O amor romântico e o desejo na velhice configuram-se como signos de libertação e transgressão, contrariando os preconceitos sociais que os rotulam como tabu.
O envelhecimento e o desafio dos preconceitos
O envelhecimento populacional é um fenômeno de grande relevância global, responsável por alterações significativas no perfil demográfico do Brasil e de outros países. Este cenário impõe desafios a diversas ciências que se debruçam sobre o tema, especialmente no que tange à promoção de saúde e qualidade de vida para as pessoas idosas.
Contudo, a busca por políticas de cuidado esbarra em uma importante barreira: os preconceitos, estigmas e estereótipos que acompanham as representações sociais da velhice. Historicamente, a literatura, o senso comum e a filosofia têm oferecido fontes suficientes para documentar os maus-tratos e as vicissitudes impostas aos velhos. Como notou Simone de Beauvoir (1970), os mitos e clichês burgueses tendem a apresentar o velho como um “totalmente outro”, razão pela qual seus desejos, sentimentos e reivindicações são ridicularizados. Nesse contexto, o amor e o ciúme parecem “odiosos ou ridículos”, a sexualidade “repugnante” e a violência “irrisória”.
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Em sintonia com este panorama, a questão central que se impõe é: entre os velhos, podemos conceber a sexualidade, e particularmente o amor romântico, como uma realidade ou, antes, como uma utopia?
A batalha contra a exclusão e a tirania estética
A problemática da aceitação das práticas amorosas e manifestações sexuais em pessoas de idade avançada, inclusive por elas mesmas, constitui a segunda dificuldade crucial para a vivência plena na velhice. A expectativa de vida crescente estende a possibilidade de experiências afetivas e sexuais, mas o peso do preconceito, que associa o envelhecimento à doença, incapacidade e assexualidade, torna os desafios enormes.
São vários os fatores históricos e sociais que alicerçam a desvalorização do amor romântico na velhice, incluindo clichês sobre a relação entre amor, sexualidade e procriação, e as exigências morais impostas aos idosos. Exige-se deles a serenidade, e se afastam da imagem do “sábio aureolado de cabelos brancos,” caem na imagem oposta do “velho louco que caduca e delira”. De qualquer forma, são situados “fora da humanidade”. Neste contexto, o amor romântico se torna um tabu, uma interdição, frequentemente restringido aos jovens e adultos, restando aos velhos a abstinência ou a amizade.
A interdição, contudo, convida à resistência. Filmes como Meu Bolo Favorito expõem a dimensão transgressora e real do afeto na velhice, mostrando que a busca por um novo romance por uma mulher de 70 anos pode ser um ato de resistência e revolucionário contra as expectativas sociais e o conservadorismo. Esse tipo de ato corajoso afirma que o desejo não tem idade.
Um obstáculo adicional é a tirania de um padrão estético regulado pela beleza do jovem. Os corpos perfeitos e a atração física como requisitos para o relacionamento ameaçam a sexualidade na maturidade, afetando profundamente as autorrepresentações do corpo, especialmente entre as mulheres idosas.
A velhice como etapa de desenvolvimento e a atemporalidade do desejo
O estudo da Gerontologia tem enfatizado que o envelhecimento não é sinônimo de decadência, mas uma sequência da vida com suas peculiaridades. A perspectiva do desenvolvimento ao longo da vida (life span) é crucial, pois enfatiza que o desenvolvimento é incessante e o sujeito está permanentemente em construção, combatendo a crença da “morte do sujeito” e de suas possibilidades afetivas.
Nessa esteira, a Psicanálise oferece um pilar importante, na medida em que o desejo não morre, estagna ou entra em decréscimo por princípio; sua marca, assim como a do inconsciente, é a atemporalidade. Embora Freud tivesse restrições iniciais, a psicanálise atual reconhece que a aplicação na velhice é viável, pois o tratamento envolve sempre o inconsciente atemporal. Como afirma Jack Messy (1999), na circulação da libido “não há jovem nem velho, o desejo não tem idade”.
O processo de envelhecimento exige um “labor psíquico” que estrutura a identidade e constitui a subjetividade do ser velho – o trabalho do tempo. A velhice é vista como um ‘Instante de Ver’, um momento de encontro com o Real e com a finitude, que pode provocar reposicionamentos subjetivos e a sustentação de uma subjetividade desejante.
Ressignificações do amor romântico na maturidade
O amor romântico, surgido no século XVIII com a ordem burguesa e baseado na idealização e exclusividade, tem evoluído. As transformações sociais, como o aumento do divórcio e a maior liberdade sexual, trouxeram à tona a necessidade de novas configurações de afeto.
O ideal romântico de que “apenas a morte separa” tem dado lugar a concepções mais adaptadas à longevidade, como:
1. Amor companheiro: Caracterizado por carinho, amizade, respeito e maturidade. É mais duradouro e, na velhice, o companheirismo é frequentemente o elemento mais importante e um indicador de sentido subjetivo.
2. Amor confluente: Cunhado por Giddens (1993), opõe-se ao ‘para sempre’ do amor romântico. É um amor ativo e contingente, cuja continuidade depende do nível de satisfação mútua na relação.
A maturidade é considerada uma época ideal para vivenciar um amor mais sereno e equilibrado. Os idosos, com a personalidade amadurecida, tendem a conhecer melhor a si mesmos e o que desejam do que os mais jovens. O amor é uma construção, um “organismo vivo,” que precisa ser alimentado constantemente.
O Eros (amor erótico) retém sua importância ontogenética na velhice, pois as relações de intimidade e o prazer no contato com o parceiro funcionam como forças motrizes do autoconhecimento e do crescimento pessoal. O amor e a sexualidade são uma das mais importantes fontes de prazer e satisfação, influenciando positivamente a saúde mental, emocional e física.
O afeto como potência libertadora
O amor na velhice, longe de ser uma utopia, é uma realidade em constante ressignificação. A capacidade de amar e desejar permanece. Ao permitir essa vivência, o idoso se sente “voltando à vida,” como ilustrado pela redescoberta da paixão em personagens literários na maturidade.
Os afetos na velhice manifestam-se como “potências libertadoras e transgressoras”. A redescoberta de uma vida amorosa implica a reinvenção das formas amorosas, passando pela ternura, o toque, a voz e a expressão corporal, resgatando as primeiras formas de amor.
Como profissionais (e futuros profissionais) da saúde – ecoando a visão da atenção integral e do cuidado ampliado na gerontologia – é imperativo oferecer suporte para que os idosos possam desfrutar de uma vida afetiva plena. É fundamental desmistificar conceitos errôneos sobre a sexualidade e afetividade na maturidade, reconhecendo o amor como uma fonte crucial de bem-estar.
O amor é um sistema complexo e dinâmico, construído a partir das vivências e experiências individuais, o que reafirma que a experiência do amor é única para cada ser humano e não deve ser padronizada pela cronologia.
Foto Sofia Shultz/pexels.
