seis meses, levei minha mãe a um geriatra.

Depois de uma queda grave, ela havia quebrado o fêmur. Em pouco mais de um ano, aquela mulher alegre, vaidosa, cheia de energia e apaixonada por passear — principalmente ir ao shopping — parecia ter desaparecido.

Minha mãe, que sempre foi independente e cheia de vida, passou a morar comigo e com meu marido. E, aos poucos, se transformou em alguém insegura, assustada, com medo do futuro.

Foram meses difíceis.

Consultamos ortopedista, psiquiatra, oftalmologista… Ela já havia operado catarata e precisava de acompanhamento constante. Tentávamos fazer tudo certo, mas algo ainda faltava.

Até que alguém me perguntou:

— “Por que você ainda não levou sua mãe a um geriatra?”

Confesso que eu não entendia, até então, a diferença que isso faria.

Mas entendi logo na primeira consulta.

Na sala de espera, três pacientes aguardavam atendimento — e todos falavam daquele médico com carinho e admiração.

Quando entramos no consultório, percebemos rapidamente que não se tratava apenas de mais um profissional. A abordagem era humana, afetiva, acolhedora… mas sem infantilizar minha mãe em nenhum momento.

Depois de ouvi-la com atenção, o Dr. Wallace tomou uma decisão inesperada:

— “Vamos parar com a fisioterapia do plano.”

Aquela fisioterapia nos custava caro — inclusive emocionalmente. Eram quase 480 reais por mês apenas de Uber.

Então veio a recomendação que nos surpreendeu:

— “Ela precisa fazer musculação.”

Musculação.

Minha mãe nunca havia entrado em uma academia na vida.

Mas a frase que realmente mudou tudo veio logo depois:

— “Quero que a senhora faça musculação para se fortalecer… porque eu ainda quero dançar valsa com a senhora nos seus 95 anos.”

Naquele instante, algo mudou dentro de mim.

Percebi que minha mãe ainda tinha futuro.

Fotos de Dona Catharina comemorando 90 anos/Arquivo pessoal.

Não perca nenhuma notícia!

Receba cada matéria diretamente no seu e-mail assinando a newsletter diária!

Ela não era uma “coitadinha” esperando o fim da vida sentada em casa.

Ela ainda tinha expectativa de vida. Sonhos possíveis. Movimento. Autonomia. Alegria.

E mais importante: responsabilidade sobre a própria recuperação.

O médico mudou completamente a forma como enxergávamos o envelhecimento. E isso transformou não apenas a minha mãe — transformou toda a nossa família.

Maio de 2026.

Depois de meses de musculação, disciplina e incentivo, Dona Catharina completou 90 anos.

E nós, seus quatro filhos, fizemos uma festa não apenas para celebrar seu aniversário… mas para celebrar sua recuperação.

Sua leveza, sua alegria e sua vontade de viver emocionaram todos que estavam presentes.

Hoje, olhando para trás, tenho certeza de que essa transformação teve grandes responsáveis: o olhar visionário do geriatra, o trabalho da profissional de educação física, e principalmente a coragem da minha mãe de recomeçar aos 90 anos.

Envelhecer não precisa significar desistir da vida.

Às vezes, tudo o que uma pessoa idosa precisa é que alguém volte a enxergar nela um futuro.

E eu sou profundamente grata por termos encontrado quem enxergasse isso na minha mãe.

(*) Monica Loureiro Jorge é filha de Dona Catarina. E-mail: monicaudiovisual@yahoo.com

Foto de destaque de Diogo Miranda/Pexels


foto de um ambiente de casa, na penumbra, anunciando curso sobre adaptações ambientais.

Portal do Envelhecimento

Compartilhe:

Avatar do Autor

Portal do Envelhecimento

Portal do Envelhecimento escreveu 4569 posts

Veja todos os posts de Portal do Envelhecimento
Comentários

Os comentários dos leitores não refletem a opinião do Portal do Envelhecimento e Longeviver.

LinkedIn
Share
WhatsApp
Follow by Email
RSS