O encontro sobre Amarelitudes de hoje se propõe a discutir como corpos racializados e envelhecentes tensionam narrativas hegemônicas, ampliando imaginários estéticos e políticos.
Você já ouviu falar do termo amarelitudes e o que ele tem a ver com envelhecimento? Este será um dos temas principais a ser debatido no evento promovido pelo Sesc Ipiranga hoje à noite, presencialmente (11 de junho) intitulado Amarelitudes, Envelhecimento nas Artes Cênicas, que faz parte do projeto “Identidade Amarela: Protagonismo e Envelhecimento”.
A partir de perspectivas interdisciplinares, o encontro se propõe a discutir como corpos racializados e envelhecentes tensionam narrativas hegemônicas, ampliando imaginários estéticos e políticos no campo das artes da cena. Eu estarei no encontro, aprendendo e, ao mesmo tempo, discutindo como o envelhecimento vem sendo representado nas artes de forma geral.
Ou seja, o encontro inicial discute as relações entre amarelitudes (o que é e quais suas reflexões) e os processos de envelhecimento nas artes cênicas. Trata-se de um debate inédito, onde, publicamente e de forma descontraída, se tentará fazer o cruzamento dos campos da gerontologia e dos estudos raciais e sociais. Hoje nos deparamos com uma lacuna histórica que começa, gradativamente, a ser preenchida: a intersecção entre o envelhecer e a amarelitude.
CONFIRA TAMBÉM:
Enquanto os debates sobre negritude, branquitude e envelhecimento avançaram significativamente na literatura acadêmica, o envelhecimento da população amarela (termo sociopolítico adotado pelo IBGE para designar pessoas de ascendência leste-asiática, predominantemente japonesa, chinesa e coreana no Brasil) permaneceu por muito tempo sob o manto de uma aparente invisibilidade ou blindado pelo mito do envelhecimento branco, feminino, urbano e de classe média.
O conceito de amarelitude nas ciências sociais
Para compreender a pessoa idosa amarela, é preciso primeiro resgatar o conceito de amarelitude. Conforme aponta o antropólogo Kabengele Munanga (2019), os conceitos de negritude, branquitude e amarelitude são biologicamente inoperantes, já que a ciência já comprovou a inexistência de raças humanas distintas, mas permanecem política e sociologicamente fundamentais.
No Brasil, especialmente na região Sudeste e Sul, a amarelitude é construída como uma identidade racializada e política. Ela tensiona a experiência de sujeitos que, embora muitas vezes gozem de mobilidade socioeconômica, enfrentam processos de alteridade (o eterno sentimento de ser tratado como “estrangeiro” na própria terra) e o apagamento de suas subjetividades e dores.
Esse apagamento faz com que as políticas públicas de envelhecimento raramente desenhem recortes específicos para as demandas culturais dessas pessoas idosas. Há uma necessidade urgente de que as pesquisas em gerontologia social, por exemplo, passem a coletar dados qualitativos que diferenciem o impacto do racismo sutil (como as piadas xenofóbicas e a fetichização cultural) na saúde mental e no isolamento do idoso amarelo.
Tive a oportunidade de entender um pouco mais essas “dores” das pessoas amarelas ao orientar a dissertação de mestrado de uma aluna coreana, a médica Hee Jeung Hong (Beth Hong, hoje uma grande amiga) quando atuava no Programa de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia – PUCSP, em 2010.
Sua pesquisa “Imigração e envelhecimento em São Paulo: perfil de um grupo de idosos coreanos“, traça o panorama da comunidade coreana radicada na capital. O estudo destaca o forte vínculo desses imigrantes com o bairro do Bom Retiro, um processo de aculturação único e o forte impacto da barreira do idioma e do isolamento social. Essas pessoas contribuíram para o mosaico cultural e étnico que é São Paulo de hoje.
O envelhecimento no contexto da imigração
A base do envelhecimento amarelo no Brasil está profundamente atrelada à história da imigração, especialmente a japonesa, iniciada em 1908. Estudos gerontológicos clássicos e registros de acompanhamento comunitário revelam que a primeira geração de imigrantes (os Isseis) enfrentou o envelhecimento lidando com barreiras linguísticas severas e com o isolamento cultural.
Hoje, o foco se deslocou para os Nisseis (filhos) e Sanseis (netos), que já vivenciam o envelhecimento sob a égide da hibridização cultural. A literatura aponta duas grandes marcas nessa vivência.
A primeira delas é o choque de expectativas intergeracionais, pois, tradicionalmente, as culturas orientais operam sob a lógica da piedade filial — a obrigação moral e cultural de que os filhos cuidem diretamente de seus pais na velhice, principalmente os mais velhos. Contudo, a ocidentalização e as dinâmicas urbanas brasileiras transformaram essa estrutura, gerando conflitos subjetivos e sentimentos de desamparo nas pessoas idosas que esperavam um modelo de cuidado tradicional.
A segunda é o paradoxo do “Idoso Saudável e Integrado”, como evidenciado em estudos de representação visual e de mídia (Moura & Souza, 2021), a publicidade e o imaginário social tendem a projetar na pessoa idosa de origem oriental o arquétipo do sujeito disciplinado, saudável, meditativo e financeiramente estável. Essa hipertextualização positiva, embora pareça elogiosa, atua como uma armadilha invisibilizadora, mascarando demandas de saúde mental, depressão, isolamento e vulnerabilidade social que afetam essa população.
Como repetimos aqui quotidianamente, envelhecer no Brasil não é um processo homogêneo. Assim como o Portal do Envelhecimento sempre defendeu a pluralidade das velhices (as “velhices” no plural), incluir a amarelitude nesse mosaico é reconhecer que as marcas do tempo no corpo e na mente também são atravessadas pelas rotas migratórias, pela ancestralidade e pelo lugar que a sociedade atribui à cor da nossa pele.
Referências
HONG, H. J. Imigração e envelhecimento em São Paulo: perfil de um grupo de idosos coreanos. Dissertação de Mestrado em Gerontologia. Pontifícia Universidade católica de São Paulo, 2010.
MOURA, Tiemy da Silva; SOUZA, Sandra Maria Ribeiro de. Representação visual de idosos pela publicidade digital de nove marcas. In: Ciências da comunicação: Chave para a ascensão em organizações e relacionamentos. Atena Editora, 2021.
MUNANGA, Kabengele. Negritude: usos e sentidos. 4. ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2019. (Citado em reflexões sobre os conceitos político-sociológicos de raça).

Serviço
Debate “Amarelitudes, Envelhecimento nas Artes Cênicas”
Com Beltrina Côrte (Portal do Envelhecimento e Longeviver), Liana Yuri (Grupo Sobrevento), Rosangela Barbalaco (Gepros – Revista mais 60) e Mediação de Beatriz Diaféria (Coletivo Oriente-se)
Dia: 11/6, quinta, 19h30.
Local: Sesc Ipiranga.
Entrada gratuita.
Inscreva-se: https://www.sescsp.org.br/programacao/amarelitudes-envelhecimento-nas-artes-cenicas/
Foto de Vincent Tan/Pexels
