Envelhecer na favela: vozes, desafios e caminhos no Jacarezinho e Providência – Rio de Janeiro, Brasil

Envelhecer na favela: vozes, desafios e caminhos no Jacarezinho e Providência – Rio de Janeiro, Brasil

Envelhecer na favela é um ato político de existência. Exige reconhecer que dignidade na velhice não pode ser privilégio geográfico, mas um direito a ser garantido.


Fernando Henrique Ferreira de Oliveira (*)

O envelhecimento em territórios marcados pela desigualdade socioespacial, como as favelas e comunidades urbanas do Rio de Janeiro, vai além das transformações biológicas da idade. No Complexo do Jacarezinho e no Morro da Providência, a velhice é vivida em meio a desafios estruturais — como infraestrutura urbana deficiente, dificuldades de mobilidade e acesso limitado a serviços básicos —, mas também é atravessada por redes de solidariedade, memória afetiva e estratégias cotidianas de reprodução socioterritorial. 

Pesquisas já demonstraram como as condições físicas desses territórios impactam diretamente a qualidade de vida dos idosos, restringindo sua autonomia e exacerbando vulnerabilidades (Reginense e Bautès, 2013; Paulino, 2017).

No Jacarezinho, por exemplo, onde vivem quase 30 mil pessoas, há apenas três estabelecimentos de saúde para atender toda a população, contrastando com as 84 instituições religiosas mapeadas (IBGE, 2024). Na Providência, com seus 4.736 moradores, a ausência de unidades de saúde e escolas soma-se às ruas estreitas e aos aclives acentuados, que se tornam obstáculos diários para idosos com mobilidade reduzida. 

No entanto, reduzir a análise às carências materiais seria insuficiente. Esses territórios são também espaços de pertencimento, onde laços comunitários e estratégias de adaptação transformam o cotidiano.

Se, por um lado, a inadequação habitacional pode agravar desigualdades e comprometer o bem-estar (Antunes et al., 2023), por outro, os próprios idosos reinventam formas de habitar a cidade, criando alternativas coletivas para suprir falhas do poder público (Barbosa et al., 2013). 

É nessa tensão entre precariedade e resiliência que esta pesquisa[1] se insere, buscando compreender como os idosos do Jacarezinho e da Providência percebem e ressignificam seus territórios. Através de entrevistas semiestruturadas e análises qualitativas[2], o estudo mapeia não apenas os obstáculos enfrentados, mas também as estratégias desenvolvidas por esses moradores para manter autonomia e vínculos sociais.

Em um contexto de envelhecimento populacional acelerado no Brasil, entender essas dinâmicas é urgente. As políticas públicas precisam ir além do diagnóstico das carências: é preciso reconhecer e fortalecer os mecanismos comunitários que já sustentam a velhice nessas localidades, propondo ações que dialoguem com as realidades vividas — e não apenas com as faltas apontadas pelos dados. 

Aqui, a velhice não é passiva. Ela se constrói no dia a dia, entre escadarias íngremes e becos que guardam histórias, em um movimento contínuo de enfrentamento e reinvenção. Estudá-la é também questionar que cidades estamos construindo para envelhecer — e quem tem direito a uma velhice com dignidade. 

A Travessa Isa e os desafios do envelhecimento no Jacarezinho

No Complexo do Jacarezinho, a Travessa Isa ilustra os obstáculos físicos enfrentados por pessoas idosaos no dia a dia. A escadaria íngreme, sem corrimãos ou adaptações, dificulta a mobilidade de moradores com limitações físicas.

Com degraus irregulares e inclinação acentuada, o local exige esforço considerável para quem tem mobilidade reduzida. Moradores relatam que a falta de estruturas de apoio transforma deslocamentos rotineiros em desafios.

Figuras 1 e 2 – Travessa Isa – Jacarezinho.

Fonte – Trabalho de campo (2024).

Se a Travessa Isa expõe os desafios de mobilidade, outros problemas estruturais aprofundam as dificuldades do envelhecimento no Jacarezinho:

1) Infraestrutura deficiente – falhas constantes na energia elétrica comprometem equipamentos médicos, enquanto o abastecimento irregular de água e o esgoto a céu aberto elevam riscos à saúde.

2) Falta de serviços básicos – a coleta de lixo incerta gera focos de insalubridade, agravando condições já críticas para idosos com saúde fragilizada.

Como apontam Kapp et al. (2018), essa combinação de fatores exige políticas públicas que considerem as especificidades territoriais – não apenas para sanar carências, mas para fortalecer as redes comunitárias que já sustentam a vida local.

Providência: escadarias que contam histórias de resistência e desafios cotidianos

No Morro da Providência, a mobilidade dos idosos depende de uma combinação de transportes alternativos e esforço físico. Kombis e mototáxis cobram entre 4 e 5 reais para vencer parte do trajeto, mas o acesso às áreas mais altas exige enfrentar escadarias íngremes – verdadeiras provas de resistência para quem já não tem a mesma mobilidade.

Figura 3 – Escadaria do Cruzeiro – Morro da Providência.

Fonte – Trabalho de campo (2024).

No Caminho do Morrinho: obstáculos sem fim

Na região da Pedra Lisa – Morro da Providência, as escadarias revelam desafios ainda mais agudos:
– Degraus desnivelados e sem corrimãos
– Passagens estreitas que dificultam o trânsito
– Pisos irregulares que aumentam o risco de quedas

“Já caí três vezes este ano”, conta Dona Onda, 72 anos, durante um encontro do grupo focal. Sua história se repete entre os vizinhos mais velhos, que sugerem melhorias simples como pisos antiderrapantes e corrimãos – demandas antigas ainda não atendidas.

Figuras 4 e 5 – Sequência de escadas irregulares no acesso ao Morrinho – Pedra Lisa.

Fonte – Trabalho de campo (2024).

Entre avanços e necessidades

Algumas escadarias ganharam corrimãos recentemente, mas a solução ainda é pontual. “Melhorou onde tem, mas faltam muitos”, observa Estrela, moradora da comunidade. A dualidade da Providência fica clara: enquanto espaços celebram a cultura local, as condições de acessibilidade seguem como lembrete das desigualdades urbanas.

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Figuras 6 e 7 – Trecho com corrimão instalado recentemente.

Fonte: Trabalho de campo (2024).

Envelhecer na favela – entre desafios e resistências

Subir ladeiras íngremes com dores nas juntas. Esperar horas por um ônibus que nunca chega. Ter medo de sair de casa durante operações policiais. Esses são os desafios cotidianos das pessoas idosas nas favelas cariocas – mas sua história não se resume a dificuldades. Através de entrevistas com moradores do Jacarezinho e da Providência, esta pesquisa revela como o envelhecimento nesses territórios é marcado por uma tensão constante entre exclusão violenta e resistência afetiva.

Prisões físicas e simbólicas

A combinação de infraestrutura precária e violência institucional cria uma dupla prisão para as pessoas idosas. Terrenos íngremes, áreas sem sinalização, escadarias sem corrimãos e transporte público deficiente limitam sua mobilidade – como relata Bambu, 72 anos, morador cego: “Dependo da minha família para sair de casa. Me sinto um peso”. Paralelamente, incursões policiais frequentes impõem um confinamento involuntário: “Na última operação, mataram 28 pessoas. Quem sai não sabe se volta”[3], conta Ipê, 68 anos.

Memória como resistência

Por trás das carências materiais, a favela se revela um arquivo vivo de afetos. Quando Bambu chama o Jacarezinho de “o paraíso do Rio”, ele fala das memórias que transformam vielas em territórios existenciais. Jatobá, 70 anos, descreve com orgulho os mutirões que construíram sua casa: “O cheiro do mocotó compartilhado, as risadas durante o trabalho – isso não tem preço”. Essas narrativas expõem o risco das intervenções urbanas que tratam a favela como problema a ser corrigido, não como lar a ser preservado.

Desigualdades em camadas

Gênero, raça e classe se entrelaçam para moldar experiências distintas da velhice. Primavera, 65 anos, mulher negra, resume: “Depois dos 50, a gente já não vale nada no mercado. Se é favelada, pior ainda”. Seu relato sobre ser rejeitada num emprego por ser “muito escura” revela como o racismo estrutura oportunidades. Já Umbu, 71 anos, desafia hierarquias: “Patrão me olhava com nojo, mas gritava: ‘Se ele é gente, eu também sou!'”.

Redes que sustentam

Na ausência do Estado, são os laços comunitários que garantem sobrevivência. Ipê encontra na escola de samba seu “lugar no mundo”, enquanto Jatobá transformou seu bar em ponto de apoio: “Aqui a gente se agarra uns aos outros”. Essas estratégias cotidianas – desde rotas alternativas até sistemas de alerta sobre operações policiais – mostram que a favela não espera por soluções prontas: ela as inventa.

Por políticas que ouçam

Os relatos exigem uma virada nas políticas públicas: não basta levar serviços às favelas; é preciso desenhar esses serviços com as pessoas idosas, não para elas. Soluções técnicas fracassam quando ignoram que uma rampa não é só acesso físico – é dignidade. Um ônibus adaptado não é só mobilidade – é autonomia.

Envelhecer na favela é, antes de tudo, um ato político de existir. Como Mandacaru, 67 anos, sintetiza: “Aqui a gente não desiste”. Suas histórias desafiam não apenas nossa noção de cuidado, mas o próprio direito à cidade – e para quem ela foi pensada. Afinal, qualidade de vida na velhice não deveria ser privilégio territorial.

Algumas reflexões – para seguir em frente

O envelhecimento em favelas como Jacarezinho e Providência revela uma realidade complexa, onde vulnerabilidades estruturais coexistem com estratégias comunitárias de resistência. As pessoas idosas desses territórios enfrentam diariamente obstáculos concretos – escadarias íngremes sem corrimãos, transporte público inadequado e falta de acessibilidade – que limitam sua autonomia e ampliam o isolamento social.

No entanto, reduzir essas comunidades a espaços de carência seria ignorar sua potência transformadora. Através de mutirões, redes de apoio e iniciativas locais, os moradores idosos ressignificam cotidianamente seu direito à cidade. Seu apego ao território vai além da moradia: é a preservação de histórias coletivas e laços afetivos construídos ao longo de décadas.

Os relatos evidenciam a urgência de políticas públicas que:
1) Priorizem acessibilidade, com intervenções como corrimãos, rampas e transporte adaptado;|
2) Valorizem saberes locais, integrando idosos no planejamento urbano;
3) Ampliem oportunidades de sociabilidade, com espaços de lazer e cuidado comunitário.

Envelhecer na favela é, acima de tudo, um ato político de existência. Exige reconhecer que dignidade na velhice não pode ser privilégio geográfico – mas um direito a ser garantido em todos os territórios, com suas particularidades e potências. As soluções já brotam do chão dessas comunidades; cabe às políticas públicas aprenderem com elas.

Notas
(1) Pesquisa de pós-doutorado desenvolvida no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no Rio de Janeiro. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética da UERJ (CAAE: 81743124.6.0000.5282) com todos os protocolos de consentimento assegurados.
(2) Este estudo qualitativo baseou-se em 12 entrevistas com idosos (60+ anos) realizadas no segundo semestre de 2024. Nomes foram alterados para preservar identidades.
(3) Refere-se à operação policial ocorrida no Jacarezinho em 6 de maio de 2021, considerada a mais letal da história do Rio de Janeiro, com 28 mortes em uma única ação. O episódio ficou conhecido como Chacina do Jacarezinho e foi amplamente denunciado por organizações de direitos humanos por supostos excessos e violações de protocolos.

Referências

BARBOSA, JL.; SILVA, JS. As favelas como territórios de reinvenção da cidade. Cadernos do Desenvolvimento Fluminense, n. 1, 2013, p. 115-126.
ANTUNES, MC. et al. Ambiente construído e sua associação com percepção de saúde em idosos brasileiros: Pesquisa Nacional de Saúde 2013. Cien Saude Colet: 3137-3148, 2023.
IBGE. Censo Demográfico 2022. Rio de Janeiro, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2022.
KAPP, S. MATOS, C. LYRA, L. MARCANDIER, R. Envelhecer com a favela: mulheres pioneiras nas Vilas da Serra. III Seminário Nacional sobre Urbanização de Favelas – Urbfavelas. Salvador – BA – Brasil, 2018.
REGINENSI, C. BAUTÈS, N. Percursos e travessias no Morro da Providência: desafios das interações sociais e espaciais no jogo formal/informal. Libertas: R. Fac. Serv. Soc., Juiz de Fora, v.13, n.2, p. 115-135, jul./dez. 2013.

(*) Fernando Henrique Ferreira de Oliveira – Geógrafo, doutor em Geografia – Universidade Estadual Paulista – Presidente Prudente (SP). Pesquisador de pós-doutorado na Escola Nacional de Ciências Estatísticas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Email: fh.oliveira@unesp.br

Foto destaque de  Allan Franca Carmo/Pexels


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