Em todo o seu pontificado, Papa Francisco foi enfático: uma sociedade que abandona seus idosos perde a própria memória, rompe com suas raízes e compromete o seu futuro.
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Por Crismédio Vieira Costa Neto (*)
A trajetória de figuras públicas que dedicam a longevidade à defesa dos direitos humanos exemplifica o conceito de um legado que ultrapassa a existência física, consolidando-se como uma força norteadora para as gerações futuras. Ao observar a influência do Papa Francisco[1], percebe-se que sua atuação não se limitou ao exercício de um cargo institucional, mas manifestou-se como um símbolo de resistência ética e compromisso com a dignidade. Sob a perspectiva da gerontologia social, esse percurso demonstra como a maturidade avançada pode ser um período de intensa produtividade social e renovação de consciências, onde o acúmulo de experiência se traduz em um olhar atento às vulnerabilidades contemporâneas.
A permanência desse pensamento reside na capacidade de interpelar a coletividade sobre questões fundamentais, como a justiça social e a proteção dos mais frágeis. Ao transformar a teoria em práticas concretas de cuidado, tais lideranças estabelecem um paradigma de envelhecimento que é, sobretudo, gerador de sentido e esperança. Portanto, a memória de um legado vivo não se sustenta apenas na ausência de quem partiu, mas na vitalidade das causas que seguem sendo defendidas por aqueles que foram inspirados por suas ações.
O impacto histórico de Francisco, nesse contexto, torna-se uma bússola atemporal para a promoção da vida em todas as suas etapas e condições. O pontificado de Francisco foi profundamente marcado pela defesa dos direitos humanos, pela promoção da justiça social e pelo cuidado com a Casa Comum. Denunciou a degradação ambiental e suas consequências sobre os mais pobres, ao mesmo tempo em que convocou o mundo à fraternidade e à solidariedade universal, reafirmando a necessidade de uma sociedade que não exclua, mas que acolha e proteja.
Nesse horizonte, a causa da pessoa idosa ocupou lugar de destaque. Desde o início de seu pontificado, Papa Francisco foi enfático ao denunciar a chamada “cultura do descarte” — uma lógica social que marginaliza aqueles considerados improdutivos, entre eles, muitas pessoas idosas. Em diversas ocasiões, recordou que uma sociedade que abandona seus idosos perde a própria memória, rompe com suas raízes e compromete o seu futuro.
Sua atuação não se limitou ao discurso. Em um gesto concreto de valorização da velhice, instituiu o Dia Mundial dos Avós e das Pessoas Idosas e promoveu a Jornada Mundial das Pessoas Idosas, fortalecendo a consciência global sobre a importância do cuidado, da inclusão e do respeito à pessoa idosa. Essas iniciativas consolidaram, no âmbito da Igreja Católica, uma agenda voltada à dignidade do envelhecer.
Em suas falas e escritos, o Papa dirigia-se à humanidade com insistência: “todos, todos, todos” são chamados a cuidar. Essa repetição não era retórica vazia, mas expressão de uma ética universal do cuidado, que ultrapassa fronteiras religiosas, culturais e políticas. Francisco nos ensinou que o cuidado com a pessoa idosa não é apenas uma obrigação moral, mas um imperativo civilizatório.
Poucos dias antes de sua morte, enviou uma mensagem ao Movimento Global Vidas Idosas Importam, reconhecendo e agradecendo o empenho na defesa dos direitos das pessoas idosas. Na ocasião, concedeu sua bênção apostólica, reafirmando o valor e a urgência dessa causa. Esse gesto final reforça a coerência de um pontificado que sempre colocou os mais vulneráveis no centro.
Assim, mesmo após sua partida, Francisco permanece presente. Sua voz ecoa nas lutas por dignidade, sua memória inspira ações concretas, e seu testemunho segue como farol a iluminar caminhos de justiça, paz e solidariedade. Defender os direitos das pessoas idosas, hoje, é também manter viva a herança ética e humanitária que ele nos confiou.
Mais do que recordar, é necessário continuar. Continuar denunciando o abandono, promovendo políticas públicas inclusivas, fortalecendo redes de cuidado e reconhecendo, nas pessoas idosas, não um peso, mas uma riqueza social, cultural e espiritual.
Nota
[1] Em 21 de abril de 2026, completou-se um ano da partida do Papa Francisco.
(*) Crismédio Vieira Costa Neto – Biomédico e ativista do Movimento Global Vidas Idosas Importam. @vidasidosasimportam.br
Imagem: Movimento Global Vidas Idosas Importam
