A pesquisa, exploratória, buscou construir um balanço da produção nacional sobre a temática geracional, visando a identificação de seus principais avanços e lacunas.
O estudo Gerações e Intergeracionalidade no Brasil, desenvolvido pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP) em parceria com o Itaú Viver Mais (apresentado no dia 3 de março, ver abaixo), explora como o conceito de geração ainda carece de refinamento teórico e contextualização para ser utilizado como ferramenta estratégica na compreensão das desigualdades e dinâmicas sociais brasileiras. A pesquisa foi conduzida por Priscila Vieira, do Núcleo de Desenvolvimento.
A começar pelo próprio termo, “gerações”, que é marcado por vários significados que, se por um lado facilita sua difusão, por outro prejudica o rigor científico e o diálogo entre diferentes áreas do conhecimento. Atualmente, o debate é dominado por categorias não acadêmicas, mas de origem mercadológica norte-americana — como Baby Boomers e as Gerações X, Y, Z e Alfa — que visam prioritariamente analisar hábitos de consumo e relações laborais.
O estudo ressalta que a importação acrítica dessas classificações tende a homogeneizar realidades complexas, reforçar estereótipos e ignorar marcos históricos nacionais que são fundamentais para a formação da identidade geracional no Brasil.
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Para superar essa visão limitada, a perspectiva socioantropológica propõe que gerações sejam entendidas não apenas como faixas etárias, mas como grupos que compartilham uma posição histórica e experiências coletivas de socialização. Tais vivências moldam visões de mundo e valores, embora esse processo seja sempre mediado por outros marcadores sociais, como classe, raça e gênero. Assim, a geração deve ser vista como um conceito relacional, essencial para analisar as hierarquias e as dinâmicas de poder na sociedade.
Panorama da produção brasileira e temas estruturantes
A pesquisa identifica três abordagens principais nos estudos nacionais: a macroestrutural (focada em demografia e economia), a micro relacional (focada na esfera familiar e psicológica) e a aplicada (focada em marketing e administração). Um achado crítico é que, apesar de o gênero e a classe serem frequentemente cruzados com a dimensão geracional, marcadores como raça e sexualidade ainda são subutilizados ou ignorados nas análises, aparecendo muitas vezes apenas como variáveis descritivas e não como eixos estruturantes.
Os temas que predominam no cenário brasileiro incluem a família, o trabalho, a economia e as políticas públicas. A família é apontada como o espaço primordial de interação e transmissão de valores, mas também como palco de conflitos e solidariedade material. No mundo do trabalho, a convivência de até quatro gerações diferentes traz desafios de comunicação e integração, evidenciando o etarismo como uma barreira significativa para profissionais acima de 50 anos. Economicamente, o debate gira em torno de eventos como a hiperinflação dos anos 1980 e o Plano Real, além de discussões sobre o bônus demográfico e a reforma da previdência.
A dualidade da intergeracionalidade
A noção de intergeracionalidade foca nas relações e trocas entre diferentes grupos, sendo intrinsecamente dual: alterna entre a solidariedade e o conflito. No Brasil, essas relações são moldadas por uma transição demográfica acelerada, que pressiona o pacto social do sistema de bem-estar. O cuidado intergeracional, por exemplo, é predominantemente familiar e muitas vezes recai sobre a chamada “geração sanduíche” — mulheres que cuidam simultaneamente de filhos menores e pais idosos.
Embora existam tensões por recursos e valores, a intergeracionalidade também é vista como uma ferramenta de transformação social. Equipes diversas no trabalho podem ser mais inovadoras se houver troca de conhecimento em mão dupla. Além disso, o estudo defende que o envelhecimento populacional não deve ser visto apenas como um “fardo fiscal”, mas como uma oportunidade para renovar a cooperação social por meio da economia da longevidade.
Lacunas e a construção de uma agenda de futuro
A pesquisa finaliza apontando lacunas alarmantes na produção nacional, como a quase total ausência de discussões que conectem gerações ao meio ambiente e à religião. A crise climática é uma experiência definidora para os jovens, e a transição religiosa é um fenômeno geracional profundo no Brasil, mas ambos são pouco explorados sob essa ótica. Há também uma carência de estudos longitudinais e de pesquisas sobre famílias fora do modelo tradicional ou comunidades quilombolas e indígenas.
A agenda proposta sugere que o Brasil precisa consolidar uma abordagem contextualizada, destacando eventos nacionais como a Ditadura Militar e a Constituição de 1988 na definição de suas gerações. É urgente que a dimensão etária seja incorporada como um marcador social da diferença em uma perspectiva interseccional, desfazendo estigmas e reconhecendo que a experiência histórica não é uniforme, mas fragmentada pelas desigualdades de acesso a bens e direitos.
Leia o resumo executivo do estudo
Promotores da pesquisa
O Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) é uma instituição de pesquisa na área de ciências humanas que desenvolve estudos multidisciplinares sobre a realidade brasileira há mais de 50 anos. A pesquisa foi realizada pelo Núcleo de Desenvolvimento que desenvolve estudos para subsidiar e orientar ações para o desenvolvimento socioeconômico em diferentes níveis de gestão territorial – local, municipal, estadual e federal – e para diversos grupos populacionais (moradores de áreas urbanas e rurais, populações tradicionais e grupos em diferentes ciclos de vida). Para saber mais acesse: cebrap.org.br.
O Itaú Viver Mais é uma associação sem fins lucrativos focada no público com mais de 50 anos, que emprega esforços no fomento do poder público, da sociedade civil organizada e da iniciativa privada, promovendo o acesso e a ampliação de direitos, melhorando a qualidade de vida nas cidades e fortalecendo o poder de transformação das pessoas por meio do investimento social privado. Para saber mais acesse: itauvivermais.com.br e pelas redes sociais @itauvivermais.
Serviço
Estudo Gerações e Intergeracionalidade no Brasil
Coordenação: Priscila Vieira, Núcleo de Desenvolvimento/CEBRAP
Disponível na íntegra em: https://www.itauvivermais.com.br/publicacoes/
Assista a apresentação do estudo