Beverly Fishman foca em sua arte na maneira como os produtos farmacêuticos, especialmente a polifarmácia, moldaram e mudaram nossa experiência de ser humano.
O processo de envelhecimento na sociedade contemporânea é frequentemente acompanhado por uma rotina de ingestão de comprimidos coloridos, um fenômeno conhecido como polifarmácia que atinge de forma desproporcional a população idosa e desperta preocupações crescentes na saúde pública. Na exposição “The Pursuit of Perfection“, a artista Beverly Fishman mergulha nessa realidade para investigar como a indústria farmacêutica utiliza formas geométricas atraentes e cores vibrantes para transformar o consumo de múltiplos medicamentos em uma experiência sedutora de busca pela cura e pelo bem-estar idealizado.
Através de obras que mimetizam a estética industrial impecável, Fishman nos convida a olhar além da superfície brilhante das cápsulas, questionando como a medicina moderna molda nossas emoções e identidades enquanto nos oferece promessas de perfeição em embalagens atraentes. Esta reflexão artística serve como um espelho crítico, provocando uma consciência necessária sobre a normalização do uso excessivo de substâncias químicas e a necessidade de resgatar a autonomia humana diante de um sistema que, muitas vezes, prioriza a sedução visual em detrimento da transparência sobre os riscos e dependências.
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Aliás, a obra de Beverly Fishman estabelece uma ponte provocativa entre a estética do minimalismo e a crítica social contundente, utilizando a abstração para desmascarar as estratégias de sedução da indústria farmacêutica. Ao longo de quase três décadas como chefe do departamento de pintura da Cranbrook Academy of Art, Fishman não apenas refinou sua própria linguagem visual, mas também serviu de mentora para muitas artistas.
Essa dedicação reflete-se em uma produção que, embora mantenha uma coerência temática central há mais de 20 anos, renova-se constantemente em formas, cores e apresentações, mantendo sempre o foco na investigação de como a medicina contemporânea molda a experiência emocional e física do ser humano.
Crítica à polifarmácia
Na exposição “The Pursuit of Perfection”, o conceito principal é a polifarmácia, um fenômeno crescente e alarmante que afeta de maneira desproporcional a população idosa, principalmente. Fishman observa que o consumo diário de três a cinco comprimidos tornou-se uma norma que se intensifica com o envelhecimento, transformando-se em uma preocupação social de grande escala.
O conceito de polifarmácia transcende, portanto, a mera definição clínica de uso simultâneo de diversos medicamentos para se tornar uma crítica profunda sobre como a sociedade contemporânea consome a ideia de “cura” e “perfeição”. Através de sua prática artística, Fishman expõe um fenômeno crescente e alarmante que ocorre na contemporaneidade.
Essa realidade é abordada não apenas como um dado estatístico, mas como uma transformação da experiência humana moldada pela indústria farmacêutica, que utiliza estratégias de design altamente sofisticadas para seduzir o público e tornar o consumo químico uma parte integrante da identidade moderna.
A artista mimetiza essa estratégia de sedução industrial ao criar formas geométricas impecáveis — como triângulos, ovais e círculos — que ecoam deliberadamente o design atraente dos comprimidos reais produzidos pelas grandes empresas. Ao utilizar cores brilhantes e múltiplas camadas de tinta, Fishman captura a atenção do observador por meio de uma superfície que parece ter sido fabricada por máquinas.
No entanto, esse acabamento “perfeito” é, na verdade, o resultado de um processo manual exaustivo, envolvendo semanas de lixamento e uma colaboração intuitiva com especialistas em cores que não utilizam catálogos industriais, mas sim o seu próprio olhar apurado. Essa tensão entre o humano e o industrial serve para evidenciar como a indústria farmacêutica busca mascarar a complexidade química e os riscos potenciais sob uma fachada de simplicidade e beleza estética.
A dimensão de gênero e o impacto emocional da medicação ocupam um lugar de destaque nessa análise, uma vez que Fishman investiga como a publicidade farmacêutica foi e continua sendo direcionada especificamente ao público feminino. Ela destaca como a cultura impõe às mulheres padrões rígidos de aparência e comportamento, utilizando a farmacologia tanto para promover o “antienvelhecimento” quanto para gerenciar emoções que a sociedade prefere silenciar.
O uso recorrente da forma de coração em suas peças para representar o Valium é uma crítica direta a essa história, lembrando uma época em que medicamentos altamente viciantes eram comercializados como soluções inofensivas para os “nervos” das mulheres. Ao embelezar essas formas e torná-las visualmente “fofas”, Fishman reproduz a tática da indústria de desarmar o senso crítico do consumidor através da familiaridade e do afeto visual.
Na realidade, o trabalho de Fishman revela como a polifarmácia transforma o ato de medicar-se em um dos rituais mais poderosos e esteticamente planejados do nosso tempo.
Ao buscar a verdadeira beleza no aqui e agora da vida, Fishman convida o público — especialmente a população idosa, que enfrenta o desafio de um consumo medicamentoso cada vez mais elevado — a refletir sobre como a cultura contemporânea dita padrões rígidos de envelhecimento e comportamento. Sua obra funciona, portanto, como um chamado à liberdade de ser, incentivando uma existência que não seja definida apenas pela sedução visual das promessas farmacêuticas, mas por uma compreensão mais autêntica e crítica de nossa própria humanidade.
Imagem: Geometrias da esperança (e do medo). Galeria Miles McEnery, Nova Iorque, NY. 8 de maio a 21 de junho de 2025. Estúdio Beverly Fishman.
Fonte: NextAvenue.
Atualizado em 16/03 às 14h53
